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Gente que trabalha recebe mal e tarde
Sexta-feira, Julho 22, 2016

A chaga dos salários em atraso parece estar de regresso e em força, sintoma inequívoco de dificuldades nas empresas que a crise veio escarrapachar e agravar.

De acordo com dados estatísticos de 2009, a grande maioria das empresas portuguesas evidenciavam o peso excessivamente perigoso dos capitais alheios no equilíbrio financeiro, expondo-as às pressões dos credores. A crise financeira que vivemos foi impiedosa para as mais expostas, as mais vulneráveis, as mais dependentes do financiamento bancário de apoio à tesouraria. Muitas encerraram, outras arrastam-se penosamente.

Sem crédito bancário, com passivos não financeiros muito elevados, impedidas de se autofinanciarem através de entradas dos accionistas, por incapacidade ou opção deles, essas empresas revelam-se incapazes de saírem do ciclo da pobreza pelos seus próprios meios e vegetam à espera do milagre.

Algumas tiveram no passado recente generosos e avultados apoios governamentais, contribuições de fundos oficiais para o reequilíbrio e a revitalização, atendendo ao seu peso nas exportações, à sua dimensão social e à sua importância para a economia regional onde exercem inegável poder de atracção e fixação de emprego. Houve alguma precipitação ou negligência na avaliação de algumas situações, sendo a mais estranha a daquela empresa que ainda o financiamento não tinha aquecido os cofres já estava a declarar-se insolvente. Mas houve sobretudo excesso de confiança em administrações incompetentes.

A generalidade dos contratos parassociais não terá sido respeitada. As obrigações dos accionistas terão ficado por realizar. Casos há em que a obrigação dos accionistas era de aumentarem o capital na mesma proporção do Estado, mas que não terá sido cumprida. Daqui resultou que as dificuldades de tesouraria inicialmente detectadas pelos peritos se mantiveram e agravaram à medida que o crédito bancário e de fornecedores se tornou mais raro e mais caro.

As vítimas maiores são sempre a parte mais frágil da relação laboral, os trabalhadores.

Não recebem nos prazos determinados pela lei, sob ameaça de despedimento trabalham horas extraordinárias remetidas para um banco de horas que também não respeita a lei e além disso são desrespeitados na sua condição humana. Uma empresa é um mundo de problemas de vária ordem, onde as relações humanas têm de ter um lugar de destaque. Quando há problemas económicos e financeiros, quando há sistemático atraso no pagamento dos salários um gestor competente tem de ter uma atenção, tem de ter uma palavra para os trabalhadores que trabalharam, produziram, vêem as encomendas sair e ficam à espera do meio do mês seguinte para receberem o valor do trabalho realizado e por vezes já pago pelo cliente mas sumido através dos buracos de uma gestão no mínimo duvidosa.

Representante eleito pela CDU na Assembleia de Freguesia de Caldelas