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Literatura e cinema ou a missão do professor
Terça-feira, Fevereiro 2, 2016

Um exercício gratificante e libertador, catártico até, se atentarmos no “drama” que tem vivido a escola pública e os seus professores. Não é exagero, é constatação… e…

Lançando o livro sobre a mesa, irritada, proferiu a berrar: “Se não sabem o valor da pontuação, que o aprendam, que não sou eu que o vou ensinar”.

Gesto e frase verbalizada impróprios e inadequados para mim, caloira no ensino, por parte de quem fazia parte do sistema já há tantos anos (a cabeça branca e as rugas indiciavam final de carreira), fizeram-me refletir e desabafar com os meus botões: “Se não sabem, tens mesmo de ser tu a ensinar-lhes o que queres que saibam ou nunca mais os alunos serão capazes de interpretar a poesia ou o texto como pretendes!”

Mas… quem era eu, menina e moça de vinte anos mal-amanhados, ainda estudante da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, para dizer isso à senhora doutora?

Já lá vão trinta e oito anos e continuo a pensar o mesmo. É muito importante que os alunos disponham das ferramentas para as poderem utilizar, neste caso, o valor da pontuação ou a quase total ausência dela que, mais tarde, acabou por dar um Nobel ao nosso José Saramago. Mas, como digo sempre aos meus alunos, Saramago sabia pontuar… só que optou por não o fazer. Uma atitude polémica a que se pode dar o luxo que não está ao alcance de outros. Para mim, professora de Português, e já o afirmei mais do que uma vez, se não tivesse seguido esse caminho, talvez as suas obras tivessem sido lidas por outros públicos que não aquele dos letrados, mas… e isso é muito importante, não teria sido prémio Nobel. Não tenhamos pejo em dizer que Saramago não está ao alcance de todos.

E tal facto poder-nos-ia levar para a definição do conceito de literatura. É que hoje, cada vez mais, o que é quase “ilegível” (e não me estou a referir a Saramago, cuja obra li na sua quase totalidade) é que é nomeado para Nobel, os que escrevem best-sellers são uns escritorzitos de menor estatura, porque o fazem para o grande público, mas veem os seus livros adaptados cinematograficamente que têm grandes audiências. Também Saramago gostou de ver o seu livro “Ensaio sobre a cegueira” sob a forma de cinema (“Que lhe permitiu ver a cara das suas personagens!”), mas já não viu “O Homem Duplicado”, e “A Jangada de Pedra” de 2002 deixou muitas impressões negativas. Afinal estará ele a entrar na categoria dos escritorzitos?

Atingi (aliás, já superei) o limite das palavras e não disse nada.

Mas quem está interessado em ouvir falar na escola pública e no caos em que está a cair? Todas as conquistas de abril (40 anos, tantos como a ditadura!) conseguidas com “sangue, sofrimento, suor e lágrimas” (Winston Churchill na moção de confiança ao governo que ia dirigir em maio de 1940), foram lançadas praticamente para o caixote do lixo e a escola pública quase voltou à estaca zero, corrijo, está numa situação pior, porque, naquela altura, o professor era, pelo menos, respeitado pelos alunos e pelos pais… Ponto final, parágrafo, terminou por agora.

Professora