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Inconscientemente competente!
Sexta-feira, Fevereiro 7, 2014

A viagem até à escola decorreu sem problemas. O carro conhece o trajeto e eu aproveito esses breves minutos para pôr os assuntos em dia. Tantas decisões importantes tomadas ao volante de um carro! Tenho consciência de que estou a ser «inconscientemente competente», um perigo para o trânsito, já que só vou parcialmente atenta.

E ao longo da vida vamos sendo inconscientemente competentes em tantas situações! E nem sempre nos apercebemos dos sinais de alarme! E aparecem as surpresas… muito poucas as agradáveis, na maior parte das vezes. A rotina pode ser tão destruidora! A rotina nas relações! A rotina no trabalho! A rotina…

E as depressões avançam pé ante pé umas vezes, aos atropelos outras, face ao caminho desimpedido e propício, de quem está só parcialmente atento, de quem só vê o que quer, de quem ignora os sinais de perigo e pensa que só acontece com os outros, de quem julga que toda a gente tem os mesmos valores e respeito pelos outros… E, na maior parte dos casos, a depressão vence. Então, instala-se a desilusão permanente, a culpabilização, a sensação de fracasso, de se estar num poço sem fundo de onde é impossível sair. Chega o sentimento da autocomiseração e a autoestima desaparece, desce para o piso subterrâneo. E os dias sucedem-se uns atrás dos outros, amorfos, sem vontade de nada fazer, nada que aproveite a esta sociedade que cada vez quer mais, que nos empareda, que nos sufoca e exige mais e mais dos seus professores. Até quando? Quem sabe quando chegará o dia de dar a volta por cima?

Depois de tantas lutas e tantas canseiras e tantas vitórias e tantas derrotas, sinto que a educação regrediu trinta anos. Quase me vejo sentada naquelas salas frias do liceu, com quarenta alunos a ouvir o “magíster dixit”. O que vai sendo diferente é a panóplia de instrumentos que o professor tem à sua disposição (se assim o entender e na minha escola, claro, porque as escolas não são todas iguais!). Mas até isso está a acabar. Que fazer quando o que consideramos estar certo está a ser irremediavelmente destruído? O Cratês instalou-se e a escola pública está pelas ruas da amargura. Como se a escola privada, elitista e seletiva, seguisse os mesmos parâmetros!

Não é fácil viver o dia a dia sobre uma panela de pressão que, a todo o momento, ameaça explodir. Os professores têm de aprender a viver a vida o mais possível dentro da normalidade sem levarem para casa os problemas da escola, dos alunos, dos pais dos alunos, da chuva que cai na sala em que dá aulas…

Há, pois, que aceitar o stress e as dificuldades como fiéis companheiros da sociedade atual e aprender a lidar com eles. E, quantas vezes, para não soçobrarmos nos limitamos a ser inconscientemente competentes?

Só assim conseguimos dormir e acordar com vontade (obrigação!) para fazer a nossa quota-parte e acedermos ao nosso pequeno quinhão de felicidade.

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