Incontinência urinária
Quarta-feira, Maio 4, 2005

A micção decorre ao longo de 3 fases:
· Fase de preenchimento: adaptação inconsciente do músculo da bexiga ao conteúdo de 350-500 ml,
· Fase de contenção: músculo da bexiga relaxado e esfíncteres contraídos (“fechados”),
· Fase de esvaziamento: contracção do músculo da bexiga e relaxamento dos esfíncteres.

O que é a incontinência urinária?

A incontinência urinária é a perda involuntária de urina (no momento e no local errados) que constitui um problema social ou de higiene objectivamente demonstrada, por observação directa ou indirecta (por exemplo pensos).
A sua percentagem é subestimada, é minimizada e silenciada pelos doentes. Apresenta um aumento progressivo com a idade (60 – 84% nos idosos) e é mais frequente nas mulheres.

Quais são as suas consequências?
· sociais (conforme a idade, tipo de incontinência urinária, a cultura, o país, o estilo de vida),
· económicas (tratamento de infecção recorrente, perda de dias de trabalho),
· pessoais (qualidade de vida, diminuição da actividade sexual, isolamento, depressão e re-gressão),
· médicas (impacto na actividade),
· mórbidas (cateteres permanentes, infecções urinárias, lesões cutâneas, imobilidade).

E as suas causas?
· Relaxamento dos músculos do pavimento pélvico,
· Fraqueza dos músculos que constituem os esfíncteres da uretra,
· Hiperactividade dos músculos da bexiga,
· Obstrução da uretra (pela próstata, apertos, tumores, cálculos, etc),
· Desequilibrios hormonais na mulher no período pré ou pós-menopausa,
· Doenças neurológicas (doença de Parkinson, doença de Alzheimer, Esclerose Múltipla, etc),
· Infecções,
· Doenças crónicas como: diabetes, insuficiência cardíaca, insuficiência vascular,
· Obstipação,
· Fármacos: (diuréticos, sedativos, anticolinérgicos, psico-trópicos, bloqueadores alfa-adrenérgicos, agonistas beta-adrenérgicos, bloqueadores dos canais de cálcio, etc).

Os sintomas ligados à incontinência ajudam a fazer o diagnóstico do tipo de incontinência e variam conforme a causa.

Que tipo de incontinência
se pode ter?
· de esforço,
· por imperiosidade,
· por regurgitação,
· total.

Incontinência de esforço:
Há perda de urina associada a actividades que aumentam a pressão intra-abdominal, por exemplo:
· tossir,
· espirrar,
· fazer exercício,
· assoar o nariz,
· levantar pessos;
Resulta da insuficiência esfinc-teriana uretral secundária a laxidez da musculatura do pavimento pélvico provocada pela gravidez, pelo parto, pela obesidade, pelas cirurgias pélvicas prévias ou pela menopausa. Não há desejo prévio de urinar.

Incontinência por imperiosidade:
A perda de urina é precedida por uma vontade súbita e intensa de urinar; não existe relação com a actividade ou a posição; é indicador de disfunção ou hiper-reflexia do músculo da bexiga. Está frequentemente associada a alterações inflamatórias ou neurogénicas da bexiga. Costuma ser mais frequente depois dos 75 anos de idade.

Incontinência por regurgitação:
Há um obstáculo à micção, com aumento da pressão vesical que vence a pressão vesico-uretral. Pode resultar de retenção urinária crónica. Surgem alterações das características do jacto urinário:
· jacto fino,
· gotejamento de urina,
· dificuldade em urinar,
· resíduo,
· bexiga grande com pequena capacidade.

Incontinência total:
Não existe qualquer controlo da micção, com perda contínua de urina, em qualquer instante e em qualquer posição. Pode resultar de cirurgia prévia, tumores, lesão nervosa, fístulas.

Incontinência mista:
Combinação entre incontinência de esforço e por imperiosidade.

Como o médico faz o diagnóstico?
O tipo de incontinência pode ser reconhecido pelo médico assistente após uma conversa aberta sobre as queixas. Para além do exame físico geral, podem ser necessários exames complementares (análises de urina e sangue, ecografia, radiografia, tomografia axial computorizada, urografia, testes urodinâmicos) para se fazer um diagnóstico correcto do tipo de incontinência e decidir qual o tratamento mais adequado.

Como se pode tratar?
· Incontinência de esforço: pode ser tratada por cirurgia e medicamentos; a cirurgia é simples e de fácil realização, resolvendo o problema na maioria dos casos,
· Incontinência por imperiosidade e por regurgitação podem ser controladas por medicamentos específicos,
· Exercícios de estimulação dos músculos pélvicos podem ajudar a reforçar os mecanismos de encerramento da bexiga,
· Pensos e fraldas próprios podem ajudar a controlar as perdas, odor e dar mais segu-rança às pessoas atingidas enquanto aguardam o tratamento.

Alguns conselhos:
· Procurar o médico de família e falar abertamente com ele sobre o problema; é a pessoa indicada para o aconselhar
· Diminuir a ingestão de líquidos, evitar os alimentos que podem irritar a bexiga (picantes, condimentos, café, bebidas ga-seificadas, bebidas alcoólicas), evitar a obstipação, fazer o esvaziamento completo e frequente da bexiga.

Susana Pereira, Médica
Centro de Saúde das Taipas