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Haja juízo
Quarta-feira, Janeiro 5, 2011

No fim de cada ano que passa existe a tentação de fazer uma reflexão sobre o que se passou e tentar uma visão prospectiva do que vai ser o novo ano. Tal como os seres vivos, o tempo também nasce e morre a cada instante. O nascimento de um ano novo é um retorno a um novo inicio, uma etapa, num percurso “pisado” pelo tempo. Dizem que é recomeçar. Ninguém recomeça o início duma prova que não pára.

No que às Taipas diz respeito, olhando para trás, vemos que três obras de relevo foram concluídas: os banhos velhos; a ampliação e melhoramento da escola secundária; a entrada da vila.

Desde 2008 que o mundo acordou para uma dura realidade: não basta gastar em obra, é necessário definir com muito rigor a racionalidade dos investimentos; é que os mesmos podem-se vir a revelar um não investimento gerador de riqueza mas um gasto gerador de despesa. O exemplo mais perto de nós, são o excesso de auto-estradas construídas que pouco têm ajudado ao desenvolvimento do país antes se têm revelado um constrangimento, senão obstáculo, a um relançamento do país: excesso de empréstimos bancários às construtoras faltando a necessária liquidez para financiar as restantes actividades económicas.

Em discurso formatado, o presidente da Câmara de Guimarães e o seu vice-presidente têm acentuado que os orçamentos cada vez serão mais orçamentos de despesa corrente e cada vez menos orçamentos de despesa de capital. A justificação tem sido a de que vai ficando tudo feito; depois trata-se de assegurar o funcionamento e uso das coisas; e que esse uso está a encarecer progressivamente.

Pegando na expressão muito comum do “politicamente correcto” que não me apetece ser, nunca o fui nem faço intenção de o ser – é mais forte do que eu – terei que dizer que é necessário um juízo permanente de ponderação de custo/proveito, em todas as obras que se façam no país.

Não posso concordar com a megalomania e o custo exorbitante das obras de alargamento e beneficiação das escolas secundárias que varre o país; não posso concordar com o modelo seguido, parcerias público privadas, que diferem para um tempo futuro o pagamento, com juros com taxa superior ao que a nação paga actualmente, já exageradamente altos, de tais obras. È que, diferir o pagamento do preço, ilude o seu custo real; e gasta-se de forma irracional; os fins não justificam todos os meios.

Não posso concordar com o gasto efectuado pelo município na entrada da vila porque deixou tudo na mesma e não resolveu uma necessidade premente da população: a circulação com segurança naquele troço. O que se fez são, o que se pode chamar de em linguagem jurídica, de benfeitorias voluptuárias.

As obras realizadas nos “banhos velhos” são, em si, um beneficio. Na adversativa, terei que dizer que a sua valorização só ganhará verdadeiramente sentido se a zona envolvente for convenientemente requalificada sempre tendo presente um juízo de custo/proveito que, na actual recuperação, não foi acautelada.

Temo que a abundância de dinheiro do município, empolado pela organização da capital europeia da cultura, mais uma vez, fará incorrer a câmara em obras inúteis, aliás, a sua grande especialidade cotando-se o novo mercado municipal o exemplo claro de gasto exorbitante e inútil.

Estou-me a lembrar na requalificação do Toural e da Alameda; os milhões que lá vão ser gastos… O resultado? – deixem-me ir contra a corrente: um desastre descaracterizador de uma praça pombalina que assume, pela sua beleza, o papel de praça anfitriã de quem se apresta a entrar no centro histórico pela “porta da vila.”

Que o “crime arquitectónico” cometido em Braga, no Campo da Vinha, seja um exemplo dissuasor a quantos se propõem a tocar no que está bem, e que se recomenda, com prejuízo manifesto para o erário público.