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Joy Division como experiência religiosa
Sexta-feira, Outubro 7, 2011

Provenientes de uma Manchester industrial e soturna, que se reinventava quase diariamente por forma a conseguir – digamo-lo eufemisticamente – interagir com a também diária decadência, os JD são hoje, ainda, modernos e actuais. É difícil imaginar banda que epitomize de forma tão perfeita este nosso mundo desenfreado, hiperactivo, polifónico, de fibra óptica e contagens decrescentes, que transforma em mainstream tudo aquilo em que toca; sem todavia deixar de fazer o indivíduo pensar que o seu gosto é próprio e vivido de forma única. Os JD são heróis do nosso tempo. E a faixa “Digital” (https://tiny.cc/7gwug) pode ser considerada a banda sonora da nossa época.

Bem, concorde-se ou não, certo é que até a ela chegarem, os Joy Division percorreram um longo caminho. Fruto da efervescente cena punk-rock britânica (Sex Pistols, The Clash), não é de estranhar que a banda liderada por Ian Curtis tivesse começadado por inscrever o seu nome na história através de um rápido e anti-melódico som punk-rock. A coisa correu mal. Pelo que imediatamente se deixou de ouvir falar dos Warsaw – foi este o primeiro dos dois nomes que a formação de Manchester adoptou – e apenas uns meses mais tarde se começou a ouvir falar dos JD. Entretanto, Ian Curtis, Stephen Morris, Bernard Sumner e Peter Hook foram, de forma aplicada e acidental, ensaiando formas de tornar o grito de revolta punk mais forte. E só havia uma forma de o conseguir. Ensurdecê-lo, trazê-lo para dentro. Pegar na revolta punk e transmutá-la para algo íntimo de nós mesmos, mas ainda assim mantendo a irreverência punk que tão de acordo estava com o espírito daqueles tempos, foi uma jogada de mestre – de magistral serendipidade. Por isso, ao falar de JD, ainda hoje falamos, sobretudo, em post-punk. Confesso que nunca me souberam explicar bem o que é isso do post-punk, tirando aquela parte do algo-que-veio-depois-do-punk. Assim sendo, este parágrafo fica desde já inscrito no meu legado às gerações futuras.

A posição do “verdadeiro” fã perante a recente canonização dos Joy Division foi, necessariamente, ambígua. Por um lado, nós sabíamos que os JD são a banda e que é impossível resistir-lhes. Esta é e sempre será a posição do religioso perante o seu deus. Por outro lado, sabíamos igualmente que iríamos ter JD em todo lado, com toda a gente a dizer que os JD eram a banda da vida deles (um discurso em tudo semelhante ao do jogador de futebol recém-contratado), o que não seria fácil de digerir e adivinhava-se como algo um bocadinho chato. Era, sem dúvida, uma equação complexa. Porém, vista a esta distância, e tendo em conta o papel dos JD naquela “modernchester”; naqueles finais dos anos setenta que já eram oitenta; naquela afirmação de uma contra-cultura, fez sentido. Quanto a mim, gosto de pensar que já era fã dos JD antes de saber que o era e antes de saber quem eram os JD. Parece complicado, mas é até bastante simples. Da mesma forma, gosto de pensar que há uma qualquer situação divinatória no facto de eu ter chegado ao mundo no mesmo ano, uns meses antes de Ian Curtis ter decidido abandoná-lo. Mas isto sou eu, e eu não estou aqui para falar de mim.

Entre outras coisas, o extremamente viajado filósofo francês Michel Foucault diz-nos que os nomes são portadores de capacidade classificatória. Desta forma, JD remete, não apenas para um grupo de quatro jovens-adultos que se fez à vida na Manchester de finais de setenta, mas sobretudo para um tipo de música que se parece com JD, uma categoria que é reconhecida por qualquer pessoa que cultive o gosto pela música de uma forma tão intensa que faz com que essa pessoa se surpreenda agora a ler estas palavras. Sim, estou a falar de ti. Dito isto, o nome JD denota um tempo em que o presente foi bruscamente interrompido para que o passado desse lugar ao futuro; denota uma revolução interior que parte de dentro do ser em direcção à morte, o que equivale a dizer, de Unknown Pleasures em direcção a Closer. Cada vez mais perto, cada vez mais último. Pelo caminho ainda tivemos o palco – “todo o mundo é um palco”–, lugar onde Ian Curtis foi livre e onde nós ainda vamos imitar a liberdade dele. Não há forma aceitável de viver que não seja assim, emocionalmente despida e mecanicamente liberta.

Uma última lição que nos foi legada pelos JD diz respeito ao facto de as grandes mudanças não serem feitas de forma exclusiva pelas mentes brilhantes. Ian Curtis foi uma mente brilhante. Martin Hannet, o excêntrico produtor dos JD, era aparentemente uma mente brilhante. No entanto, os restantes membros da banda não entram nessa categoria, estando até mais próximos do seu exacto oposto. Poderá deles dizer-se, tal como se diz em O Grande Gatsby de F. Scott Fitzgerald acerca de uma das personagens, que eles eram tão estúpidos que não sabiam que estavam vivos. A razão pela qual digo isto é a seguinte: só mais tarde, anos depois do suicídio de Ian Curtis, eles se aperceberam do que o autor de “Love Will Tear Us Apart” e “Decades” estava a dizer. Como é que é possível ajudar a criar Closer e não perceber o que se está a fazer? Como é que é possível alumiar a voz imortal e não a ver? Não é. Tal como não é possível ser padre e não acreditar em Deus. “Nunca falavámos das letras. Nunca as ouvíamos.” Esta chocante sinceridade pertence a Bernard Sumner, antigo guitarrista e teclista, e pode ser encontrada no brilhante documentário Joy Division (2007), escrito por Jon Savage e realizado por Grant Gee. Quanto a si, Sr. Sumner, uma cadeira pela honestidade, e uma corda pelo resto.