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Lançamento do livro «Penha: Retrospectiva Iconográfica da Sacralização da Montanha» da autoria de Elisabete Pinto e Paulo Barroso.
Terça-feira, Agosto 30, 2005

As instalações do Cybercentro de Guimarães servirão de palco ao lançamento do livro «Penha: Retrospectiva Iconográfica da Sacralização da Montanha», da autoria de Elisabete Pinto e Paulo Barroso.
A sessão realiza-se no próximo dia 8 Setembro, quinta-feira, pelas 18 horas e 30 minutos,sendo a obra apresentada pelo Dr. António Magalhães, Presidente da Câmara Municipal de Guimarães.

O livro «Penha: Retrospectiva Iconográfica da Sacralização da Montanha», da autoria de Elisabete Pinto e Paulo Barroso, resulta de um trabalho de pesquisa que teve como objectivo documentar e ilustrar a ocupação e expansão religiosa daquele espaço.
Editada pelos autores, a obra apresenta 279 imagens alusivas às principais fases do processo de sacralização da montanha, nomeadamente fotografias, bilhetes-postais ilustrados, estampas, projectos de construção e medalhas comemorativas.
Através da documentação recolhida nos arquivos de várias instituições e de coleccionadores particulares, os autores tentaram interpretar o simbolismo subjacente ao aparecimento dos diferentes lugares de culto existentes na Montanha.
Efectivamente, os lugares de culto no cimo de montes e outeiros são tão frequentes como são insondáveis as suas origens. Símbolos de profunda e remota devoção popular, estes lugares mantêm-se activos através das crenças no poder das entidades divinas, que no espaço sagrado são veneradas.
A imponência de maciços montanhosos, como o da Penha, sempre fascinou. Principalmente pela altura e pelo consequente deslumbramento da vista. Se o misticismo ou fascínio dos lugares se deve às crenças populares num poder sobrenatural, este poder subjaz, por seu turno, na convicção de milagres (graças ou benesses prodigamente recebidas em momentos ou circunstâncias de dificuldades do quotidiano) operados sobre os fiéis.
Objecto de uma tricentenária devoção que não só ainda perdura como promete auspiciosamente expandir-se, a Penha é um dos mais promissores e harmoniosos montes sacros. Construídos a partir do início da Idade Moderna, os montes sacros visavam preencher as necessidades íntimas dos crentes, eivados de uma profunda experiência religiosa sensível.
No cimo setentrional de uma elevação montanhosa, no conjunto formado pela Serra de Santa Catarina (a nascente da cidade e do concelho de Guimarães, na freguesia de Santa Marinha da Costa), os lugares de culto começaram a surgir com a adaptação de uma gruta natural dedicada à Senhora do Carmo. Depois de conhecido, o lugar de culto passou a ser visitado devocionalmente e à entidade divina foram reconhecidas intercessões milagrosas. O local consagrado transformou-se em centro de piedosas romagens e práticas de culto. Através destas, os vimaranenses e forasteiros atestam uma secular afeição à Virgem.
Despojados de pretensões históricas, os autores optaram por interpretar os comportamentos sociais materializados numa ocupação condicionada do espaço e demonstrados nas formas de mitificação da fé. O objectivo é apresentar uma linguagem própria de um género de arquitectura religiosa sobreposta a um substrato espiritual: capelas, monumentos, miradouros, grutas, fontes, penedos, parques, estabelecimentos comerciais e outras infra-estruturas de apoio ao culto num santuário como o da Senhora da Penha.
É pretensão dos autores, desta forma, responder a uma inocente pergunta: de que forma a iniciativa individual de um crente em colocar, numa simples lapa, uma pequena imagem da Virgem suscitou um processo devocional que resultou na transformação física e espiritual da Montanha da Penha, de um local íntimo de fé para um amplo santuário afectivo de todos os vimaranenses, comunidades paroquiais circunvizinhas, turistas forasteiros, visitantes circunstantes e peregrinos de localidades mais distantes?
Foi principalmente a inquietação ou desconforto provocado pela ausência de intelecção sobre uma realidade onde nos enquadramos e interagimos todos os dias, aliada ao obrigatório esforço suplementar de procurar uma resposta para a formulada pergunta, que orquestrou esta faina intelectual: compreender, pelo menos, este passado apenas testemunhado pelos penedos que ainda perduram no local. Este processo de formação mítica de crenças e de transformação do espaço profano em sagrado.
As experiências religiosas manifestadas de forma regular, colectiva e voluntária (crenças, cultos, rituais e vivências num tempo e num espaço consagrado) pertencem ao quadro cultural e tradicional de uma comunidade ou sociedade. Manifestadas há mais de trezentos anos na Penha, estas experiências resultaram da necessária ocupação e expansão sacralizada do espaço envolvente. Todavia, esta exigência espiritual dos fiéis, direccionada para a dimensão espacial do cume da montanha, frutificou no cenário edificado que hoje se conhece, graças às condições geográficas que condicionam as formas de ocupação humana do espaço.
Motivados pela ideia de que a Penha favorece espiritualmente as comunidades locais e os visitantes forasteiros e enriquece cultural e esteticamente o concelho de Guimarães e a região do Baixo Minho, Elisabete Pinto e Paulo Barroso, acreditam que seria pertinente, interessante e pioneiro prestar um tributo a este monte sacro que a vontade e as crenças dos fiéis transformou de inóspito, hostil e ermo em hospitaleiro, afectuoso e centro ou local de convergência da fé em Nossa Senhora.

Breve nota biográfica dos autores:
– Natural e residente em Guimarães, Elisabete Pinto é jornalista na Empresa Gráfica do jornal O Comércio de Guimarães e investigadora do Núcleo de Estudos de População e Sociedade (NEPS), da Universidade do Minho;
– Radicado há cinco anos em Guimarães, Paulo Barroso é docente no ensino superior e investigador na Universidade de Santiago de Compostela, em Espanha. É o autor do livro «Romarias de Guimarães: Património Simbólico, Religioso e Popular», publicado pelo NEPS, em 2004.

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