O ‘fait-divers’ e o essencial
Quinta-feira, Julho 2, 2015

No meio da mediania que caracteriza a qualidade das intervenções dos deputados municipais vimaranenses, são escassos aqueles a quem me habituei a apreciar o estilo. A postura não raras vezes desconcertante da deputada do PSD Paula Damião é uma das excepções.

Conhecendo-lhe o estilo, julguei que a polémica à volta da proposta feita por Damião na última Assembleia Municipal fosse despropositada. A ideia de “encerrar temporariamente” a Plataforma das Artes talvez fosse apenas irónica, uma provocação, como outras que lhe conhecia. Fui, por isso, ouvir a gravação da sessão do final de Junho para perceber o tom da intervenção. Fiquei espantado. E fiquei sem dúvidas: Paula Damião falava a sério. E o PSD, pela voz de uma das suas mais experientes deputadas, propôs mesmo o “encerramento temporário” de um dos equipamentos mais diferenciados da oferta cultural de Guimarães.

O que seria um “encerramento temporário”? Por quanto tempo? Até à “descoberta de um rumo”, dizia a deputada social-democrata. E isso quer dizer o quê? Ficamos sem saber. O Centro Internacional de Artes José de Guimarães tem poucos visitantes para a sua dimensão e importância – 16 mil anuais também me parecem um número reduzido. Mas não se pode desligar esse resultado do contexto cultural, do facto de ser um equipamento relativamente recente e de, ao contrário das artes de palco, as artes plásticas contemporâneas terem, em Portugal, uma dificuldade de vingarem junto dos media e dos públicos.

Que impacto teria o encerramento proposto? Seria uma catástrofe. Financeira (já que o PSD tanto gosta de reduzir a cultura a euros), porque impediria a venda de ingressos, enquanto se mantinham os custos da estrutura; mas sobretudo mediática e de credibilidade junto do meio artístico. Antes de defender a proposta – ou, pelo menos, não se tendo demarcado dela – o PSD pensou nisto?

Pensando sobre o assunto, não posso ficar espantando. O maior partido da oposição apresenta-se, a cada quatro anos, com vontade de voltar a Santa Clara. Tinha por isso a obrigação de ter um discurso sobre Cultura, uma área central da afirmação de Guimarães. Não tem. Nunca teve. À falta de um especialista – ou de alguém com algum conhecimento ou sensibilidade para o tema – os social-democratas têm-se entretido com fait divers e propostas disparatadas como esta. Já tinham feito o mesmo, durante todo o processo prévio à Capital Europeia da Cultura.

Curiosamente, o PSD apresenta uma proposta como estas, mas não apresenta uma alternativa. Fez o mesmo durante todo o imbróglio das cooperativas. E, em matéria cultural, também não foi capaz de dar seguimento ao seu esforço de colaboração com o Governo – que usou como bandeira a propósito da instalação do pólo da Universidade das Nações Unidas, em Couros, por exemplo – para convencer o executivo nacional do que é óbvio e justo: tendo sido Guimarães Capital Europeia da Cultura tem que ter um tratamento semelhante (à sua escala) ao que tiveram Lisboa e Porto depois de terem acolhido o certame. Sobre isso, nem uma palavra.

Há muito por onde discutir o que está a acontecer na Guimarães saída da Capital Europeia da Cultura de 2012. As pessoas mais qualificadas que por aqui passaram (em 2012, mas também antes, muito antes, desde a abertura do Centro Cultural Vila Flor) deixaram a cidade. Sobre isso, da oposição, nem uma palavra. A visibilidade nacional e internacional que a cidade conseguiu com 2012 está a esboroar-se. Sobre isso, nem uma palavra. E a preocupante “efemerização” (perdoe-se-me o neologismo) da oferta da cidade, cada vais mais turística do que artística, numa lógica de pão e circo? Também não merece uma palavra. Esta é a discussão essencial que importa ter sobre a cultura em Guimarães. O maior partido da oposição prefere concentrar-se no acessório.