Julinho
Domingo, Outubro 31, 2004

Ter crescido e viver numa terra que já foi pequena, onde era fácil conhecer quase toda a gente, não é fácil. Não é fácil hoje porque a terra deixou de ser pequena e é cada vez mais difícil conhecer toda a gente. As relações humanas são abaladas porque se tornam tendencialmente mais superficiais.

Conforme o tempo vai passando, apercebo-me de que de vez em quando lá desaparece mais uma daquelas figuras, com quem crescemos e com quem nos habituamos a cruzar, desde que a terra ainda era pequena. Não posso deixar de me comover com isso, porque a sensação de perda é tocada por uma outra de que cada vez há menos gente que eu possa cumprimentar, mesmo que raramente fale propriamente com essa gente. Não é por nada em especial, é apenas porque nos habituamos a ver-nos com tal frequência, que o cumprimento se torna obrigatório.

Somos cada vez menos aqueles que partilharam o tempo em que a terra ainda não era muito grande. As gerações parecem ter dificuldade em se renovar, mas identidade das Taipas vai perdendo a identidade que conheci. Essa identidade vai-se transformando à medida que as novas gerações vão tomando o lugar da minha e das anteriores ou à medida que a terra se vai enchendo de gente vinda de outras terras e que nunca terão tempo de perceber que características tem essa identidade.

O Julinho, que por este nome me foi dado a conhecer e que assim sempre o cumprimentei, foi um dos últimos que vou passar a sentir falta de cumprimentar. Não me lembro de alguma vez ter conversado propriamente com Julinho. Mas sempre que nos cruzávamos o cumprimento era mútuo e isso fazia-me sentir bem. Por as nossas famílias se conhecerem, por a cara ser tão familiar, por sermos das Taipas.

O Julinho fez com que escrevesse estas linhas (e passem o existencialismo), porque me fez pensar nas saudades que terei em cumprimentá-lo; nas saudades que cada vez mais tenho em cumprimentar as pessoas que me habituei a cumprimentar; enfim das saudades cada vez mais fortes de uma terra que já foi pequena.

Eu quero que terra cresça. Mas para mim, esta terra, estará apenas cada vez mais vazia.