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Levantai hoje de novo
Sexta-feira, Novembro 4, 2011

Viveu, trabalhou e casou nas Taipas uma jovem mulher bonita, inteligente e trabalhadora que deixou a sua Ucrânia natal em busca de um futuro mais risonho. Conheci-a por razões profissionais e sou testemunha que ela, além de saberes científicos escolares muito acima da média, possuía enorme vontade de apreender, mostrando abertura ao novo, ao desconhecido.

Poucos meses depois de entrar em Portugal, entendia e fazia-se entender em português, ajudando outros seus concidadãos nas relações com os colegas de trabalho portugueses. A sua curiosidade e inteligência viva permitiram-lhe embrenhar-se no conhecimento dos seus direitos enquanto operária têxtil, contestando e replicando sustentada na lei e no contrato colectivo de trabalho.

Na sua Ucrânia obteve um curso superior, licenciou-se em ciências matemáticas, mas em Portugal teve de ser operária e vigilante. O curso de pouco lhe serviu. O descalabro da economia ucraniana obrigou-a a sair do país e a trabalhar arduamente por baixo salário e muita humilhação.

Pelo andar da economia portuguesa, em consequência do empobrecimento a que nos conduz a actual política governamental, que nos querem impingir como única mas que, como tudo na vida, tem alternativas, os licenciados pelas universidades portuguesas terão de emigrar para as ucrânias à procura do sustento que lhes é recusado na sua terra.

Se então a Viktoria já tiver regressado, retomando o curso da vida interrompido, vai receber não os seus circunstanciais companheiros portugueses com quem trabalhou na indústria, não os veraneantes que com ela se cruzaram na recepção do parque de campismo, mas os professores e outros emigrantes com formação universitária a quem Portugal não dá emprego, a quem a austeridade empurra para fora da fronteira.

E nessa nova leva de escorraçados para quem a pátria é madrasta, talvez a Viktoria ofereça solidariedade a quem em Portugal não soube reconhecer e desprezou a cidadã vertical que é, mesmo quando ela serviu de explicadora de matemática aos seus filhos.

A continuar pelo caminho que leva, Portugal vai voltar a ser um país de emigrantes. O país pobre e atrasado que o fascismo nos deixou e a que o 25 de Abril de 1974 pôs fim. Em 2012 ou 2013 ou 2020 podermos ser um pais de contas eventualmente equilibradas, com o défice orçamental ao gosto da Alemanha, mas também seremos um pais mais desigual, mais injusto, com um serviço nacional de saúde (ou o que dele restar) para pobrezinhos e seguros de saúde generosos para os ricos, um pais cujas cidades crescem no estrangeiro. É imperioso evitar que tal volte a acontecer.