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Nem os meninos escapam.
Sexta-feira, Dezembro 19, 2014

Estatísticas recentemente divulgadas pela comunicação social nacional, com destaque para a rádio, puseram em evidência um facto que era conhecido – e deplorado – por alguns mas, mas permanecia teimosamente guardado.

O tema transformou-se repentinamente tão contagioso, ou viral, como agora dizem, que uma rádio nacional pegou nele e produziu um programa especial durante muitas horas de emissão ininterrupta, chamando a atenção dos mais distraídos que em Portugal, no Portugal do século XXI, 40 anos depois do 25 de Abril de 1974, uma em cada três crianças vive em estado classificado internacionalmente como estado de pobreza.

Já há muito os professores, os sindicatos vinham alertando para o estado crítico, esfomeado, desnutrido de muitas crianças que desfalecem nos bancos das escolas.

Já há muito tempo que autarcas atentos e sensíveis mantêm as escolas dos seus municípios abertas em período de encerramento, para poderem acudir aos muitos alunos para quem a única refeição quente é a servida nas cantinas escolares.

O que muitos não sabiam, ou fingiam não saber, é que a fome, sim, não tenhamos medo da palavra, a fome, dizia, está a matar os sonhos e as esperanças de milhares e milhares de crianças portuguesas, discriminando-as, marcando-as muito cedo para o resto da vida.

Aproxima-se uma época convencionada da família, da solidariedade. Alguns portugueses vão aderir ao consumismo mais desbragado, quase pornográfico, comprando, comprando, comprando, enchendo o sopé das árvores de Natal com embrulhos vistosos, volumosos, enquanto as mesas se enchem de iguarias em quantidades brutais.

Antes, alguns desses, participaram em campanhas ditas de solidariedade que aliviam consciências e alegram as grandes superfícies e o Estado, os grandes beneficiários de acções em que alguns participam com a melhor das intenções.

Enquanto todos cantam hinos, muitos meninos limitam-se a gozar com as prendas dos outros, com a alegria dos outros, com a mesa farta de outros. Em Portugal, não nos países subdesenvolvidos, na Europa, não em África.

Isto não pode continuar. É possível e é necessário mudar de políticas.