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“Ls” a revisitar
Terça-feira, Maio 29, 2007

Há locais que revisitamos com alguma frequência, porque nos fazem sentir bem: uma praia escondida, pouco conhecida e pouco visitada, mesmo inóspita; uma paisagem campestre de uma maior comunhão com a natureza; uma paisagem citadina que, do alto de um arranha-céus, vê longe e abarca a linha do horizonte abstraindo do elemento vidro e betão para observar apenas a beleza da construção geometricamente feita por mão humana quantas vezes a desafiar as leis da física, do equilíbrio e da sustentação.

Porém, não são apenas os locais que revisito de quando em vez. Há livros que gosto de reler, de (re)saborear algumas passagens que me transportam para outros mundos, quiçá inexistentes, só ao alcance dos amantes da leitura e de prazeres mais pacíficos e igualmente gratificantes como a criação, a transposição para um papel de meia dúzia de linhas mal alinhavadas ou do esboço de uma figura, de uma paisagem, de um objecto… Há livros que são tesouros! E não me refiro a obras de ficção, tipo romance ou novela ou conto. Falo mesmo de livros de carácter didáctico como «O Diário» de Sebastião da Gama (obra de leitura obrigatória no estágio, no meu tempo!), «A Imaginação» de Maria Alberta Meneres, «Como um Romance» de Daniel Pennac, «Por uma Educação Romântica» de Rubem Alves, só para citar alguns, o que não é de admirar se pensarmos que sou educadora.

Podem pensar que estou a descarrilar, como acontece com muitos dos meus pares, mas não acho estranho que uma professora escolha livros de pedagogia quando está mais cansada, num estado semi-depressivo, desiludida com os alunos, os superiores (tão longe e tão indiferentes aos seus/ nossos problemas, causando-os para cúmulo!) ou com os colegas de profissão e de «calvário». Quantas estações terá ainda a nossa Via Sacra? Quanto nos faltará percorrer no longo e penoso caminho que enfrentamos?

Eis a razão por que, sempre que quero reflectir, pensar na vida, principalmente na carreira profissional, pego num desses livrinhos e releio certas frases que têm o condão de me acalmar, de me dar força para continuar, de verificar que no fundo, bem no fundinho!, até vale a pena continuar, porque há sempre alguém que nos dá valor, algum valor e que nos paga com a moeda que vale a pena- o sorriso, quantas vezes molhado, um riso meio envergonhado, um abraço sentido, um pensamento meigo, uma carícia apenas adivinhada, um carinho mal feito… A capacidade de «sonhar» permanece intacta, o que é importante, pois, como diz o poeta, «o sonho comanda a vida» e, quando essa capacidade desaparecer, então desapareceu a vontade de viver, de lutar, de enfrentar os problemas com que nos deparamos quotidianamente. Por outro lado, «imaginação» não falta e esta característica leva à anterior, desde que não púnhamos travão à nossa mente e nos deixemos levar por essa magia de que todos dispomos mas a que tão poucos dão uso, seja em cavalgada deliciosa num maravilhoso corcel alado, num unicórnio ou, mais modernamente, numa micronave (não vem aí a nanotecnologia, o mundo das coisas ínfimas, infinitamente pequenas, tão pequenas que nem conseguimos imaginar?), seja até por teletransporte enquanto o diabo esfrega um olho. Como vêem,. já me deixei empolgar e partia desvairada a caminho de novas aventuras… pedagógicas, necessariamente, já que é esse o tema da conversa ou assim pretendia ser. Nem parece que hoje é um desses dias «down» em que a água alagou a natureza e se impôs à alma carente de novos incentivos. É sempre assim. Quando começo a escrever, dá-se um clique e pronto. Parto para novas paragens e até me esqueço que devia estar deprimida por isto ou por aquilo. Sinto-me uma felizarda por poder fazer uma coisa de que gosto imenso, quando me apetece, mesmo que os armários comecem a estar cheios de textos, de livros e de mais material que está à espera de melhores dias. Não tenho pressa. Outros dias virão e, com eles, talvez uma nova carreira que me tem acompanhado ao longo da vida, por isso não lhe sinto a falta.

E lá comecei a fugir da estrada traçada, novamente. Espírito rebelde, sem dúvida nenhuma. Ora, como eu dizia, elevar a auto-estima dos que nos cercam (os alunos) é uma obrigação que, transformada em bom hábito, nos ajuda nestes momentos menos bons, mesmo que o apoio não venha do exterior. Há alguns exercícios aconselhados que poderão, eventualmente, ter algum resultado, mas não há nada melhor do que o sorriso de um colega, de um amigo, de um filho e/ ou um elogio, mesmo um meio-elogio, envergonhado e receoso. Nestas alturas, nomeadamente quando chove na natureza ou quando o nevoeiro cerra fileiras e desce um manto húmido e esbranquiçado sobre todas as coisas, sento-me à mesa, pego numa esferográfica ou marcador de ponta fina e começo a escrever, a verter as ideias que me ocorrem para o papel , sem preocupação de lhes dar forma, de as cuidar, de olhar o estilo. Umas serão futuras crónicas, algumas transformar-se-ão em histórias de encantar ou sem encantamento nenhum, outras não passarão de breves desabafos, ideias que vão desfilando sem bandeira, sem rei nem roque e que vão desaguar invariavelmente numa gaveta onde acumulo os mais variados tipos de excertos, frases soltas, a vermelho, a azul, a preto, em folhas variadas no tamanho e na forma, velhos sobrescritos inutilizados com histórias escritas ou breves ideias que não foram exploradas. Depois, de vez em quando, pego naquele material e ponho-me a relê-lo. Sabem, apanhei agora o vício de datar tudo o que escrevo para, desta forma, ter consciência dos anos em que este pedaço e aquele ficaram guardados no esquecimento da gaveta, não da minha memória. E que alegria, quando juntando pequenas amostras consigo dar-lhes um começo, um desenvolvimento e um fim. Que diferença! Actualmente, adoro não saber como é que uma história vai acabar. Escrevo ao correr da pena e da imaginação e quando me apetece, onde me apetece. O bloco, como já disse vezes sem conta, é o meu fiel companheiro de todos os momentos. Gasto muitos ao longo do ano, porque não consigo estar parada. Faço exactamente o que digo aos meus alunos para não fazerem, já que lhes ensino que todo o texto deve obedecer a um esquema prévio!

E a água continua a cair lá fora, certinha, aborrecida e aborrecendo. Mais um dia se aproxima do seu fim, menos um dia para viver. Que grande verdade! Só num dia como o de hoje se podem tirar estas ilações tão profundas! Pff! A neura regressou e eu que a ature. O silêncio pesa, apesar de ser tempo de aulas, e leva a nova constatação – a escola tornou-se muito mais calma desde a instituição das aulas de 90 minutos e, principalmente, desde a implementação das aulas de substituição. O barulho reduziu-se substancialmente, os acidentes e vidros partidos desceram drasticamente, o que veio beneficiar toda a comunidade escolar. Respira-se mais segurança e há um melhor clima de aprendizagem e de bem-estar. Até a contestação já esmoreceu. Excitação em demasia também faz mal!

Faço uma pausa e oiço o zumbido do computador que dorme. Mais uma vez estou a manuscrever o texto na folha imaculada para sentir o papel sob a mão e visualizar as letras, as palavras, as frases com que o vou sarrabiscando. Velhos hábitos que não se perdem e que vão ganhando novas dimensões com o decorrer dos anos.