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Hoje, tal como há quarenta anos
Quinta-feira, Novembro 26, 2015

“…Eu quero dizer neste momento, e isso considero muito importante, que a participação do Partido Comunista Português na construção do socialismo é indispensável. …” Esta declaração foi proferida pelo então Major Melo Antunes, ideólogo do Grupo dos Nove e responsável pelo “25 de Novembro”, em 26 de Novembro de 1975, que provocou o fim do período a que historicamente conhecemos como PREC – Processo Revolucionário em Curso. Com esta frase, Melo Antunes pretendeu enquadrar o PCP no espectro político partidário da altura e travar todos aqueles que, ressabiados e insatisfeitos com a revolução, pretendiam um ajuste de contas com as forças à esquerda do PS.

Passaram quarenta anos desde este acontecimento político militar que, simbolizando uma viragem à direita no processo revolucionário, não atingiu os objectivos pretendidos pelos sectores mais conservadores e mais radicais da sociedade portuguesa, pois não conseguiu impedir a aprovação da Constituição da Republica em 1976, onde ficaram consagradas as principais conquistas e objectivos de Abril.

No final do passado dia 4 de Outubro de 2015, e logo após a divulgação pública das primeiras projecções eleitorais, onde a coligação de direita, para além da maioria simples, poderia conquistar a maioria absoluta, assistimos a um autentico festim de comentários e análises de especialistas em todas as matérias, em quantidade suficiente para disfarçar a falta de diversidade, e incapazes de distanciamento que lhes proporcionasse a lucidez de uma leitura que não se confundisse com o seu próprio desejo.

Assim, agarrados aos números que lhes interessavam, a vitória do PSD/CDS e a derrota do PS, ignorando ostensivamente as outras forças em presença, decidiram explorar o cenário que para eles era o mais óbvio: o país iria ter um governo formado pelo PSD/CDS, com apoio tácito do PS. Para reforçar esta tese e como principal argumento chamaram nada mais nada menos que, a tradição.

Para estes esclarecidos, a nova composição da Assembleia da Republica não tinha qualquer importância, e foi neste ambiente eufórico de assunto já quase encerrado, que numa curta mas objectiva intervenção análise dos números, Jerónimo de Sousa, Secretário Geral do PCP disse que: “o PS tinha, se o quisesse, condições para formar governo”. Nessa noite, talvez pelo muito ruído existente, poucos foram os que o ouviram, embora, contrariando o ambiente televisivo que apontava para vencedores mais que indiscutíveis, não me apercebi de qualquer movimento que indiciasse festejos na rua. Havia silêncio no ar e a rua (ou praça), local colectivo e preferido de manifestação ou festa, estava calma.

Nos longos dias que se seguiram, o ambiente não se alterou e a solução governativa que nos martelavam diariamente, era mais do mesmo, a demonstrar que a embriaguez provocada pelos números da primeira projecção ainda se mantinha alapada no cérebro daqueles que têm a função de nos explicar o que os outros dizem, porque, presumo eu, nós cidadãos simples e comuns sem estes interpretes, seríamos incapazes de perceber.

Como diz o Povo “não há mal que sempre dure, nem bem que nunca acabe”, o que é o mesmo que dizer que a euforia cedeu o lugar à serenidade, permitindo ouvir melhor, passados dias, aquilo que não se ouviu bem anteriormente: “O PS tem condições, se quiser, para formar governo”. O PS quis e, apesar das resistências do Presidente da Republica, formou o XXI Governo Constitucional.

Tal como foi dito há quarenta anos atrás, e adaptando à actualidade, o PCP é indispensável para a construção de um compromisso para uma alternativa de governo para o país.

Verador da CDU na Câmara Municipal de Guimarães