Haverá alguma relação entre política e circo?
Quinta-feira, Novembro 4, 2004

Devo confessar que não fiquei minimamente preocupado com o episódio, por uma razão muito simples, a pressão política que foi exercida para silenciar o professor vem de uma gente fraca e sem arte para enganar sequer um ceguinho. O que me preocupa, é a desfaçatez e a forma desprendida como alguns políticos fazem aquilo que lhes apetece pondo o seu interesse particular acima do interesse público. O que me preocupa é a inteligência bacoca de alguns ministros que nos governam.
   
Antes de mais gostaria de dizer que sempre defendi que o Presidente da República deveria chamar o maior partido do governo a formar nova equipa, pondo de parte a possibilidade de eleições antecipadas com a saída de Barroso para a Comissão Europeia. Isto porque foi eleito um governo por quatro anos, com Durão Barroso como primeiro-ministro é certo, mas este governo ganhou as eleições na sequência de um castigo que o povo português decidiu infligir ao Partido Socialista de Guterres de então. Fez bem, na minha opinião, Jorge Sampaio, ao decidir-se pela indigitação de Santana Lopes, em nome da estabilidade política e social, essencial neste momento difícil que o país atravessa.
Digo isto, não porque me identifico com esta gente, longe disso, mas por ser defensor da estabilidade e fomentar sempre e em qualquer situação o consenso optando pela ruptura em última estância. Não é uma forma de fugir aos problemas, como pensarão alguns, mas antes uma forma pragmática de viver com os problemas.
A política é hoje um espelho dos nossos rios, já foram bons e sãos, já se pôde mergulhar e nadar sem encontrarmos alguns resíduos sólidos.
Os políticos deste governo, salvo raras excepções, não têm ética política e tentam manipular a opinião politica com puro entertainement, é aquilo a que chamo de “populismo” ao mais baixo nível e ainda por cima pactuam com dirigentes políticos, que em nada dignificam uma classe que deveria ser nobre, a política.
Senão vejamos, são eles próprios insultados, dirigentes do PSD, por aquele senhor da Madeira que faz pouco deste país, mas só porque vale muitos votos e poder na região autónoma da Madeira, aceitam este vexame contínuo. Não está em causa a obra que esse senhor possa ter feito, mas há meios que não justificam os fins e é necessário ter coragem política para se acabar com estas vergonhas. Depois temos mais na extrema, o senhor Paulo Portas que apregoa, em nome da pátria, os bons costumes dando lições de conduta moral, mas por outro lado admite que um dos seus correligionário insulte a Justiça quando esta não lhe é favorável e tire umas férias da Câmara de Marco de Canaveses para se ir mostrar em trajes menores num reality-show da TVI. Pergunto onde está a honestidade política desta gente!
Estaremos nós a adquirir um bilhete para o circo com o pagamento das nossas contribuições?
Não sou daqueles que não acredita na política, nem nos políticos, porque há gente boa, competente e intelectualmente honesta, independentemente das suas convicções ideológicas, que tem ideias e pensa no futuro deste país e que erra como qualquer ser humano.
Voltando ao caso Marcelo Rebelo de Sousa, é indesmentível que houve pressão política por muito que eles nos tentem convencer do contrário. Chega a ser constrangedor ver a figura de alguns ministros e empresários tentando explicar o inexplicável. Pela sequência dos acontecimentos que levaram à saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI, ficou clara a ligação que existe entre interesses políticos e económicos, nem isso o ministro Gomes da Silva e Paes de Amaral tiveram inteligência para disfarçar, ou melhor, se o quisessem fazer de uma forma pensada, não conseguiam, querem uma aposta? Há políticos que ainda não entenderam que o respeito, aliás como tudo na vida, constrói-se com base numa postura de verdade, rectidão e tolerância, e não tentando silenciar os opositores.
O “populismo” tomou conta do poder, mas apetece-me dizer que é aquilo que o “povão”, no sentido lato da palavra, merece. Não é possível atirar pedras quando se tem telhados de vidro, não se pode apontar o dedo à classe política, se não pugnamos pela verdade, se de uma forma sistemática infringimos as regras que nos regem, e se de uma forma desleixada na hora de votar trocamos o nosso dever cívico por uma praia, por um fim-de-semana, ou simplesmente pelo conforto do sofá. Achamos, ignorantemente, que a abstenção é uma forma de lhes mostrar o nosso descontentamento mas eles riem-se apelidando o “povão” de desinteressado, para ser meigo na apreciação. Será que já pensaram o que representa um voto em branco, o peso político que ele tem, actualmente, pela forma de reivindicar que o acto configura?

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