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Mentira, verniz social e não só…
Segunda-feira, Fevereiro 9, 2015

Estes mentirosos, alguns fazem disso uma profissão, são uns “criminosos” (dependendo do tamanho do embuste utilizado) e, os poucos apanhados passam muitos anos atrás das grades. Porém, os burlões, que sempre existiram e sempre existirão, conseguem facilmente levar a água ao seu moinho e ninguém diga “desta água não beberei”… Há exemplos famosos: Maria Branca dos Santos, a famosa “Banqueira do Povo”, foi uma usurária que causou um enorme escândalo financeiro nos anos 1980 em Portugal; Victor Lustig (checo, nascido em 1890) foi mestre na arte de enganar e vendeu a Torre Eiffel duas vezes… E podia continuar com uma listagem interminável, mas não é esse o meu propósito.

A mentira faz parte da vida, do nosso dia a dia. Temos é de a evitar, de a saber controlar e, acima de tudo, de a utilizar apenas para proteger o “nosso semelhante”, quando daí não advenha mal ao mundo. Em crianças, não sabemos mentir ou, se mentimos, só ficamos bem com a nossa consciência quando a verdade se impõe. Depende, é claro, do contexto familiar em que estamos inseridos e da educação e exemplo que nos dão. Temos de reconhecer que há crianças mestres na arte de enganar. É, porém, o verniz social, imposto pela convivência em comunidade, que nos “ensina” a mentir. Se nos dão um presente de que não gostamos, temos logo a tentação de pôr tudo em pratos limpos. Contudo, impõem-nos que agradeçamos e façamos boa cara, ou seja, que sejamos falsos.

Quando devemos então utilizar a chamada “mentira branca”? Apenas para não ferir suscetibilidades, para não incomodar, para não gerar ansiedade, para fomentar a paz e a harmonia…

Há quem não se preocupe sequer em saber se isto ou aquilo corresponde à verdade, na ânsia de ser sensacionalista, de espalhar o boato, de fomentar a angústia e, no caso da comunicação social, vender mais exemplares ou lutar pela maior percentagem nas audiências. A “liberdade de expressão” e a “liberdade de imprensa” tudo desculpam e, assim, as consciências ficam apaziguadas. Quem foi atropelado no meio disto tudo que se desunhe na busca do desmentido. Depois do mal feito…

E o governo é o número um a manipular as opiniões, a dar a conhecer meias verdades, a falsear os factos. Posso citar dois exemplos: o ranking das escolas e a reposição de parte do corte salarial do ordenado dos funcionários públicos e só fomenta o mau ambiente nas escolas, já tão massacradas. ? O primeiro pretende medir o que é incomensurável tal a quantidade de variáveis que não podem ser tomadas para a sua elaboração. Não é fácil gerir as políticas educativas do seu Projeto Educativo que defende o sucesso dos alunos e não faz “eco” da política do “chumbo” para subir nos rankings, ou pior ainda, verificar que tudo quanto é ensino privado encabeça as tais tabelas. Desde quando a escola pública se pode dar ao luxo de recusar alunos que não querem estudar, de convidar os alunos a saírem por não tirarem boas classificações? Quanto ao tal “aumento” do ordenado quedou-se nuns 5€, 8€, até um máximo de 30€ (uns poucos “felizardos”), para já não falar dos que sofreram “desaumentos”- menos 2€, 5€, 20€. Que logro! À opinião pública interessa (e a nós muito menos) que isso tenha a ver com retenções na fonte, com IRS, com mudança de escalões, com… O que interessa é, mais uma vez, lançar lenha para a fogueira, incendiar os ânimos, culpar a função pública pelo caos económico em que nos encontramos e distrair o povo. Até é cómico, se pensarmos que uma das fatias da função pública, a que aufere maiores ordenados, está precisamente no governo, na assembleia da república, mas, convenientemente, parecem esquecer-se disso. E, só por mero acaso, é claro, não têm faltado escândalos por parte dos que deveriam ter gerido os dinheiros do estado e que, tão laboriosamente como as formiguinhas, trabalharam para nos lançarem no fosso financeiro em que nos mantemos, apesar dos sacrifícios da arraia-miúda.

E a mentira é assim utilizada do mais alto ao mais alto nível, nacional ou internacionalmente. Não admira, pois, que muitas vezes não saibamos o que andamos a fazer e para que lado nos devemos virar.