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Morreu João Paulo II, o Grande! Seguir a inspiração do momento!
Quarta-feira, Maio 4, 2005

Nunca sei sobre o que vou falar. Como as crónicas são de três em três meses, não gosto de fazer previsões, porque me podem sair goradas. Foi o que aconteceu. A minha intervenção, fruto do aniversário que se avizinha, os 18 anos do Pequeno Jornalista, estava para versar o tema «A Comunicação ao Serviço da Educação», o qual, possivelmente, nunca será tratado, porque sigo a inspiração do momento e não gosto de me sentir obrigada a nada. Será a próxima, quem sabe?! Independência, talvez, claustrofobia cerebral, sem dúvida! Ninguém me obriga a fazer nada que eu não quero, quando não quero, a não ser a minha consciência, o meu eu, que, por vezes, me prega partidas.
A morte do Papa, embora esperada, não deixou de ser um choque para o mundo católico. Os católicos estão de luto e, por conseguinte, como católica que sou, senti a morte do nosso guia espiritual, o Papa João Paulo II, o Grande. Senhor de uma forte personalidade, de uma cultura ímpar, figura carismática do século XX, paradigma de líder religioso, de estadista, de homem culto, o papa conseguiu obter o que outros nem ao de leve con-seguiram abordar, na medida em que foi um homem cujas opiniões foram respeitadas, se-guidas, tendo influenciado as ideias e os homens do seu tempo. O papa foi um dos homens que mais contribuiu para acabar com a Guerra Fria no final do século passado. De facto, nos primeiros dez anos de pontificado, o papa lutou obstinadamente contra o comunismo na Polónia, tendo as suas críticas ao comunismo servido de inspiração aos polacos para criarem o sindicato Solidariedade do líder operário Lech Walesa, em 1980, apenas dois anos depois de se ter tornado papa.
Não foi por acaso que Mijail Gorbachov, ex-presidente da União Soviética, disse: «Hoje podemos dizer que tudo o que ocorreu na Europa Ocidental não teria acontecido sem a presença deste Papa. Hoje, que na história da Europa houve uma viragem muito profunda, João Paulo II teve –e tem nisso- um papel decisivo. Encontramo-nos num momento muito delicado de transição, no qual o homem, a pessoa, tem e deve ter um peso verdadeiramente determinante. E tudo aquilo que servir para reforçar a consciência do homem, o seu espírito, é hoje mais importante do que nunca».
As profundas convicções de João Paulo II levaram-no a fazer campanha pela paz e pelos direitos humanos, a defender as liberdades individuais, embora com limitações. Polémico, sem dúvida, mas defensor acérrimo das suas ideias e dos princípios por que sempre se regeu, adoptou uma postura que foi rotulada de progressista socialmente, mas, ao mesmo tempo, conser-vadora religiosamente. João Paulo II criticou as injustiças e desigualdades sociais, conde-nou os atentados terroristas, opôs-se à invasão do Iraque, classificando-a de «imoral e injusta»; porém, a oposição à homossexualidade, ao aborto ou a qualquer prática contracepcional (foi contra o uso do preservativo, mesmo para o caso da prevenção da SIDA), à fecun-dação artificial, à manipulação genética e à eutanásia custou-lhe severas críticas de diversos sectores da sociedade.
Na viragem do século, que todos pensavam trazer o fim do mundo, tal como o conhecíamos, não foi fácil guiar a Igreja com mão de ferro, com enorme disciplina, mas tudo continuou a seguir nos seus eixos e a Igreja permaneceu, apesar das atitudes conservadoras e da polémica. Altamente controverso foi o seu pedido de perdão pela Inquisição, ao reconhecer que foi «uma nódoa na história» e uma «atitude cultural de autoritarismo», uma vez que a Igreja partira do princípio de que era detentora da verdade e, por isso, obrigara pela força todos os demais a estarem de acordo com as suas ideias
Mas, como diz o teólogo Fernando Altemeyer Júnior, da Uni-versidade Pontifícia Católica, o papa não é a Igreja, «O papa espelha um catolicismo oficial, que representa apenas uns 10% dos católicos do mundo. É como se fosse a ponta de um icebergue, os outros 90% ficam debaixo de água».
Amante da poesia e da dramaturgia na juventude, Karol Wojtyla cursou Literatura e Teologia. Fluente em várias línguas (polaco, italiano, inglês, francês, alemão, espanhol, português e latim), era um hábil diplomata como o demonstrou ao longo da sua vida pontifícia e tinha um extraordinário poder de comunicação como referiram Krzystof Zanussi, director de cinema polaco «João Paulo II foi definido como o primeiro Papa televisivo da história. E entendo porque che-ga mais às pessoas: com o seu sorriso e com o seu olhar sabe chegar ao coração humano» ou Miguel Alvarez e Ángel Velaso, jornalistas espanhóis «Todos os especialistas, até os mais agnósticos, estão de acordo: se houver alguma personalidade no mundo que verdadeiramente «vende jornais», como se diz na gíria jornalística, é João Paulo II» ou como disse Paul Thibaud, filósofo francês «A chegada deste Papa ao nosso mundo responde à necessidade, profunda e inconsciente, da nossa época, que denuncia o anseio latente de um líder espiritual adaptado aos tempos actuais».
João Paulo II foi, acima de tudo, defensor da Liberdade, da Família, da Paz, do Terço/ Rosário, da Arte, dos Jovens, da Eucaristia, de Maria…
A propósito da sua devoção mariana, o Papa disse na comemoração do seu 25º aniversário como chefe espiritual «Quantas graças recebi da Santíssima Virgem através do Rosário nestes anos: Magnificat anima mea Dominum! Desejo elevar o meu agradecimento ao Senhor com as palavras da Sua Mãe Santíssima, sob cuja protecção coloquei o meu ministério de Pedro: Totus tuus!»
Jim Caviezel, actor que inter-pretou Jesus no filme «A Paixão de Cristo» de Mel Gibson, co-mentou: «João Paulo II é um homem muito especial para um mundo muito especial. É o Papa de Fátima… o Papa é um místico. Ama a Cristo.»
Muito se disse sobre a per-sonalidade deste homem extraor-dinário que também se impôs pela sua parte eminentemente humana. Por isso, a juventude sentia-se atraída por ele. A sua personalidade de homem de Deus, a sua bondade, o seu sorriso, a sua humildade, a sua generosidade e lealdade, o seu carisma a todos conquistava. Onde quer que se deslocasse seguiam-no multidões. Ele foi verdadeiramente o Pastor do seu povo. «No Pontífice eu encontrei o homem da confiança, o homem cuja certeza da existência da graça divina se transmite direc-tamente aos demais. Toda a sua figura, os seus gestos, o modo mesmo como se inclina, ex-pressam confiança. Esta con-fiança transparece inclusivé na maneira de se mover, como se abraçasse, caminhando, toda a Terra» (Lech Walesa).
Que o seu sucessor, Bento XVI, durante o seu pontificado, con-siga o mesmo ecumenismo inter-religioso e a paz para toda a humanidade.

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