Falemos de Bullying…
Sexta-feira, Fevereiro 7, 2014

O bullying assume-se como um fenómeno que abrange uma variedade de comportamentos agressivos entre os pares, incluindo ações de carácter físico ou psicológico1, realizados com a intencionalidade de causar dor ou desconforto. O carácter repetitivo e sistemático em que ocorrem, bem como a relação assimétrica de poder, são características que o diferenciam de outros comportamentos agressivos.2,3 Tradicionalmente, é admitido como natural, como uma experiência comum e normal do desenvolvimento, sendo, por isso, facilmente ignorado ou desvalorizado pelos adultos. No entanto, encontra-se na génese de sinais e sintomas clínicos relevantes, com impacto a curto e longo prazo, quer a nível físico, quer a nível psicológico.4,5 Pode conduzir a situações de depressão, ansiedade, baixa autoestima, isolamento, exclusão, etc., que podem perdurar no tempo, enquanto jovens ou adultos, além da dificuldade em impor-se profissionalmente e da insegurança em estabelecer uma relação afetiva duradoura.

Sofrer bullying pode ser um fator predisponente importante para a instalação e manutenção de diversos sinais e sintomas clínicos, conforme podemos ver na tabela seguinte:

Tabela 1 – sinais e sintomas possíveis de serem observados em alvos de bullying 


Enurese noturna; Alterações do sono; Cefaleias; Enurese noturna; Alterações do sono; Dor epigástrica; Desmaios; Vómitos; Dores em extremidades; Paralisias; Hiperventilação; Bulimia; Perda da memória; Queixas visuais;  Anorexia; Sonolência; Isolamento; Tentativas de suicídio; Irritabilidade; Agressividade; Ansiedade; Histeria; Depressão; Pânico; Relatos de medo; Transtornos fóbicos; Resistência em ir à escola; Tristeza; Insegurança por estar na escola; Diminuição do rendimento escolar; Atos deliberados de autoagressão. 


A identificação de algumas destas queixas pode ser denunciativa de maus-tratos praticados por colegas, demonstrando a necessária atenção dos pais, professores e profissionais de saúde3, até porque raramente a criança/adolescente se queixa de estar a ser vítima de bullying e procura ajuda. 

Estes comportamentos agressivos são mais frequentemente observadas entre crianças e adolescentes do sexo masculino, sendo os mais jovens os mais frequentemente vitimados. Entre os rapazes prevalece o bullying físico (agressões), enquanto nas raparigas é mais frequente a forma indireta (difamação). O bullying verbal (apelidos) é observado de modo semelhança em ambos os sexos6

Os fatores que contribuem para a prática de bullying na escola são complexos e multifacetados, incluindo questões sociais e culturais, dinâmicas familiares, influência da mass media, videogames, etc.7. Os alvos típicos de bullying são geralmente crianças/adolescentes ansiosos, mais fracos, física e emocionalmente, e tendem a apresentar atitudes negativas diante dos atos violentos, seja pela não-reação, isolamento ou por reações que demonstrem fragilidade, imaturidade ou insegurança. Além disso, costumam apresentar ansiedade, baixa autoestima, rejeição ou baixa aceitação do grupo, poucos amigos, ambiente escolar pouco ou nada prazeroso e alta frequência de problemas internos e externos. Fatores familiares como superproteção ou rejeição (“bode expiatório”) também podem estar presentes6,7.

Importa, por isso, trazermos à tona este fenómeno que, apesar de sempre ter existido, traz consequências sérias para as nossas crianças, mas também para as suas famílias. Muitas vezes, o sentimento de culpa e de incapacidade dos pais para debelar o bullying contra os seus filhos passa a ser a sua principal preocupação, com reações de ira ou inconformismo contra si mesmos e a escola, associados a sintomas depressivos e influências no seu rendimento laboral e nas relações pessoais. Todos devemos ter uma atitude pró-ativa perante o bullying. Atos de bullying são universais e não há escola sem bullying, nem estratégias capazes de extinguir este tipo de comportamento entre os estudantes. Conhecermos o problema, os seus riscos e consequências é um primeiro e importante passo para estarmos alerta e prevenirmos este fenómeno, que é, em si mesmo, um ato de promoção da saúde e de cidadania.


Referências bibliográficas: 

1. Matos, M., Simões, C., & Gaspar, T. (2009). Violência entre pares no contexto escolar em Portugal, nos últimos 10 anos. Interacções, 13, 98-124. 

2. Almeida, K.L., Silva, A.C., & Campos, J.S. (2008). Importância da identificação precoce da ocorrência do bullying: uma revisão de literatura. Revista de Pediatria, 9(1), p. 8-16. 

3. Lyznickyi, J.M., McCaffree, M.A., & Robinowitz, C.B. (2004). Childhood bullying: implications for physicians. American Family Psysician, 60(9), p. 1623-1628. 

4. Bond, L., Carlin, J.B., Thomas, L., Rubin, K., & Patton, G. (2001). Does bullying cause emotional problems? A prospective study of young teenagers. British Medical Journal, 323(6311), p. 480-484. 

5. Due, P., Holstein, B.E., Lynch, J., Diderichsen, F., Gabhain, S.N., Scheidt, P., & et al. (2005). Bullying and symptoms among school-aged children: international comparative cross sectional study in 28 countries. Eurpean Journal Public Health, 15(2), p. 128-132. 

6. Smith, P.K. (2004). Bullying: recent developments. Child and Adolescent Mental Health, 9, p. 98-103. 

7. Werle, G.D. (2006). Taking steps to promote safer schools. Journal School Health,66(4), p. 156-8.

Professora Doutora professora na Escola Superior de Enfermagem de Braga – Universidade do Minho