O Guimarães Jazz começa hoje. Leia e ouça o nosso guia de audição do festival
Quinta-feira, Novembro 5, 2015

A vigésima quarta edição do Guimarães Jazz começa na próxima semana. Com um cartaz repleto de músicos que já passaram pelo festival vimaranense, a música será necessariamente diferente. Deixamos aqui o guia de escuta do Guimarães Jazz.

O Guimarães Jazz regressa, como é habito, na primeira metade do mês de Novembro. Esta é a edição 24 do festival vimaranense, que faz uma espécie de síntese do que foi o festival nos últimos anos. Para Ivo Martins, o director artístico do festival, a palavra repetição foi usada como forma de informar de forma honesta as pessoas que seguem o festival. Mas, no seu entender, as repetições serão antes regressos, referindo-se aos vários músicos que voltam a estar em cima do palco do grande auditório do Centro Cultural Vila Flor (CCVF).

Ivo Martins justifica estes regressos com o sentido de oportunidade, por haver formações que dificilmente se juntam. Nesse sentido, esta edição acabou por ser uma “boa colheita”, por haver uma série de eventualidades felizes que permitiram manter o alinhamento do festival, praticamente definido desde a edição anterior, sem grandes alterações – “há aspectos que não conseguimos controlar, como as datas de digressão dos músicos, a sua saúde ou as suas opções artísticas. Há muitos músicos que optam por acompanhar outros artistas, em vez de liderarem as suas formações”, explica Ivo Martins.

Os nomes até poderão ser os mesmos, mas música nunca se repetirá, na medida em que “a música é nova, feita por músicos ou formações diferentes”. Para Ivo Martins, o rigor e o critério das opções artísticas é uma das características da estrutura do festival, que vem sendo aprimorada ao longo das edições, de acordo com o retorno obtido junto do público e da crítica.

Um dos regressos é o de Taylor Ho Bynum, que esteve da edição anterior do Guimarães Jazz. O seu regresso justifica-se pelas boas referências e pela competência que o músico deixou aos organizadores. O cornetista vem dirigir a Big Band e o Ensemble de Cordas da ESMAE (Escola Superior de Música e Artes do Espectáculo).

“É um projecto difícil de implementar. Os músicos estão cá durante oito dias a ensaiar, para apresentar um concerto com elevado grau de complexidade – são mais de 40 pessoas em palco”, explica Ivo Martins para justificar o critério do rigor que, por vezes, obriga a abdicar do risco de trazer músicos novos e optar pelos tais regressos: “ter a sorte e a felicidade de os músicos funcionarem bem em conjunto é uma sorte e uma felicidade”, conclui.

Há, no entanto, um conjunto de marcas identitárias que o Guimarães Jazz foi concretizando ao longo de quase duas décadas e meia. Ivo Martins é director artístico do festival há vinte anos. Durante esse período, a equipa que organiza o festival procurou criar um perfil, que se vai adaptando todos os anos. Desde logo a aposta no futuro e nas novas gerações de músicos, que têm um espaço próprio na programação do festival. Também abrangência dos formatos, formações e estilos. Tudo isto, com o objectivo de tornar o festival aberto à generalidade do público e não dirigi-lo unicamente para os conhecedores do género.

Além dos concertos que decorrem todos no CCVF há, como tem sido hábito, as Oficinas de Jazz e as jam sessions, que se dividem entre a sede da associação Convívio (co-organizadora do festival) e o café-concerto do CCVF. Este ano regressa o projecto Porta-Jazz, que procura juntar músicos portugueses e registar o concerto para, desta forma, deixar um documento que perdure.

E por falar em documentar aquela que será a memória do festival, a edição deste ano do Guimarães Jazz será acompanhada pelo lançamento do primeiro capítulo do documentário “Uma História de Jazz”, realizado por Cristina Marvão e que deixa o registo da experiência concreta do que foi o Guimarães Jazz, com depoimentos de figuras que estiveram ligadas ao percurso do festival. O documentário será apresentado no dia 4 de Novembro, às 22 horas (Grande Auditório do CCVF) e depois no dia 14 de Novembro, às 18 horas (Pequeno Auditório do CCVF).

GUIA DE AUDIÇÃO DO GUIMARÃES JAZZ 2015
Melhor do que dar a conhecer os nomes que irão estar no Guimarães Jazz de 2015, será permitir uma experiência de descoberta da obra dos respectivos artistas. Por isso, na redacção do REFLEXO, decidimos criar um Guia de Audição do Guimarães Jazz, não só para dar a conhecer como soam os músicos em cartaz, mas também para desmistificar alguma resistência no que respeita ao género.

Valerá a pena passar os ouvidos por alguns dos muitos discos que fazem a discografia deste festival. Em alguns casos, a experiência poderá ser surpreendente. Para ouvir os discos basta pesquisar os títulos no Spotify ou seguir os links que lhe vamos deixando ao longo do texto.

Oregon : Roots In The Sky (1979)
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O colectivo Oregon é um dos regressos no Guimarães Jazz. Estiveram na edição de 1996, em formato trio, numa altura em que o seu percussionista, Collin Walcott tinha falecido num acidente de viação. Os Oregon apresentam-se desta feita em Guimarães em quarteto, com Mark Walker na bateria e dois dos seus fundadores – Ralph Towner e Paul McCanless.

Os Oregon, formados nos anos 1970, foram particularmente importantes por terem sido pioneiros em fazer a fusão do jazz com sonoridades exóticas, oriundas de latitudes africanas, orientais, sul americanas e ainda com a música erudita, de origem europeia. Para Ivo Martins a presença dos Oregon é uma das felicidades da edição de 2015 do Guimarães Jazz, dada a dificuldade de conseguir fazer com que as agendas dos músicos permitam que se juntem e também pela influência e longevidade do grupo.

O disco que serve de guia para o som dos Oregon data de 1979. Roots In The Sky é o segundo de dois discos da banda pela editora Elektra. A nova editora proporcionou aos músicos recursos de gravação de que não dispunham anteriormente. A sonoridade do grupo refina-se por esta altura, ao mesmo tempo que a composição dos temas se torna mais densa, à medida que os instrumentos sintetizados começam a ter algum protagonismo. Daí vem o característico som de guitarra sintetizada, marcante no som de Ralph Towner.

Os Oregon tocam quinta-feira, 5 de Novembro, às 22 horas.
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Brian Blade and The Fellowship Band : Landmarks (2014)
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O baterista Brian Blade é dos casos em que o músico se torna conhecido por acompanhar outros músicos. Toca frequentemente com inúmeras formações, sendo talvez a de Wayne Shorter, aquela com lhe trouxe maior visibilidade. Foi com Wayner Shorter que Brian Blade esteve em Guimarães, em 2006.

A Fellowship Band é segundo Ivo Martins “uma velha aspiração do Guimarães Jazz”, desde aquele concerto com Wayne Shorter. O colectivo que Brian Blade lidera junta-se poucas vezes em palco, apesar de ter já vinte anos. Foi em 1998 que o baterista lançou o seu debute, em nome próprio, pela editora Blue Note. Os músicos que estarão com ele, em Guimarães, tocaram nesse disco.

Em 2014 o grupo lançou o disco Landmarks sendo o quarto com a designação Brian Blade and The Fellowship Band. Trata-se um disco que representa o refinamento da composição do grupo, afastando-se das referências mais canónicas do jazz, na sua vertente de improviso, aproximando-se mais de um conceito de música para imagens em movimento, deixando entrar as referências da música tradicional e espiritual norte-americanas. Vale a pena experimentar ouvir o disco e inventar as imagens que melhor sirvam a uma banda-sonora escrita à medida da imaginação de cada um.

Brian Blade and The Fellowship Band toca na sexta-feira, 6 de Novembro, às 22 horas.
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Cholet-Känzig-Papaux Trio : Exchange (2014)
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O trio liderado por Jean-Christophe Cholet formou-se em 2002. É a apresentação de formação clássica de piano-contrabaixo-bateria. O jazz europeu tem-se manifestado irrequieto, face aos modelos estruturantes do jazz e, por isso, tem experimentado novas abordagens que levam o género a explorar novos domínios estéticos.

O trio de Cholet (piano), com Heiri Känzig (contrabaixo) e Marcel Papaux (bateria) provém dessa linhagem do que se vem convencionando chamar de jazz europeu. Em Exchange, disco de 2014 (com apenas algumas faixas disponíveis no Spotify), o trio explora o lado emotivo nas composições e dá uma perspectiva refrescante de estrutura e improvisação.

Cholet Känzig Papaux Trio toca no sábado 7 de Novembro, às 18 horas
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Jason Moran : All Rise: A Joyful Elegy For Fats Waller (2014)
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O pianista Jason Moran esteve em várias edições do Guimarães Jazz, a última das quais a acompanhar Charles Lloyd, em 2010. Desta feita, contudo, apresenta-se em nome próprio e com um projecto no mínimo estimulante, onde recupera o repertório de Fats Waller (1904-1943). Nas palavras de Ivo Martins, “este é o momento festivo do festival”.

Ainda nas palavras de Ivo Martins, Fats Waller foi um músico pop na sua época – ou seja, os loucos anos 1920-30, quando o termo ainda nem sequer existia. O legado Fats Waller faz parte de um imaginário que nos transmite a agitação dos bailes dançantes da belle epoque. Diz a história que o pianista, além de músico requisitado e popular, teve também uma carreira paralela como comediante. Neste disco de Jason Moran, lançado via Blue Note em 2014, convida à celebração de uma época, que teve o seu reflexo distinto na história do jazz.

O convite será para levantar e dançar. Mesmo que no grande auditório do CCVF tal se torne difícil. Ousadias como esta fazem com que Jason Moran seja hoje considerado como um dos músicos de jazz mais influentes da sua geração.

Jason Moran apresenta Fats Waller Dance Party no sábado, 7 de Novembro, às 22 horas.
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Taylor Ho Bynum Sextet : Asphalt Flowers Forking Paths (2009)
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O cornetista Taylor Ho Bynum estará no Guimarães Jazz a dirigir a Big Band e Ensemble de Cordas da ESMAE, juntamente com Tomeka Reid no violoncelo (domingo 8, às 17 horas). Estará também com um quinteto onde, ao formato clássico piano-contrabaixo-bateria, se juntam a corneta e o violoncelo.

Anteriormente, a propósito do trio de Jean-Christophe Cholet, falávamos no jazz europeu e na sua tendência para a deriva em direcções diversas, por vezes desconhecidas. É um jazz exploratório, avant-garde e, porventura, mais desafiante ao intelecto, por levantar questões e ao favorecer o incerto ao que é tido como dado adquirido.