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José Cândido Capela parte no Ultra Trail do Mont Blanc a 26 de Agosto
Quinta-feira, Agosto 18, 2016

Na prova mítica do Ultra Trail de Mont Blanc estará presente José Cândido Capela, que irá cumprir o sonho de todos os que participam neste tipo de provas. Em prova estarão 2300 atletas, que procurarão cumprir os 170km à volta do Mont Blanc.

O contabilista de 54 anos, descobriu tarde o atletismo, por volta dos 40 anos, e só aos 50 começou a aventurar-se pelo trail. Desde essa altura, já terá corrido mais de uma distância correspondente a uma volta ao mundo.

O Ultra Trail do Mont Blanc é o ponto alto do percurso como atleta?
Podemos dizer que sim. O Ultra Trail do Mont Blanc será a prova rainha dos jogos olímpicos do trail, é a prova mais mediática a nível mundial e que tem uma carga mítica que todos os atletas de trail, pelo menos uma vez na vida, querem fazer. Desde a altura que comecei no trail que sonhava e imaginava participar nesta prova.

O objetivo será terminar os 170km do percurso?
O objetivo para a maioria dos atletas, como é o meu caso, é mesmo terminar.

Os treinos para esta prova são diferentes do habitual?
Nunca fiz uma prova com esta distância, a prova que mais se aproxima foi de 140 km. Para o Mont Blanc, todos os quilómetros nas pernas, quer em provas quer nos treinos contam. Naturalmente que, a partir de determinada altura, comecei a treinar especificamente para o Mont Blanc, treinos não tão longos, mas de intensidade variável e também de força para estar preparado para os diversos ritmos que vou enfrentar.

Numa semana normal de treinos estamos a falar de quê?
Pode rondar os 120 km por semana. Agora, no mês de agosto, passarei, como se diz, a aliviar a carga de treinos. Numa prova de trail como o Monte Blac, com dez mil de desnível positivo, muitas vezes é difícil até caminhar e, em outros momentos, vamos ter de correr bastante. O treino é para estarmos preparados para isso.

O ano passado estava inscrito, mas não foi selecionado. Como foi este ano?
No segundo ano de inscrição, já se entra com um coeficiente superior, em que a hipótese de ser selecionado é mais forte. No entanto, temos de ter as condições de admissão, temos de ter pelo menos três provas acima de 100 km, com determinadas pontuações.

O ano passado tivemos a participação de Carlos Justo. Naturalmente, houve uma troca de impressões?
Logo na altura, conversei sobre o que correu melhor e pior e as dificuldades, mas cada um é como é e nunca reagimos da mesma forma durante as provas. Por vezes pensamos que estamos em forma e depois…

A nível de equipamento, é muito diferente do que já usou em outras provas de longa distância?
Há material obrigatório que tenho de levar na mochila, calças e capa com um valor elevado de impermeabilidade, gorro, luvas, ligadura, manta térmica, dois frontais, pois certamente entrarei na segunda noite. Já estou habituado a transportar este tipo de material obrigatório para nossa segurança. Na montanha o tempo é muito imprevisível, pois vamos chegar até aos 2500 metros de altitude, sendo a mais baixa com 1000 metros e podemos passar de temperatura de 20 graus durante o dia a negativas durante a noite.

Depois do Monte Blanc, existem já novos desafios?
Nunca se sabe o que poderá vir a seguir. Agora a concentração é nesta prova e pensar chegar ao fim, depois logo se verá. A montanha acaba por ser um vício ou um bichinho que temos.

Para quem começou tarde nunca passaria pela cabeça estar nesta situação?
Andei durante dez anos na estrada o que vai provocando uma certa saturação ou monotonia, pois as provas são mais ou menos idênticas. Há cerca de quatro anos passei para o trail que coincidiu com o boom destas provas em Portugal. Correr na natureza é sempre diferente e fui passando por todas as serras de Portugal, tirando os Açores, já fui às provas mais míticas de Portugal, já fiz, seguramente, dez provas acima dos 100km em Portugal.

Já terá dado a volta ao mundo a correr?
Nos últimos anos estava a correr 5000 km por ano. Nos primeiros anos, naturalmente, não corria tanto. Comecei a correr em 2002, fazendo uma média de 3000 km por anos, é só fazer as contas. [NR: sabendo-se que o perímetro do equador é de cerca de 40 mil km, deve estar a começar uma segunda volta ao mundo].

E não é preciso fazer umas “revisões”, com tantos quilómetros percorridos?
Faço os exames desportivos todos os anos e tenho sido considerado apto. Felizmente, não tenho tido lesões graves.

Para além do trail, ainda mantém algumas provas de estrada?
Sim, até porque algumas delas podem estar incluídas na preparação. Sou totalista da maratona do Porto e quase que me sinto obrigado a continuar a tradição. Faço a maratona do Gerês e, naturalmente, a prova das Taipas, onde também sou totalista, para além de algumas meias maratonas como a de Guimarães.

Por falar nas Taipas, esteve no início da formação do Núcleo de Atletismo das Taipas (NAT). Neste momento, sabemos que não faz parte. Algum motivo especial?
Durante dez anos, com o Manuel Mota, fiz o que podia. Depois achei que deveria dar o lugar a outros, pois não queria ficar à frente do clube. Depois, houve algumas situações que também ajudaram à minha saída, mas não guardo qualquer mágoa por qualquer pessoa. Fico satisfeito com o percurso do NAT e vejo, por exemplo, a prova das Taipas onde o NAT tem tido uma atuação que tem ajudado a afirmar esta prova.
No trail também já estive num clube, a Minho Aventura, e também saí. Fui convidado para fazer parte da direção Associação de Trail Running de Portugal que organiza os campeonatos nacionais da modalidade e que faz parte da Federação Nacional de Atletismo. Nestas condicionantes considero que não deveria fazer parte de qualquer clube.

A ligação ao atletismo de estrada é ainda forte como se pode ver pelo Guimarães Corre Corre.
O Guimarães Corre Corre foi daquelas ideias simples, de algo que já se fazia noutras cidades, e que foi aproveitada em Guimarães com algum sucesso. Os vimaranenses gostam da cidade e aderem a estas iniciativas mais populares. O Guimarães Corre Corre é algo já de Guimarães, ainda que com um carácter informal. Enquanto houver pessoas que queiram correr, lá estarei.

Como consegue conciliar os treinos e provas com o mundo do trabalho?
Não é fácil. Por vezes tenho de treinar a horas impróprias, ou muito cedo ou no final do dia. Mas quem gosta, encara a situação de uma forma natural.

Costuma treinar sozinho ou em grupo?
Normalmente é sozinho. Estamos a falar de treinos, por vezes de quatro ou cinco horas, no fim de semana. Diria que é como um passeio pela montanha que me permite aliviar do stress do dia a dia. Se o encaramos desta forma, é tudo mais fácil. Se for por obrigação ou um pouco contrariado, acaba-se por ceder. Quando se gosta, não é a chuva ou a neve que atrapalha.

O que pior lhe aconteceu durante as provas?
Já desisti de uma prova por lesão, já me perdi nalgumas provas por alguns momentos, alguns receios pelas condições atmosféricas adversas, já passei em lugares que depois fiquei a pensar como passei por lá, mas o medo também nos protege. Temos de ter um grande respeito pela montanha, tendo sempre o equipamento básico, pois entrando, por exemplo, numa zona de nevoeiro, não podemos entrar em pânico e temos de confiar no equipamento que transportamos.

Esta entrevista foi originalmente publicada na edição de Agosto do jornal Reflexo.