O engenheiro químico Charles Lepierre nas Caldas das Taipas (1909-1911)
Quinta-feira, Março 31, 2016

Em 1905, a Câmara Municipal de Guimarães aprovou a proposta de arrendamento do Estabelecimento Termal das Taipas. Em 1906, José Antunes Machado morador nas Taipas, arremata pelo lance de 520$000 réis anuais, a concessão da exploração industrial e comercial das nascentes de águas termais. Nos três anos seguintes, o concessionário vai dar início à implementação de uma série de infraestruturas como sejam uma “buvette” de captação e distribuição das águas mineromedicinais e de um moderno balneário (designado de “Banhos Novos”). Este edifício formado por um corpo central (onde se situavam os gabinetes médicos, escritório, sala de espera, inalações, pulverizações e sala das máquinas a vapor), no qual se abriam duas alas destinadas a banhos de imersão, duches, irrigações, massagens e eletroterapia. No andar superior situava-se o arquivo e a residência do diretor cínico do estabelecimento termal. No entanto, o concessionário José Antunes Machado depressa cede os direitos de exploração ao consórcio Empresa Termal das Taipas S.A.R.L. criado por escritura pública em 4 de maio 1910 com todos os direitos e obrigações constantes do contrato celebrado em 1906.

Uma prova da importância da atividade termal do novo balneário resulta do facto de em 1907, ainda na fase de construção de uma das alas, terem aí sido administrados mais de 2000 banhos de imersão, duches, inalações-pulverizações e irrigações. Com o propósito de proceder a novas e atualizadas análises das nascentes termais dos denominados “Banhos Velhos” e “Banhos Novos”, o distinto clínico analista residente em Coimbra, Charles Lepierre (1867-1945), no domingo, 31 de outubro de 1909, veio expressamente a esta povoação visitar os novos balneários, com o propósito de recolher, examinar e analisar as suas nascentes. O analista de renome internacional ficou muito impressionado com o novo balneário, elogiando a limpeza e as modernas instalações do estabelecimento termal. Durante a visita, Charles Lepierre, engenheiro químico e professor universitário de origem francesa, foi sempre acompanhado pelo Dr. Alberto Ribeiro de Faria, diretor clinico dos balneários. O Dr. Alberto Faria acompanhou Charles Lepierre a Guimarães, que regressou a Coimbra, no dia seguinte. O concessionário das termas pretendia, que as respetivas análises fossem divulgadas, antes da abertura da época balnear do ano seguinte.

Seguindo os propósitos do concessionário, é publicado em 1911, uma monografia de 45 páginas, por Charles Lepierre, denominada “Analyses chimica e bactereologica das aguas das Thermas das Taypas”. Neste estudo (apresentado em 1910) editado nas Oficinas do “Comércio do Porto”, o químico parisiense afirma como nota introdutória: “Tratei, segundo as normas da minha vida, corresponder o melhor que em mim depositaram os donos das Thermas e no relatório junto resumo os trabalhos anlyticos a que procedi. (…) Faço sinceros votos para que o trabalho analytico que apresento, tornando mais conhecidas sob o ponto de vista chimico, as já afamadas aguas das Taypas, seja o ponto de partida de uma éra nova de prosperidade, para que a Empreza das Thermas das Taypas, prosperidade a que tem jús pleno pelas optimas qualidades de suas aguas”.

Após esta nota introdutória Charles Lepierre apresenta uma bibliografia específica destas termas. Seguidamente, expõe uma súmula histórica das águas, bem como uma descrição das instalações dos “Banhos Velhos” e dos “Banhos Novos”. Continua o seu trabalho, com a indicação de precedentes análises das águas, efetuadas em 1867 e em 1890 e com as características gerais das águas. No corpo do seu trabalho, apresenta em pormenor, os resultados das análises das recolhas, que efetuou nas Taipas, às duas principais nascentes, em termos de composição elementar e análise bacteriológica. Termina a sua investigação com um trabalho comparativo das águas das Taipas, com águas similares portuguesas e estrangeiras, nomeadamente francesas. Concluindo, que as águas das Taipas, nada ficavam a dever às águas estrangeiras do mesmo tipo. Finaliza o seu estudo com a análise da água potável das termas.

Com a publicação deste estudo, a Empresa Termal das Taipas S.A.R.L. apresentava um trabalho credível de um químico de origem francesa, que se distinguiu no estudo e caracterização físico-química das águas minerais e mineromedicinais de Portugal. Simultaneamente, reforçava a modernidade e a competitividade da indústria termal das Taipas, no panorama nacional e europeu.

Historiador