Melhor Saber Melhores Cidadãos
Sexta-feira, Março 4, 2011

Mais do que uma vez me interroguei sobre quais eram os factores determinantes da opção politica de cada um: por que é que se é de A, de B ou de C. Na cadeira de ciência politica estudam-se vários autores e várias correntes de opinião na tentativa de explicar por um único ou preponderante factor a formação da vontade politica.

A compreensão do tema leva-nos a diferentes respostas: é-se de um partido por tradição familiar; por circunstâncias relacionadas com a posição social: não é indiferente trabalhar por contra de outrem ou por contra própria; por causas que se relacionam com a situação patrimonial: os proprietários votam mais ao centro/ direita porque, tradicionalmente, o centro/direita lança menos impostos sobre a propriedade; por razões puramente subjectivas – episódios desagradáveis que se possam ter passado com o partido; por vingança ou inveja concreta; por convicções religiosas; por gosto não racional; por opção racional e fundamentada e muitas mais.

Nenhum daqueles factores atrás enunciados tem absoluta preponderância. Creio que a nossa parte emocional, a nossa forma de relacionarmos com o mundo é que vai ser decisiva na formação da nossa vontade politica. No entanto, quanto menos instruídos formos; quanto menos informação tivermos mais a parte emocional adquirirá supremacia na formação da vontade politica.

A forma como se ensina nas nossas escolas poderá ter a ver com a atitude futura de como aqueles cidadãos se comportarão perante e vida social. Se o ensino privilegiar a mera transmissão de toneladas de “matéria” e não der tempo para uma verdadeira reflexão, compreensão, inclusão, relacionação das matérias ensinadas, poderemos ter cidadãos futuros que se consagrarão como meros repositórios de informação.

O ensino deve proporcionar a reflexão, a ponderação, a compreensão profunda das matérias e até os objectivos individuais e colectivos que se querem alcançar com as matérias escolhidas.

À distância de 3 décadas, tenho dificuldade em comparar o volume da “matéria” incluída nos manuais dos adolescentes que agora frequentam o 8.º e 9.º ano com os do meu tempo. Mas numa comparação visual rápida vi que os manuais actuais são mais grossos e que a “matéria” incluída é muito extensa. Essa opção por programas extensos poderá potenciar um “débito” da matéria e não deixar espaço para a verdadeira compreensão das mesmas – o ponto de partida para a aquisição do verdadeiro saber: o saber
esclarecido e acima de tudo o saber crítico.

O saber que se põe em causa, por dúvida metódica, ajuda a formar verdadeiros cidadãos: aqueles que cada vez menos decidem por impulso emocional mas por formulações racionais assentes em saber critico.

Lembro-me que, no meu 10.º ano, apareceu a disciplina de Filosofia. E nada foi como antes. Tudo se poderia por em causa: a informação; a ciência; o saber; a natureza do conhecimento e a sua origem, com método, com reflexão, com estudo, com conhecimento, afinal. E porque não antes daquela idade um saber assente na dialéctica, na guerra das ideias e para afastar a guerra dos homens que só o amor à sabedoria pode evitar.