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O Povo está a acordar e a mexer-se
Terça-feira, Março 6, 2012

Uma mentira, mesmo se muitas vezes repetida e amplificada pelo eco dos jornais e televisões domesticados pelo governo, nunca passa a verdade. Pode enganar alguns durante muito tempo, mas não engana todos ao fim desse tempo.

A mentira que mais me irrita é a que resulta da falsificação consciente e intencional dos factos, mutilando-os, moldando-os para servirem conclusões convenientes.

Na mitologia grega – e que bem me sabe falar da Grécia sobretudo desde que o seu presidente da República pôs na ordem o arrogante alemão que é ministro das finanças! – o deus Procusto costumava estropiar os corpos daqueles a quem convidava de modo a caberem na mobília do quarto onde os hospedava. Também entre nós, no debate político, há quem ajeite a realidade, há quem falsifique a representação da realidade, há quem negue os dados oficiais, lendo A onde está escrito B, desde que isso sirva as suas teses.

Foram publicados a semana passada os dados do desemprego, hoje o problema maior para a maioria dos portugueses, mas não para o governo que continua vidrado no défice orçamental e no que dizem os nossos credores.

Perante uma realidade social e económica tão dolorosa, o senhor primeiro-ministro reagiu com enorme falta de sensibilidade ao dizer que já esperava que o desemprego fosse elevado, que vai continuar a subir até ao fim do primeiro semestre para então começar a baixar. Tratando assunto tão doloroso para a generalidade das famílias – não haverá uma família portuguesa que não sinta na pele a falta de emprego – com superficialidade e imprudência o primeiro-ministro ofendeu, insultou e provocou mais de 1 milhão e duzentas mil pessoas, menosprezando o seu caso, o seu drama, a sua angústia.

Não reconhecendo deliberada e calculadamente importância, fingindo simultaneamente uma preocupação encenada, Passos Coelho confessou involuntariamente que entre ele, entre o seu governo, entre a troika e os que negociaram e assinaram o acordo de traição, há um crescente desfasamento com o país real.

Mas ao confessar igualmente que os impressionantes números do desemprego eram por si e pelos seus já esperados, o primeiro-ministro confirmou os mais recentes estudos de opinião que revelam que se alarga o fosso entre governantes e governados, sinal de descontentamento, de desilusão e de desesperança.

Conhecendo antecipadamente estes indicadores desfavoráveis, o primeiro-ministro tentou deitar água na fervura, agindo tal e qual o deus Procusto ao ajeitar as estatísticas do desemprego que o INE tinha publicado dias antes. Ao afirmar que a taxa de desemprego em Dezembro foi de 12,7% e não de 14%, como diz o INE, o primeiro-ministro revela ignorância ou má-fé, sendo que em qualquer das hipóteses fica mal, muito mal na fotografia.

Com o passar dos dias, este governo está em funções há pouco mais de 8 meses, mostra que estamos a ser governados por aventureiros da política, jovens que assimilaram mal a teoria, por políticos que não medem completamente as consequências dos actos que praticam.

No entanto, nesses pouco mais de 8 meses de vida, o governo não só não criou um único emprego, além dos destinados aos correligionários e amigos que enxameiam o aparelho do estado abaixo do nível de secretário (basta acompanhar o diário da república), como destruiu 160 mil postos de trabalho, preparando-se para destrui mais, que é o que significa a confissão de Passos Coelho que os números do desemprego ainda vão subir.

Se esta terapia de choque chegasse ao fim, mas não vai chegar porque o povo está a mexer-se, Portugal seria um país de contas certas e direitas (eventualmente) mas também de famintos, pedintes, pobres, doentes e abandonados.

O Povo está a resistir e a mover-se. Lenta mas seguramente aproxima-se do ponto crítico.

E quando o Povo atinge o ponto crítico, acontecem revoluções. Como em 1383, quando elegeu um rei; como em 1640, quando recuperou a independência nacional; como em 1910, quando, reagindo ao ultraje do ultimato inglês, impôs uma das primeiras repúblicas no mundo; como no 25 de Abril de 1974, quando despejou o fascismo. Isto vai.