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O centenário da Igreja Matriz das Taipas
Quinta-feira, Novembro 12, 2015

Há um século inaugurou-se nas Caldas das Taipas, a atual Igreja Matriz, novo equipamento religioso que constituiu-se como uma âncora de uma nova centralidade de religiosidade e de sociabilidade desta vila, e que se assumiu nestes 100 anos como um espaço de referência da identidade local. Na época, a sua construção beneficiou da abertura de uma nova artéria denominada Av. Trajano Augusto, que ligava o centro da povoação à Ara de Trajano, ao estabelecimento termal e ao futuro Hotel das Termas.

A população das Taipas, desde os finais do século XIX, com o crescimento populacional e com o grande afluxo de aquistas ao estabelecimento termal, reivindicava a necessidade de uma nova igreja paroquial. A então igreja matriz denominada atualmente de “Igreja Velha”, bem como a Capela de Santo António já não satisfaziam as necessidades de culto da povoação. No entanto, a falta de recursos financeiros impediam a concretização da edificação de uma nova igreja.

A edificação deste novo templo remonta a julho de 1910. Nessa altura, o Sr. José António de Araújo Barbosa, compadre e representante do Conde de Agrolongo, chamou à cidade de Braga, o Rev. Padre Domingos José Antunes Machado, pároco desta freguesia, e o Sr. António de Freitas Ribeiro, a quem apresentou a planta da obra da autoria do arquiteto João de Moura Eça Coutinho, e a determinação do mesmo Conde, para se proceder à construção da nova igreja. Nas Caldas das Taipas, quando esta notícia se tornou do domínio público uma banda de música percorreu as ruas da povoação acompanhada por fogo-de-artifício e com vivas ao Conde de Agrolongo, pelo ato de benemerência que acabara de praticar. As obras patrocinadas por José Francisco Correia, Conde de Agrolongo, natural de São Lourenço de Sande (1853-1929) e falecido em Lisboa, prolongam-se por 5 anos. Este Conde oferece igualmente para a torre da igreja paroquial de São Tomé de Caldelas um dos sinos manufaturado em Braga, nas oficinas de Rebelo da Silva. Este sino fabricado em 1914, continha uma inscrição indicando que era oferta do Conde de Agrolongo.

A igreja é solenemente inaugurada a 11 de abril de 1915, na presença do Conde de Agrolongo e do arcebispo de Braga D. Manuel Vieira de Matos. É organizada uma comissão de festejos para o efeito, sendo as principais artérias da povoação engalanadas. Muitas das residências particulares foram ornamentadas, nomeadamente no centro da freguesia, a casa do general Osório de Aragão, para acolherem a passagem do arcebispo e do benemérito. Estiveram presentes neste ato: o comandante do Regimento de Infantaria nº20, estacionado na época no Paços dos Duques de Bragança; o Dr. Pedro Guimarães, administrador do concelho; um grupo de admiradores do Conde de Agrolongo oriundos de Guimarães e de Braga; e a população das Taipas e das freguesias vizinhas. Após a bênção do novo templo, realizou-se um cortejo que escoltou o arcebispo e o Conde de Agrolongo, acompanhado por crianças vestidas de anjos, que cantavam o hino do benemérito. Nestes festejos tomaram parte a tuna da Juventude Católica de Guimarães e quatro bandas de música.

O almoço festivo com a presença do Conde de Agrolongo, mecenas deste templo, e do Arcebispo de Braga, foi servido no Grande Hotel Vilas, na época gerido por Francisco de Oliveira. Da parte de tarde, saiu de São Martinho de Sande em direção à nova Igreja Matriz uma procissão transportando as imagens do Sagrado Coração de Jesus e da Imaculada Conceição oferecidas pelo Conde. Este templo que originalmente tinha dois altares laterais dedicados ao Sagrado Coração de Jesus e a São José e um altar-mor em talha (desaparecido com as intervenções de finais dos anos 70) foi desenhado no estilo neo-românico.

Na lápide colocada junto ao pórtico da entrada, sob a galilé que antecede a igreja, podemos ler: “Mandou erigir este templo o conde de Agrolongo. Administrando a obra José António de Araújo Barbosa. Architecto João de Sousa Coutinho A. Eça. Foi inaugurada a 11 de abril de 1915 pelo Arcebispo Primaz D. Manuel Vieira de Matos”. Julgamos que esta lápide não é a original, pois existe um erro crasso nesta lápide: no nome do arquiteto, onde se lê “Sousa” dever-se-ia ler “Moura”. Por informação oral, soubemos que a placa original ter-se-ia partido, sendo substituída por outra contendo o erro.

Poucos dias após a inauguração da Igreja Paroquial de São Tomé de Caldelas, era inaugurado em Braga (21 abril 1915) o Teatro Circo, projetado também por João de Moura Coutinho de Almeida Eça. Deste modo, em termos de autoria de projeto, esta igreja está estreitamente ligada ao Teatro Circo.

Enquanto o resto da Europa se debatia com a Grande Guerra, nas Caldas das Taipas e em Braga, respetivamente o dia 11 e 21 de abril era de festa, com a inauguração de uma nova igreja e de uma sala de espetáculos, da autoria do arquiteto João de Moura Eça.

Historiador, docente na Escola EB 2, 3 de Briteiros

O centenário da construção do Hotel das Termas
Quinta-feira, Outubro 15, 2015

O aglomerado de Caldas das Taipas situado na freguesia de São Tomé de Caldelas, apresenta ao longo dos séculos XIX e XX, características que, sem serem únicas na área geográfica limitada pelo Vale do Ave, têm contudo algumas singularidades, que o tornam um objeto de estudo aliciante para o investigador em Ciências Sociais e Humanas. Às características peculiares da área construída, consequência primeira do turismo termal e das funções que este atraiu, aliaram-se outras, como sejam a situação geográfica privilegiada, a par da atuação de edis dinâmicos, que permitiram dotar o núcleo populacional de infraestruturas à data pouco comuns na maioria dos núcleos populacionais do Minho. Esta dinâmica assentou, fundamentalmente, na especificidade do termalismo, cujos reflexos desde cedo se fizeram sentir nas características morfofuncionais do lugar considerado, contribuindo para que a povoação merecesse destaque dentro de todas aquelas que até então integravam o concelho de Guimarães.

A própria situação geográfica deverá ter sido um factor que contribuiu decisivamente para o crescimento da povoação, na margem direita do curso do Rio Ave – onde este se estreita em meandros – atravessando longitudinalmente quase toda a freguesia (vila desde 1940). Posicionada no cruzamento de artérias tão importantes, como sejam aquelas que ligam Braga com Guimarães e outras ramificações, que se estendem pelo Vale do Ave, como Famalicão, Vizela e Póvoa de Lanhoso, não se encontrando muito afastada do núcleo urbano do Porto.

A grande procura das termas deve-se por conseguinte às propriedades terapêuticas das suas águas tépidas, que brotavam das diáclases de granito porfiróide através de duas captações (“Banhos Velhos” e “Banhos Novos”), com excelentes resultados no tratamento das afeções cutâneas e em doenças do aparelho digestivo e respiratório. Uma prova da importância da atividade termal do novo balneário (“Banhos Novos”) resulta do facto de, em 1907, ainda na fase de construção de uma das alas, terem aí sido administrados mais de 2000 banhos de imersão, duches, inalações-pulverizações e irrigações.

Após a publicação da Lei n.º1152, que criou em 1921 as Comissões de Iniciativa, o turismo nas Taipas sofre um renovado impulso. Pelo Decreto-Lei n.º 27424, de 31 dezembro 1936, em substituição das Comissões de Iniciativa são criadas as Juntas de Turismo. Imediatamente é formada a Junta de Turismo das Taipas, que nas décadas seguintes, juntamente com a Junta de Freguesia, irão proceder à construção de piscinas para adultos e crianças, ringues de patinagem, parque infantil, campos de ténis, parque de campismo e de um posto de turismo.

Em 1905, a Câmara Municipal de Guimarães aprovou a proposta de arrendamento do Estabelecimento Termal das Taipas (“Banhos Velhos”). Em 1906 José Antunes Machado, morador nas Taipas, arremata pelo lanço de 520$000 réis anuais, a concessão da exploração industrial e comercial das nascentes de águas termais. Nos anos seguintes, o aludido concessionário vai dar início à implementação de uma série de infraestruturas, como sejam uma “buvette” de captação e distribuição das águas minero-medicinais e de um moderno balneário (designado de “Banhos Novos”).

No entanto, José Antunes Machado depressa cede os direitos de exploração a um consórcio denominado Empresa Termal das Taipas S.A.R.L. criado por escritura pública de 4 de maio de 1910, com todos os direitos e obrigações constantes do contrato celebrado em 1906. Porém, em abril de 1915, procede-se a uma alteração nos termos do contrato, ficando estipulado que, em caso de rescisão do acordo, a Empresa Termal ficava obrigada a entregar todas as instalações termais à autarquia, com exceção de todos os terrenos e edificações adquiridos a partir dessa data. Este documento foi celebrado, certamente, já com a intenção por parte dos acionistas da Empresa, de construir uma unidade hoteleira, com vista a potencializar os recursos hidrotermais.

O ano de 1915 será uma data relevante para o fomento do turismo termal nas Taipas, pois inicia-se nessa altura a construção do Hotel das Termas, o maior estabelecimento hoteleiro na povoação, com 69 quartos. A traça é da autoria do arquiteto portuense Eduardo da Costa Alves. A Primeira Guerra Mundial originou a carestia de materiais e a falta de operários, provocando assim sucessivos atrasos na construção da última ala do hotel, que apenas ficaria concluída em 1924. Em 1918, esta moderna unidade hoteleira é inaugurada, no mesmo período em que são abertos, no nosso país, o Hotel Termal de Caldas da Saúde e o Salus – Hotel do Vidago.

O Hotel das Termas construído pela Empresa Termal das Taipas S.A.R.L. detentora até 1986 da exploração das águas termais, possuía uma ampla galeria envidraçada, que possibilitava aos seus hóspedes deslocarem-se diretamente do quarto para o balneário termal ao abrigo das correntes de ar. No rés-do-chão desta unidade hoteleira encontrava-se um monumental átrio, sala de jantar (com piano de cauda), sala de leitura e escrita, sala de fumo, sala de jogos, barbearia, cozinha e jardim interior. No seu interior existiam duas banheiras de imersão em mármore, semelhantes às existentes no balneário termal, para os hóspedes, que pretendessem realizar tratamentos termais no próprio hotel. O acesso ao primeiro piso efetuava-se por duas majestosas escadarias decoradas por azulejos com figuras femininas. O próprio mobiliário, na época, era considerado moderno, com o monograma “HT” e possuía serviço de louças exclusivo produzido pela fábrica de porcelana da Vista Alegre. Este edifício era enquadrado por um frondoso parque, possuindo garagens e campos de ténis para os seus hóspedes.

A dinâmica do termalismo taipense está bem patente no conforto deste estabelecimento hoteleiro frequentado por ilustres visitantes. Destaca-se o Presidente da República General Óscar Carmona, que aí esteve hospedado com a sua família, aquando do evento das Comemorações do Duplo Centenário, em Guimarães (1940). Outras personalidades de relevo, podemos indicar, a título de exemplo: o escritor Ferreira de Castro e o pintor Amadeu de Sousa Cardoso.

Um ano após do lançamento da primeira pedra do Hotel das Termas, o Grande Hotel Vilas, edificado na 2.ª metade do XIX, sofre importantes obras de ampliação. Com 23 quartos, funcionaria até ao início da década de 90, do século XX. As restantes unidades hoteleiras (Hotel Braga e o Hotel das Taipas) teriam uma duração efémera, sofrendo a concorrência do Hotel das Termas e do Grande Hotel Vilas. Em 1996, o Hotel das Termas será alvo de obras de remodelação e de ampliação, que o descaracterizaram, embora se tenham mantido algumas das suas características representativas da denominada “Arte Nova”, nomeadamente os azulejos das suas fachadas principal e traseira.

Em suma, o ano de 2015, corresponde para as Caldas das Taipas, um período de triplas comemorações: centenário da construção da igreja matriz (11 abril de 1915); centenário da construção do Hotel das Termas (3 outubro 1915) e os 75 anos de elevação à categoria de vila (19 junho de 1940).

Historiador, docente na Escola EB 2, 3 de Briteiros