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«Hey, YOU, leave us teachers alone!»
Sábado, Fevereiro 2, 2002

A mudança é a “marca de água” deste ano lectivo de 2001/ 2002.
A Reorganização Curricular avançou, entrou, instalou-se, quando ainda estavam mal dige-ridas as novas informações sobre os novos conceitos, sobre a nova forma de organização da escola, sobre as novas exigências que se lhe colocam.
E, como de costume, avançam as reformas- desta feita, reorganização- sem que se tenham avaliado as anteriores, diria mesmo, sem que se tenham chegado a implementar as que a antecederam nos últimos tempos. No centro de toda esta REFORMA / REESTRUTURAÇÃO / REORGA-NIZAÇÃO estão os alunos e os professores, uns porque são os objectos /sujeitos da mesma (dizem!), os outros porque a têm de implementar, quer queiram quer não.
Os professores não gostam de ler, os professores não gostam de reflectir, dizem os que nos ficam acima neste macrossistema que é a Educação; os professores não gostam de trabalhar, dizem os que deviam ser nossos parceiros na educação- os pais/ encarregados de educação, a comunidade em geral, para já não falar da administração (alguma vez terá parceria connosco?).
Se uns e outros até têm uns por cento de razão, não deixa de ser caótica a situação que enfrentamos, porque andam alguns a procurar implementar o que devia ser trabalho de equipa e em equipa. Por outro lado, a equipa que tem as ideias, a que trabalha nos gabinetes, recusa-se a descer à realidade do país, antes de importar seja o que for dos nossos parceiros da União Europeia ou, pior ainda, de sistemas educativos que vêm do outro lado do Atlântico. Outros povos, outras mentalidades e, se bem que por lá tenhamos um pedaço do nosso «eu» espalhado pelas comunidades portuguesas e algumas gotas do nosso sangue circule pelas veias de alguns deles, as realidades são bem diferentes.
Nunca se fazem consultas às bases para a tomada de decisões de fundo; tudo é decidido, «decretado» por quem pode mandar e as coisas fazem-se sem sentido nem consistência e, acima de tudo, sem uma perspectiva de médio / longo prazo, que permita uma avaliação. Tudo é feito em cima do joelho, apenas para que a insatisfação generalizada que se faz sentir seja mais uma vez amordaçada, porque parece que se vai mudar alguma coisa e os professores (os grandes culpados quando alguma coisa corre mal!) tornam-se meros executores das «reformas decretadas», a maior parte das vezes sem que lhes seja facultada formação adequada nem condições de trabalho que permitam a sua exequibilidade. Depois não admira que muitos profissionais se abstenham da sua função de concretizadores de uma medida que, se calhar, no ano seguinte já não está em vigor. É mais fácil deixar andar!
A vida de professor é um stress permanente, um desgaste constante. Não admira que seja um dos grupos profissionais que apresenta níveis de mal-estar mais elevados: a indisciplina dos alunos (a que vulgarmente se dá o nome de «crise de valores»), a sobrecarga de trabalho, a diversidade de tarefas, papéis e funções que sobre ele recaem, o excesso de burocracia, as constantes mudanças no sistema educativo, nos curricula… são algumas das razões que fazem com que a apetência por esta profissão esteja a desaparecer e muitos dos que estão na carreira desejem abandonar o barco.
Aqui, como no resto da Europa (na Holanda, na Irlanda, no Reino Unido há falta de professores!), corremos o risco de não ter quem venha a preparar os jovens no futuro, já que a profissão de docente não atrai ninguém, porque, repito, é uma profissão de risco, é desgastante, é mal remunerada e as condições de trabalho não são apropriadas e, acima de tudo, porque é mal vista, não se lhe reconhecendo nenhum mérito nem valor.
Ora, o reconhecimento do trabalho feito deve-se a qualquer trabalhador, seja professor ou profissional de outra área; só assim ele procurará aumentar as suas capacidades, elevará a sua auto-estima e, se possível, renderá ainda mais. Não é isso que se pretende. Como todos sabemos, falar mal vende muito mais do que falar bem e é muito mais fácil. Por isso, há assuntos recorrentes para distrair o país (as pausas lectivas que são férias!, a ocupação dos alunos nas férias!) e pôr na berlinda o bode expiatório favorito de uns e outros- os professores.
Quando se falará verdade neste país e se dirá a toda a gente e em caracteres de caixa alta que este Sistema Educativo só não entrou ainda em colapso total, porque os professores o estão a segurar?
Quando se falará bem dos professores (sabe tão bem o elogio!) à comunidade exterior (que já lhes vai dando algum valor- aturamos-lhe os filhos!- e só os senhores importantes das cúpulas das associações de pais e o governo preferem ignorar, porque realmente estamos em realidades completamente diferentes!) e se dirá que, apesar de inundado de trabalho burocrático (imposição das cúpulas!) e da multiplicidade das suas funções e de não ter mãos a medir nem saber para onde se virar, o professor continua a ser fiável e a dar conta do recado?
Sabem o que lhes digo? Não há realmente uma coesão de classe, porque, se a houvesse, a (Re)Organização Curricular acabava já aqui e os senhores administradores, os tais competentes, que a viessem implementar. Isto preconizava na imprensa diária um senhor secretário de estado que lamentava que os Conselhos Directivos fossem eleitos inter pares, pois o cargo de presidente devia ser ocupado por «concurso público», pois que assim «seriam pessoas devidamente habilitadas» a ocupar tais cargos e seriam «coadjuvados por Directores de Departamento Curricular»- claro que a pessoa em questão esqueceu-se de se actualizar e falar em Conselhos Executivos e em Coordenadores de Departamento Curricular. Questão de terminologia, de quem acusa os professores de não se actualizarem!
Novos ventos de mudança sopraram. Esperemos que tragam boas novas e que o Sistema Educativo em Portugal encete uma nova etapa que resolva os seus problemas estruturais no âmbito da autoridade profissional e institucional, da avaliação das escolas, da carreira docente, da reforma da administração, do recrutamento e colocação de professores, da organização e funcionamento das escolas, dos contratos de autonomia,
E, como se aproxima uma das tais pausas lectivas (a do Carnaval, um dos tais temas recorrentes, em que a Educação e os professores vão estar na baila e ser mais uma vez joguete da imprensa sensacionalista!) aproveitem para perguntar aos alunos, os principais interessados, se eles querem vir à Escola, quando têm pausas lectivas ou férias.
Façam a pergunta e deixem-nos em paz!
Parafraseando uma célebre frase do disco «The Wall» dos Ping Floyd, que fez e faz a delícia da juventude contestatária -«Hey, teachers, leave us kids alone!», eu diria- «Hey, YOU, leave us teachers alone!».

Janeiro 2002