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Leituras enviesadas sobre uma exigência justa
Quinta-feira, Fevereiro 11, 2016

Confesso que tinha planeado escrever sobre outro tema – que reservarei para uma próxima ocasião. Todavia, a recente visita da secretária de Estado da Cultura colocou na agenda política e mediática um assunto que nunca devíamos ter deixado de discutir: o apoio que o Governo não está a dar a Guimarães depois da Capital Europeia da Cultura (CEC). Tenho três comentários sobre o tema:

1 – As declarações. A frase de Isabel Botelho Leal que espoletou o debate é digna de monsieur de la Palice. Guimarães “não é comparável” a Lisboa e Porto, afirmou a secretária de Estado. Descontando alguma inabilidade política da governante – que participava numa das suas primeiras visitas oficiais no cargo – o que esta disse é algo em que já todos tínhamos reparado. Aliás, não creio que alguma vez se tenha por cá reclamado ser tratado de forma igual a Lisboa e Porto, mas apenas de forma justa. Mas já lá iremos.

O que aqui mais interessa sublinhar é que, ao contrário do que foi voz corrente nos últimos dias, a secretária de Estado da Cultura não diminuiu Guimarães nem fechou a porta a um apoio mais claro ao projecto cultural. Palavras de Isabel Botelho Leal: A Plataforma das Artes e da Criatividade “tem uma dimensão que vai além do regional. Isto tem de ter um apoio nacional”. É mais do que qualquer outro governante disse, nos últimos quatro anos, sobre o maior equipamento que resultou da Guimarães 2012. E é, no mínimo, a manifestação de uma intenção que importa concretizar.

2 – As reacções. Tendo noção do que foi a totalidade das declarações da secretária de Estado, resulta claro que só se pode deplorar a atitude da coligação Juntos por Guimarães nesta matéria. Num só comunicado, rapidamente emitido após a visita a governante, PSD e CDS conseguiram juntar duas das atitudes mais deploráveis em política. Primeiro, manipulando as declarações da governante, forçaram uma leitura enviesada que se ajustava à sua própria agenda. Segundo, quebrando quatro anos de um silêncio sepulcral sobre esta matéria.

Enquanto PSD e CDS estiveram no poder em Lisboa, nunca se ouviu uma palavra aos seus representantes locais sobre o apoio devido pelo Estado a Guimarães no pós-CEC. Agora que o Governo mudou, rapidamente vieram dizer aquilo que já era verdade há quatro anos. Mas também há quatro meses – quando, por exemplo, uma deputada daquela coligação sugeriu numa assembleia municipal que se encerrasse o equipamento para o qual agora se clama apoio.

3 – A exigência. Sejamos claros: esta não é (não pode ser) uma luta de partidos ou da Câmara. Esta é uma questão para envolver Guimarães. É uma questão de justiça. Durante e depois do processo da CEC, da parte do Governo a cidade teve pouco mais do que um apoio simbólico. Passaram quatro titulares da pasta da Cultura – um número inusitado. A meio da preparação do evento, o Governo reduziu a sua comparticipação financeira, levantou uma série de obstáculos burocráticos e depois precipitou o fim da Fundação Cidade de Guimarães, contribuindo para a difícil ressaca de que ainda se vivem efeitos.

Há, por isso, uma dívida séria da administração central para com Guimarães nesta matéria. Mas mesmo que nada disto fosse verdade, o Estado teria ainda uma responsabilidade para com Guimarães. Não sendo “comparável” com Lisboa e Porto, a cidade não é certamente comparável com mais nenhuma outra cidade nacional. Porque mais nenhuma outra foi Capital Europeia da Cultura e porque em mais nenhuma outra há um equipamento como a Plataforma das Artes. Um apoio nacional é, pois, uma exigência da maior justiça. À sua escala, obviamente.

Jornalista do Público