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Isto vai, estimado leitor.
Quarta-feira, Junho 11, 2014

As eleições para o parlamento europeu realizadas no domingo passado encerram ensinamentos muito importantes e úteis para quem não se limite a olhar para quem ganhou ou quem perdeu, seguindo aliás o método de análise servida pelos grandes partidos e por politólogos e comentadores nada isentos e nada imparciais.

E encerram ensinamentos importantes não pelos resultados em si, mas por culminarem uma série longa de eleições diversificadas onde é possível ler com nitidez e segurança a afirmação de algumas tendências.

A mais relevante será sem dúvida a dos partidos do autoproclamado e muito badalado arco da governação, PSD, CDS e PS, estarem em contínua perda de votos. O Partido Socialista, por exemplo, perdeu 800 mil votos entre as eleições autárquicas do ano passado e as eleições para o parlamento europeu de 25 do mês em curso.

Se no lugar dos valores absolutos considerarmos as percentagens indicadoras do peso relativo daquele conjunto de partidos no total de votos expressos, de eleição para eleição, constata-se outro dado curioso e de enorme significado político. Na década de 80 do século passado, aqueles mesmos partido representavam cerca de 80% do total dos eleitores, e desde as eleições de domingo passado não representam apenas 60%.

Dir-se-á que ainda pesam muito, e é verdade, mas o declínio é evidente e arrasta um privilégio de que os partidos do arco da governação, ou da dívida, como outros lhes chamam gozaram durante muito tempo – o de bastarem para perfazerem os dois terços de deputados necessários e suficientes para, por exemplo, alterar a Constituição.

Mas esta queda tendencial revela mais. Revela que o conjunto de partidos que assinou o famigerado memorando com a tróica teve autêntica sangria de votos desde as últimas eleições legislativas, desde Junho de 2011.

Ironizando sobre um conhecido programa comercial televisivo, é caso para dizer, querido, a tróica encolheu!

Dito de outro modo, os eleitores castigaram severamente nas urnas a política de austeridade, desmentindo antes do mais o governo de turno que diariamente tenta impingir a ideia que o povo português interiorizou, assimilou e aceitou os cortes e roubos, e também os comentadores e politólogos de serviço que nos jornais e nas televisões fazem eco das palavras dos governantes e do presidente da República, pregando a resignação e o conformismo a bem dos credores e do sacrossanto e poderoso “mercado”.

Pela força do voto, os eleitores disseram que não querem continuar pelo caminho da austeridade, pelo caminho da tróica e não é por mudar de guia ou por melhorar a pregação que os votos tresmalhados regressam na sua esmagadora maioria.

É verdade que também a abstenção teima em crescer inexoravelmente. Sabemos que abstenções há muitas, tantas como os chapéus do Vasco Santana, mas seria contraproducente resumi-la à abstenção técnica, à emigração, etc., porque muitos abstencionistas optaram por esse refúgio como protesto da sua indignação.

Vivemos um tempo em que o mundo do futebol, a sua linguagem própria, a sua forma de interpretar os factos, são o acontecimento mediático mais relevante, um tempo em que muitos eleitores apenas lêem, ouvem ou vêem o que se escreve, diz ou mostra sobre esta nova, poderosa e influente indústria do entretenimento. Daqui decorre o recurso à linguagem futebolística para, muitas vezes, ilustrar os factos políticos. Mas ao contrário do que se tenta impingir, ao contrário do que acontece no futebol, o que um partido ganha não é exactamente o que outro partido perde.

Em política os resultados não são uma adição em que os termos se anulam. Regressemos aos resultados de domingo passado para exemplificar a nossa afirmação. O que o PSD+CDS perderam não é o que o PS ganhou. Por isso, quando se pretende aplicar a linguagem do futebol à política, está-se deliberada ou inconscientemente a lavrar num erro, porque não há só dois contendores, só dois concorrentes que competem entre si, como os comentadores de serviço não se cansam de “vender”. O que a Aliança Portugal perdeu está repartido desde logo pela abstenção, pela CDU, pelo MPT, pelo PS, que cresceram em votos e alguns em percentagem e mandatos.

Finalmente, a CDU cresceu, prosseguindo uma caminhada lenta, mas inexorável. Menos do que merece, dirão alguns. Demais e perigosamente, dirão outros. O suficiente para até comentadores comprometidos já não a poderem ignorar, digo eu.

E mais digo – não fraquejemos, que isto vai!

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