PUB
O BES é a obra-prima do embuste
Sexta-feira, Abril 24, 2015

António Barreto deixou para o final da sua intervenção nos “Colóquios para a Cidade” as afirmações mais polémicas. Afirmou ainda que a “soberania nacional está penhorada” e não sabe “se algum dia será resgatada”, acrescentando que Portugal “poderá desaparecer”

O conhecido sociólogo mostrou-se emocionado por voltar a Guimarães, cidade que já lhe tinha deixado recordações felizes e não foi parco nos elogios ao que viu na cidade vimaranense, afirmando que “o que foi feito, foi único no país”.

Com o tema “40 anos de Abril. Pontes para o Futuro”, dividiu a sua intervenção no antes do 25 de Abril, evocando o que classificou como “as grandes forças motoras” que levaram à revolução de 1974, elencou as grandes mudanças verificadas no país com a passagem para a democracia, os “grandes falhanços do país” nos últimos 41 anos e os “motivos de orgulho” que também se podem encontrar nestas últimas quatro décadas.

Com o Salão Nobre da Sociedade Martins Sarmento repleto, António Barreto começou por referir que, nos anos 60, o Concílio Vaticano II, o início da guerra no ultramar, a forte corrente migratória, a criação da RTP e o forte crescimento económico foram elementos chave para uma mudança na sociedade que culminou com o 25 de Abril.

Portugal, após esse período, assiste a “grandes mudanças”. Na visão de António Barreto, Portugal assistiu à chegada de uma sociedade mais plural, a fortes alterações demográficas (para além da quebra da natalidade, a passagem de 105 mil reformados em 1965 para 3 milhões em 2015) e as apostas na educação e saúde que provocaram um aumento considerável no bem-estar da população portuguesa.

Nestes 41 anos, o ministro do VI governo constitucional aponta três “grandes falhanços”. O caminho que nos conduziu à atual dependência em relação aos credores que o leva a afirmar que a “soberania nacional está penhorada ” e não sabe “se algum dia será resgatada”. Para esta situação atribuiu a maior responsabilidade aos portugueses que “se portaram mal” mas não excluiu de responsabilidades a EU.

O segundo falhanço é a nossa incapacidade de registar um “crescimento económico sustentável para manter o estado social” e, por último, a “perpetuação da demagogia política” e de uma promiscuidade na área do poder que torna sustentável essa demagogia. Disto resulta o estarmos a viver um “período de democracia mínima”, o que torna muito difícil “correr com a corrupção”. Foi neste período que se referiu ao BES como a “obra-prima do embuste”, questionando onde param cerca de 7 mil milhões de euros de que se perdeu o rasto, concluindo que os contribuintes “vão pagar e muito” este caso.

Abriu-se um período de debate onde António Barreto foi dando a sua visão sobre determinados assuntos. Comparou a globalização à chuva, “não podemos eliminar a chuva mas podemos proteger-nos de grande parte dela”.

Mostrou-se “envergonhado” por não ter referido as mudanças registadas na condição das mulheres durante a sua primeira intervenção, não tendo dúvidas que foi uma das mudanças mais significativas registadas no pós-25 de Abril. Não acredita no federalismo europeu e criticou a “federalização à força” que os líderes europeus têm imposto.

Ressalvou o facto de, nos dias de hoje, termos uma população qualificada mas que não se traduz em crescimento económico e que a educação não contribuiu para o fim das diferenças sociais. Por último, questionado sobre a importância do poder local, a resposta foi que “sim”, que era importante, mas não deixou de acrescentar um “mas”.