Ocultação de prova
Segunda-feira, Dezembro 10, 2012

Quando a crise americana rebentou em 2008 – conhecida pela crise do subprime, lembram-se? – chegando à Europa em 2009, a banca, com raras excepções, mostrou ser um mito com pés de barro. Sucederam-se apressados testes de stress para despistagem das maleitas. Para não alarmar a opinião pública, os exames foram cuidadosamente trabalhados e todos os bancos, mesmo os mais vulneráveis, passaram no teste.

Portugal não escapou. O retrato da banca portuguesa, ainda que em foto à la minute, revelou uma banca a viver muito acima do que é aconselhável.

É facto que a banca portuguesa fomentou o consumismo, facilitando – será mais exacto dizer estimulando, aliciando, seduzindo – com propostas indecentes, logo irrecusáveis, o acesso ao crédito bancário.

Como consequência dessa opção que lhe garantia lucros fabulosos para distribuir pelos accionistas, a banca vivia numa relação desequilibrada entre o crédito concedido e o nível de depósitos, compensando esse desequilíbrio com muito dinheiro virtual e poucas garantias. Um exemplo por todos, os financiamentos a Duarte Lima a troco de palavras.

A esmagadora maioria desse dinheiro fictício serviu para financiar a indústria imobiliária, os grandes empreendimentos urbanísticos nascidos da demolição de áreas antigas e zonas industriais, todas aliciadas por indeminizações generosas que se repercutiam nos preços fantásticos das novas urbanizações para cuja aquisição nunca faltou crédito bancário.

Mas serviu também para modernizar empresas, mesmo ou fingir, substituindo equipamentos dentro do prazo de vida útil por outros mais recentes que os fornecedores queriam impingir, operações com crédito bancário garantido à cabeça e a juros tentadores.

E serviu igualmente para construir auto-estradas paralelas que abonavam chorudas e obscenas rendas a investidores, particulares e institucionais, banqueiros e bancos em última instância, ao mesmo tempo que fazia a boa cama onde se haveriam de deitar políticos corruptos, ministros sem ética que tinham despachado concessões escandalosas de que mais tarde colheriam frutos.

Serviu ainda para incentivar o florescimento dos sectores protegidos da concorrência, as grandes cadeias de distribuição, por exemplo, fugidas do meio da indústria para o porto seguro de taxas de rentabilidade muito acima das industriais e com risco mínimo.

Colocar no mesmo plano das responsabilidades o agressor e a vítima, o automobilista e o peão, pode dar ares de uma visão equidistante e imparcial das causas, mas é não querer perceber que uns e outros tiveram papel diferente numa peça em que só uns ganham, uma peça cujos avós estão na Europa e no seu rebento mais jovem, o euro.

É a moeda única que faz iguais economias muito diferentes, com graus de desenvolvimento diferentes, com produtividade e competividade assimétricas. Por magia, os juros em Portugal passaram de dois dígitos, antes da adesão ao euro, para um dígito, após a adesão. Resultado, a corrida desenfreada ao crédito barato por parte dos governos, dos industriais e das pessoas. Era o tempo da “Europa connosco”, tempo de compra de muitos votos, tempo de algum contrabando partidário.

Não querer perceber a causa das coisas é lavrar num erro que serve os verdadeiros infractores. Económicos e políticos. A Banca e os partidos políticos que conduziram Portugal ao matadouro. O PS, mas também o PSD e o CDS. Percebe-se a ocultação da culpa, mas não se deixa passar sem a devida correcção.