Gestos válidos entre namorados e adultério
Quarta-feira, Maio 30, 2001

1. Porque é que os namorados oferecem tanta resistência em admitir a invalidade das relações pré-matrimoniais?
Porque as relações sexuais agradam, dão prazer. Se não agradassem, se não dessem prazer, mas fossem um sacrifício, os namorados não teriam qualquer dificuldade em admitir a invalidade das relações pré-matrimoniais. Diriam: “É algo que deve ser reenviado para o matrimónio”.

2. Que gestos são moral e psicologicamente válidos entre namorados?
Antes de mais, é importante dizer que os sinais do amor esponsal não devem reduzir-se aos gestos de ordem física. Existem muitos outros sinais que podem e devem exprimir o amor esponsal.
Acerca dos gestos físicos, podemos dizer que existem gestos de doçura, de ternura, de amabilidade, de cortesia, de cortejamento…, que servem muito bem para exprimir este tipo de amor. São gestos que deveriam continuar no matrimónio. Infelizmente, muitas vezes, estes gestos não existem no matrimónio porque os dois partners (parceiros) não se preparam a praticá-los.
Hoje quer-se tudo e logo! Mas está errado, porque ficará carente, talvez para sempre, uma certa esfera afectiva, que é bela, que dá serenidade, que é gratificante. Muitos homens, inclusive, não conhecem o mundo da ternura.
Repetimos: ao contrário, são para adiar para o matrimónio o acto sexual e todos os gestos íntimos que, de por si, preparam o espírito, a psique, o corpo à união física. Estes gestos formam como que um bloco (uma coisa só) com a união sexual; enquanto que os gestos de que falámos antes ficam (estão) bem por si mesmos.

3. Gostaria de saber que outros comportamentos estão em contradição com os outros aspectos constitutivos da sexualidade?
Respondemos um pouco rapidamente porque o assunto é de fácil compreensão.

  • Contra a unicidade (exclusividade) vão: as aventuras amorosas, o adultério, a poligamia simultânea, a poligamia sucessiva, a prostituição…
  • Uma relação total, como é a relação conjugal, só pode ser única (exclusiva); se for partilhada (repartida) já não é total.
  • Contradizem a profundidade todas as relações sexuais (mesmo que efectuadas no matrimónio) que não exprimem e não aprofundam a comunhão interior.
4. O adultério, que parece tão difundido actualmente, reveste uma conotação moral negativa particularmente grave?
O assunto necessitaria de uma longa conversa. Mas ficamo-nos só por alguns acenos.
O adultério:
 

  • é uma gravíssima falta à palavra dada: depois da palavra dada a Deus, não há palavra mais comprometedora que a dada ao cônjuge;
  •  é falta de amor para com o próprio tu (marido ou esposa): um tu “escolhido” para sempre e “único” no mundo (como é único no mundo um determinado casal);
  •  é falta de respeito: a pessoa é original, irrepetível, intocável. Não se pode tomar e pôr de lado uma pessoa segundo o próprio prazer, como se fosse uma coisa;
  •  é a rotura de uma linguagem única no mundo.
Enquanto que a palavra e tantos outros meios expressivos são a linguagem de todos, a linguagem sexual é a linguagem secreta dos esposos. É uma linguagem que é só deles e que salvaguarda a unidade do casal. É a linguagem que eles usam quando querem exprimir-se como “casal único no mundo”, como “molécula irrepetível”, como “dualidade na unidade”. É a linguagem que eles usam quando querem aprofundar aquele mistério de amor que os levou a partilhar toda a sua existência terrena.
A relação extra-conjugal é como que “multiplicar um gesto” que, por sua natureza, deveria ser significativo de um amor único no mundo.
Além disso, o adultério é uma premissa muito má:
 

  • de contrastes insanáveis com o próprio cônjuge;
  • de sofrimentos profundíssimos e prolongados de ambas as partes e, por vezes, da parte dos filhos;
  • de maternidades (ou paternidades) indesejadas;
  • ou, até, do crime de aborto.
  • é uma dissecção do próprio ser. Quem pratica o adultério divide-se interiormente:
  • dá ao próprio cônjuge a palavra solene com que o escolhe e dá ao outro o próprio corpo;
  • dá ao próprio cônjuge o corpo e ao outro partner (parceiro) o coração;
  • ou então dá ao próprio cônjuge o coração e ao outro o corpo.
Para os cristãos, para quem o matrimónio é sacramento (isto é, sinal do matrimónio entre Cristo e a comunidade eclesial), (o adultério) é uma rotura provocada no coração de Cristo e da Igreja.
Acrescente-se que através do adultério se envolve num pecado gravíssimo uma outra pessoa e se põe em perigo a estabilidade de uma outra família.

5. Falando dos aspectos constitutivos da sexualidade (dos quais deriva a moral sexual), também se falou de “oblatividade” e de “receptividade”. Que comportamentos contra-riam estas duas dimensões da sexualidade?
Oblatividade significa: “Eu sou capaz de me dar a ti até ao sacrifício de mim próprio”.
Receptividade significa: “Eu sou capaz de te acolher, como pessoa, na minha vida: este acolhimento implica que eu queira não fazer-te à minha imagem e semelhança, mas que te ajude a seres cada vez mais tu próprio”.
Contra estas duas componentes da sexualidade vão: qualquer falta de amor esponsal, qualquer rejeição do outro, qualquer tentativa de adaptar o outro a si, qualquer falta de apoio para que o outro se torne o melhor de si mesmo, qualquer acto sexual feito por puro egoísmo, qualquer acto sexual que não seja respeitoso das legítimas exigências do outro.