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No rastro da Pedra Formosa…
Quinta-feira, Agosto 4, 2016

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Citânia de Briteiros – Balneário Este

Supunha-se que a (sempre) enigmática e impressionante Pedra Formosa de Briteiros teria feito parte de um edifício monumental. Via-a Francisco Martins Sarmento como a mesa de um altar ciclópico, que faria parte de um templo não menos gigantesco, edifício ou recinto, onde se praticavam ofícios divinos na longínqua Idade do Ferro, algures na acrópole da Citânia de Briteiros. No século XIX, como hoje, os arqueólogos trabalham com contextos e com paralelos. A Pedra Formosa não tinha paralelo, porque não se conhecia outra, tendo aparecido uma segunda apenas em 1930, também em Briteiros. Contudo, Émil Hübner, distinto epigrafista alemão, colocava a Sarmento a hipótese de ter sido a Pedra Formosa um frontão de um templo, colocada na vertical como fachada de um edifício, seguramente um túmulo. Aproximava-se assim Hübner de uma interpretação mais correcta, apenas motivada pelas suas reflexões próprias, à vista (fotográfica) da grande pedra.

Muito antes, nos finais do século XVII, era a Pedra Formosa, e outras pedras decoradas do mesmo edifício, retirada da Citânia, por ordem de José Inácio de Carvalho, Abade de Santo Estevão de Briteiros. Foi então puxada a peça, com as suas cinco toneladas de peso, monte abaixo, por doze juntas de bois, entre o edifício onde se localizava, na encosta nascente da Citânia, e a propriedade do Abade no Poço da Ola, junto ao rio Ave, no termo de Santo Estevão. Que pena temos de não nos ter ficado uma gravura contemporânea deste acto, que não sabemos se foi motivado por pura filantropia do Abade, ou se este pretendia reutilizar a peça na cerca da sua propriedade, quiçá uma fonte, suficientemente “barroca” para a época, que para isso contribuíam os formosos lavores da grande pedra. E formosa lhe chama Francisco Craesbeck, que a desenha e que descreve, em 1726, os momentos que, anos antes, acompanharam a sua trasladação.

Desde 1932, data da descoberta do segundo balneário da Citânia de Briteiros, por Mário Cardozo, que o encontrou já parcialmente destruído, que se supõe ser este o poiso original da Pedra Formosa, por se encontrar na encosta nascente, tal como refere Craesbeck. No entanto, a localização marginal do Balneário Este da Citânia, afastado do núcleo central das ruínas, perigosamente próximo de uma curva da Estrada Nacional 309, não tem permitido o destaque devido aos vestígios que se conservam no local. Destaque que é também ofuscado pelos sucessivos saques e destruições, que começaram no século XVII, com um profundo golpe em 1932, quando se construiu a estrada, e com um novo “ataque” em 2014, quando alguém entendeu começar, lentamente, noite a noite, a desmontar o que resta das paredes do balneário, levando consigo as pedras. O crime foi denunciado, pela Sociedade Martins Sarmento. Mas, no final de contas, quem destruiu e levou as pedras foi uma “moura” mais incauta…

Esta última situação foi uma das razões que motivou a intervenção arqueológica do passado mês de Julho, no Balneário Este da Citânia, na qual sete estudantes de Arqueologia da Universidade do Minho colaboraram na escavação arqueológica de parte do edifício e no reposição dos elementos destruídos em 2014. Talvez possamos, no futuro, vir a conhecer melhor este espaço, e devolver-lhe uma parte da monumentalidade do que bem pode ter sido o balneário castrejo da Pedra Formosa de Briteiros.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento