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Não estávamos lá
Sexta-feira, Novembro 11, 2016

Horas depois da confirmação da vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA, a colunista do Washington Post Margaret Sullivan escreveu um muito pertinente artigo – “The media didn’t want to believe Trump could win. So they looked the other way” ou “Os media não quiseram acreditar na vitória de Donald Trump”, na versão portuguesa que oportunamente o Público ofereceu aos seus leitores. O argumento central de Sullivan está bem claro no título em inglês: a comunicação social não quis ver o triunfo do milionário nova-iorquino e preferiu olhar para o lado.

Sullivan termina o texto reforçando a ideia e dizendo: “Posso culpar os jornalistas por muitas coisas, mas por isto não”. Não tenho a sua tarimba, mas permito-me discordar. A culpa por não termos sido capazes de ler a aproximação da vitória de Trump é também dos jornalistas e, muito especialmente, das suas chefias e dos detentores dos grupos de media. A colunista do Post acertou parcialmente no diagnóstico (os media não vieram, de facto, o que estava a acontecer), mas falhou na análise.

Não foi por que quisessem ignorar o fenómeno Trump ou não estivessem preparados para lidar com um seu triunfo que os jornalistas não estavam a olhar na direcção certa. Foi, muito simplesmente, porque deixaram de olhar directamente para a realidade. Ou seja, não vimos a vitória de Donald Trump porque não estávamos no sítio onde estão os seus eleitores. Não conseguimos antecipar esse cenário – facto para o qual também contribuiu o enésimo falhanço das sondagens – porque a comunicação social não deixa falar essas pessoas.

A votação mostra que a vitória de Trump foi particularmente esmagadora nas zonas rurais, onde obteve 62% dos votos. Hillary Clinton ganhou as eleições em quase todas as grandes cidades norte-americanas e entre os eleitores com habilitações académicas superiores. Diria que ganhou nos sítios e entre as classes onde os jornalistas mais confortavelmente se movimentam. Lá, como cá, os jornalistas estão confinados a um par de sítios – talvez mais do que um par, mas não muito mais do que Nova Iorque, Washington, Boston, San Francisco e Los Angeles. Lá, como cá ou um pouco por toda a Europa, têm desaparecido os correspondentes locais e minguado os orçamentos que permitem aos repórteres seniores irem para o terreno falar com as pessoas e contar as suas histórias e inquietações.

Quantas vezes se ouviram, nos últimos dias, repetir expressões como “surpresa”, “choque”, “o impensável aconteceu” a propósito da vitória de Donald Trump nas eleições americanas? Quantas as vezes as tinham sido ouvidas as mesmas palavras a propósito do resultado do referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia? Ou das várias “ameaças” de triunfo do clã Le Pen em França? Ou seja, nada do que aconteceu nos EUA nos últimos meses é novo nem exclusivo daquele país.

Há obviamente um enquadramento político-ideológico, que não é propósito deste texto analisar. Mas há também, nesta realidade, uma responsabilidade grande dos media, dos seus proprietários, das suas chefias e de muitos jornalistas coniventes com esta lógica. Nós, os jornalistas, deixámos de contar histórias, deixámos de ir aos lugares, deixámos de ouvir pessoas. Passámos a trabalhar sentados, passámos a trabalhar como se o mundo fosse o nosso feed das redes sociais. E continuamos a trabalhar como se ainda fossemos os únicos com acesso aos factos.

Isto acontece porque há menos dinheiro para fazer jornalismo – e a crise do modelo de negócio tem um impacto brutal na qualidade da informação – mas também porque os meios de comunicação social tradicionais se deixaram contaminar pela mesma lógica de concentração e sobrevivência do sistema que capturou o centro político. Os media deixaram de ser um poder crítico que reforça a democracia pelo escrutínio, para serem um instrumento de manutenção do “status quo”. Nesse sentido, traíram os leitores/eleitores. Porque não estávamos lá. Nem física, nem simbolicamente.

Jornalista do Público