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Jornal das Taipas, semanário republicano (1921-1924)
Quinta-feira, Dezembro 10, 2015

Em 1822, nascia “O Azemel Vimaranense“, o primeiro jornal de Guimarães. Apesar da sua curta duração, criou raízes e ao longo da segunda metade do séc. XIX até aos inícios do séc. XX, esta cidade contou com uma imprensa abundante e ligada a diversos sectores da vida política. Porém, nas Caldas das Taipas, somente a 16 de janeiro de 1921, um grupo de homens materializou, a feitura de um periódico intitulado “Jornal das Taipas”. Surgiam assim, os pioneiros do jornalismo nas Caldas das Taipas.

No primeiro número eram explicados os motivos do aparecimento deste projeto jornalístico. Este períodico pretendia o engrandecimento da estância termal das Taipas, procurando defender os interesses locais. Nesse número é dito: “Tendo pela República uma religiosa adoração o Jornal das Taipas será sempre um defensor intemerato das instituições republicanas (…)”.

Desde o seu aparecimento, até ao n.º 51, do ano de 1922, encontramos à frente dos seus destinos, as seguintes personalidades: Dr. Alfredo Fernandes (Diretor); Abílio da Silva Oliveira (Administrador) e Luís Sampaio Marinho (Editor).

Este semanário publicava-se aos Domingos, sendo propriedade da empresa “Jornal das Taipas, Ld.ª”. A redação e administração localizavam-se no n.º 89 da Av. da República. Cada número era constituído por quatro páginas. A última página continha somente publicidade. O preço avulso deste semanário oscilou entre os $5 e os $25 centavos. A assinatura anual rondou entre os 3$00 e os 12$00. O aumento do seu preçario reflete a inflação que acompanhou os anos posteriores à Grande Guerra e os últimos anos da I República. Este periódico era expedido para o Brasil onde existia na época uma grande comunidade de taipenses. Durante a sua curta existência, o preço de cada linha dos anúncios publicitários variou entre os $20 centavos e os $50 centavos

Nas suas páginas, deparámos naturalmente com artigos referentes às Taipas, merecendo destaque, a sua estância termal, os bailes no Hotel das Termas e no Grande Hotel Vilas. Nas suas colunas, encontrámos as cartas dos seus correspondentes, de: Campelos, Fafe, Guimarães, Póvoa de Lanhoso e de Vieira do Minho. Quanto às notícias de âmbito nacional, eram pautadas pela defesa do sistema político republicano e em tempo de eleições, era usual o apelo ao voto no Partido Republicano Português. Um fato que mereceu grande destaque, foi a travessia aérea do Atlântico Sul, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

No n.º 52, de 2 de abril de 1922, é efetuada a primeira alteração, nos corpos sociais deste periódico. Desaparecendo no cabeçalho, o nome do Dr. Alfredo Fernandes como diretor e o do seu administrador Abílio da Silva Oliveira. Ambos são substituídos por Cândido Ribeiro Capela, que ocupava um novo cargo: redator-delegado da empresa. O cargo de editor mantinha-se ocupado por Luís Sampaio Marinho. Imediatamente a 23 de abril do mesmo ano, no n.º 54, Cândido Ribeiro Capela numa ação centralizadora, acumula as funções de editor e de redator-delegado. A 10 dezembro de 1922, Guido Frederico Von Doellinger assume o cargo de redator-delegado da Empresa. Com este taipense de ascendência alemã, o jornal passa a intitular-se “Semanário republicano e defensor dos interesses locais”.

Enfraquecido por várias dificuldades, o “Jornal das Taipas” a partir de 29 de julho de 1923, reduz o seu número de páginas para metade. A 20 de setembro de 1923, passa a publicar-se às quintas-feiras. No final de 1923, detetámos duas interrupções na sua edição. A primeira ocorrida em outubro, deveu-se ao atraso na entrega do papel encomendado ao fornecedor de Lisboa. A segunda deveu-se a problemas de saúde, que afetaram o tipógrafo encarregue de compôr o jornal.

A 3 de janeiro de 1924 surge o n.º 1, da 2.ª série, deixando o cargo de redator Guido Doellinger, sendo substituído por António Costa, que assume as funções de redator e administrador. Esta nova série era uma tentativa embora frustrada, de relançar este jornal.

No entanto, os problemas e as dificuldades continuavam neste jornal, que caminhava lentamente para o seu desaparecimento, como se pode verificar pela curta duração desta 2.ª série, já que na edição de 1 de maio de 1924, surge o n.º 2, da 3.ª fase. Nesta nova fase, Eduardo Augusto da Silva assume simultaneamente o cargo de editor, administrador e proprietário do jornal. É assim, dissolvida a Empresa Jornal das Taipas, Ldª. A 4 de outubro de 1924, é denominado de “Orgão republicano”. No número seguinte, passa a ser uma publicação quinzenal. Os sintomas de crise persistiam, levando que nesse último trimestre o “Jornal das Taipas” desaparecesse definitivamente.

Concluindo, podemos dizer que as Caldas das Taipas acompanhando, embora tardiamente, o enorme desenvolvimento da imprensa vimaranense, no final da I República vê nascer no seu seio um órgão de comunicação social. Tratou-se de um projeto solitário, já que nas décadas seguintes não teve continuadores. Oito anos depois, a 11 de janeiro de 1932, nasceria o “Notícias de Guimarães”, que iria conter nas suas páginas uma carta dedicada especificamente às Caldas das Taipas sob a responsabilidade do taipense José de Oliveira.

Setenta anos após o desaparecimento do “Jornal das Taipas” apareceria em 1994, um jornal nesta vila devidamente estruturado: “O Reflexo”. Entretanto, outras experiências existiram durante a segunda metade do séc. XX, nomeadamente ligadas à comunidade religiosa da paróquia de Caldelas: “O Redil”. No âmbito de jornais escolares surgiram, por exemplo: “O Pequeno Jornalista”, criado em 1988, editado pelo Agrupamento de Escolas das Taipas e posteriormente o “Trigal” da Escola Secundária das Taipas (1998).

Contudo, o “Jornal das Taipas” não deverá ser observado como um fenómeno isolado, mas como uma das várias vertentes da história social, económica, politica e cultural desta vila durante a I República. A sua importância em termos de estudos históricos locais e nacionais está patente no facto de ter sido alvo de uma comunicação denominada “Subsídios para o estudo do Jornal das Taipas, semanário republicano (1921-1924)”, que apresentámos durante o “lI Congresso I República e Republicanismo”, que teve lugar na Biblioteca Nacional de Lisboa nos dias 2 e 3 de outubro de 2014. Evento este organizado pelo Centro de História e Filosofia da Ciência da Universidade de Évora, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e pelo Instituto de História Contemporânea da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas de Lisboa.

Historiador, docente na Escola EB 2, 3 de Briteiros