Magrebe meu amor
Segunda-feira, Julho 4, 2011

Este é o fim da linha para uma maneira de pensar, e o ocidente tem que patrocinar o início de uma nova era. Não com imposição de democracias falaciosas, que já provaram ser desastrosas, ou com dinheiro dado ao desbarato para vir outro ditador corrupto e fazer palácios de ouro com ele. O ocidente tem que criar condições para estes países terem um desenvolvimento sustentável, quer económica quer socialmente, de modo a que a transição permita aumentar o nível de vida e estabilizar definitivamente a região, de maneira a que as pessoas não precisem de se arriscar a atravessar o mediterrâneo para poder comer ou viver em paz.

O mundo está a mudar. Prova disso é a rebelião quase massiva do mundo árabe contra os seus ditadores de há décadas. Estas rebeliões, que já fizeram cair dois ditadores, Ben Alí da Tunísia e Hosni Mubarak do Egipto, e outros vão a caminho, Khadafi (que resiste ainda à ofensiva da NATO) à cabeça, e Bashar Al – Assad logo a seguir, são o fim da linha para estes regimes.

Não nos interessa muito estar aqui a discorrer sobre o que se passou até agora. Temo-lo visto todos os dias na televisão. Importa sim tentar perceber qual vai ser o futuro do mundo árabe no pós-revolução. Como já referi, a Tunísia e o Egipto já caíram. Ambos ficaram nas mãos do exército que agora garantirá a transição. O problema parece ser este. Aquilo que inquieta o ocidente, a União Europeia e os Estados Unidos da América principalmente, mas não só, é o que se vai passar agora.

Por estes dias, em Washington, tenta adivinhar-se para que lado vai cair a transição no Egipto. Teme-se essencialmente por uma islamização radical que possa pôr em causa toda a paz no médio oriente. O Egipto tem sido um fiel aliado dos EUA na região, principalmente na questão de Israel. O garante de uma paz minimamente aceitável com os países árabes foi Mubarak, e teme-se que com a subida dos islamitas da Irmandade Muçulmana, uns dos impulsionadores da revolta que fez cair o regime, essa paz e relacionamento relativamente estável caia por terra.

Em Bruxelas teme-se pela proximidade. Neste momento os países do sul da Europa estão com a corda na garganta essencialmente por dois motivos: a dependência energética e a possível vaga de refugiados que quererá atravessar o mediterrâneo, principalmente se esta revolução atravessar ainda mais as fronteiras (assumindo que a Líbia é uma questão de tempo) e chegar à Argélia, onde a situação já não é famosa, e a Marrocos. Para dar um pequeno exemplo, a Argélia fornece 40 % do gás natural da península Ibérica, e a Líbia é responsável por 10% do Petróleo que vai para Itália e por 12% do petróleo que abastece Espanha.

O que fazer perante isto? Aqui é que a Europa tem um grande desafio. A UE e todo o ocidente têm que delinear uma estratégia definitiva para esta região. Este é o fim da linha para uma maneira de pensar, e o ocidente tem que patrocinar o inicio de uma nova era. Não com imposição de democracias falaciosas, que já provaram ser desastrosas, ou com dinheiro dado ao desbarato para vir outro ditador corrupto e fazer palácios de ouro com ele. O ocidente tem que criar condições para estes países terem um desenvolvimento sustentável, quer económica quer socialmente, de modo a que a transição permita aumentar o nível de vida e estabilizar definitivamente a região, de maneira a que as pessoas não precisem de se arriscar a atravessar o mediterrâneo para poder comer ou viver em paz. Além de todas estas questões, que podem soar a hipócritas, mas que são realistas e de vital importância, o ocidente tem um dever moral para com estes povos. É hora de deixar de contar apenas a produção diária de crude ou os metros cúbicos de gás, para começarem a contar as pessoas. É hora de começarem a contar os jovens que viram, com a chegada da internet e das redes sociais, um mundo que lhes é vedado e negado, não só por ditadores, mas também por democracias hipócritas que muitas vezes olham para o lado quando deviam agitar a bandeira dos valores morais que, apesar de tudo, deveriam ser a base fundamental das nossas sociedades.