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Experimentar os limites
Segunda-feira, Agosto 8, 2005

As crianças, os jovens estão cada vez mais insuportáveis, é voz corrente. São impossíveis, uns ditadores de palmo e meio. Só conhecem dois verbos: o QUERER, conjugado no presente do indicativo na 1ª pessoa- eu quero… eu quero… e o GOSTAR que adoram conjugar no mesmo tempo e pessoa, mas na forma oposta, na negativa- eu não gosto… eu não gosto… eu não gosto… Quando conjugados a contento deles, o cenário fica interessante- Eu quero uma playstation, eu quero o novo disco dos D’Zrt, eu quero ir ao concerto dos…, eu quero aquelas calças da Levis (ou qualquer outra daquelas marcas que custam tostão e meio!), eu não gosto de cenoura, eu não gosto de nabo (procurem-se outros vegetais, não vão as criancinhas desfalecer de fome!), não gosto dessa saia azul (compre-se outra vermelha e da tal marca que faz as delícias das girls!), não gosto da professora (mude-se, talvez, a professora ou então mude-se de classe, para que a criancinha possa ir para a escola contente da vida!), não gosto… não gosto… Começam de manhã e só acabam à noite, quando dormem, com as suas exigências, porque, quando acordam, lá voltam a tocar a mesma sinfonia, dia após dia, dia após dia,… E assim, façam-se as vontades aos meninos, cumpram-se os seus desejos, respeitem-se os seus direitos (esses tão badalados Direitos das Crianças! Onde estarão os direitos dos pais?), ou teremos direito a birras mais ou menos gritadas, silenciosas, choradas, esperneadas, para todos os gostos… Estes jovens protestam a propósito de tudo, nada os satisfaz e estão sempre descontentes e chateados. Para eles tudo é uma seca. É verdade, no 2º dia de férias já nos põem a cabeça à nora com a célebre frase «não tenho nada para fazer» e não há computador, playstation, Internet, bicicleta, motoreta, piscina, livros ( quem dera!), jogos, porque estão fartos de tudo, até deles próprios. Que aborrecimento!… E eu, como todas as mães, acabo por amaldiçoar estes períodos de férias e por achar seriamente que a escola não devia parar nunca.
Basta! As crianças, os jovens sempre foram exigentes com todos menos com eles próprios e extremamente contestatários desde que o mundo é mundo.
O conflito entre gerações, o «generation gap», como dizem os ingleses e nós também já que adoramos juntar ao nosso vocabulário essas palavras que não são nossas às dúzias!, mas dizia eu, o fosso entre as gerações (à portuguesa!) sempre existiu e há-de existir. Desta forma é que o ciclo da vida se mantém inalterável e os anos rolam lentamente a sua contagem nos 365 / 366 dias da sua existência. Os que hoje protestam, os ditos oprimidos, são os opressores de amanhã. E tudo continua nos eixos…
Há que experimentar os limites. Ver até onde se pode ir… Então o que é que mudou? Porque é que os miúdos não obedecem à primeira e ainda se atrevem a ripostar como de igual para igual? Todos sabemos a resposta embora poucos se atrevam a dá-la ou a pensá-la. A culpa é NOSSA. A culpa é dos pais. A educação em família falha redondamente para não dizer que, em muitos casos, nem existe. Todos sabemos que a educação em casa peca pela abstenção, pelo cansaço, pela saturação. Porque estou cansada, até dou tudo à criança só para a não ouvir. Porque estou saturada e ouço falar vezes sem conta do SOS Criança, das agressões a que as crianças são sujeitas em casa, dou comigo a pensar se a bofetada que esteve quase a cair poderá ser considerada agressão. Então, prefiro partir para a ignorância e esquecer que um tabefe na hora H é eficaz e muito necessário. A maior parte das vezes prefiro abster-me, porque estou tão pouco com o meu filho que não sou eu que lhe vou dizer NÃO e irritar a pobre da criancinha. A escola que a eduque. Pois é, é tão mais fácil a abstenção! É tão fácil lançar a tarefa de educar para os ombros dessa classe anónima que é a docente. Mas, então, em que ficamos? Os professores são os educadores por excelência ou os grandes culpados de todos os males do mundo, como quer fazer crer a imprensa, o ministério da educação e a sociedade em geral? Vamos entregar as criancinhas a estes papões?
Depois, somos nós, os educadores- professores de todos os níveis de ensino, funcionários das escolas- que temos de lidar com as «ferazinhas indomáveis, birrentas» que estão habituadas a fazer o que lhes dá na real gana e a dizer-lhes NÃO a torto e a direito e em todos os tons e em variadíssimas ocasiões; por isso, somos as principais vítimas, as favoritas, para as suas atitudes incorrectas, desafiadoras e malcriadas. E, cuidado, que se o ralhete desagradar àqueles que não sabem nem querem ser educadores e pensam ter em casa um anjo em vez do valentíssimo estafermo que lhes saiu na rifa (é triste não se ver a realidade quando ela está à frente do nariz e escarrada em tudo quanto é informação sobre o educando!), ainda podemos ir parar ao tribunal. Qual o futuro destes jovens? Mau, pela certa. São estes os delinquentes de amanhã e não tarda muito que andem ao estalo à família toda (aos pais, aos avós,…), porque são eles que mandam lá em casa, não se duvide. Infelizmente, tudo isto é verídico.
Mas há mais. Tudo traumatiza as criancinhas hoje em dia, desde o tabefe bem merecido aos TPC’s que os professores marcam ou não marcam para casa. É que aí ainda ninguém chegou a acordo e há opiniões tão contraditórias que venha o diabo e decida.
E depois? Ah! Já me esquecia! O psicólogo. Pois é, mande-se a criancinha ao psicólogo, que lhe vai combater os traumatismos e o vai ajudar a recuperar o seu equilíbrio interior. E quem ajuda os pais, quem lhes dá a paz de que tanto necessitam?
E, neste momento apetece-me dizer… No meu tempo… No meu tempo, não havia birras, porque havia uma ordem seca que acabava com elas (e, em última instância, um estalo certeiro!); no meu tempo, ninguém dizia Eu quero que me dês… ouviste?, porque prendas só se recebiam em alturas próprias: Natal, Páscoa e aniversário; no meu tempo, ninguém se atrevia a dizer não gosto de nabos porque se arriscava a comê-los de manhã e à noite, durante quinze dias; no meu tempo, ninguém ripostava, ninguém se atrevia a ripostar, porque sabíamos que quem mandava em casa eram eles, os pais; no meu tempo, obedecia-se à primeira, porque à segunda já trazia acompanhamento de sermão e missa cantada, no mínimo; no meu tempo, as crianças liam, inventavam brincadeiras do faz-de-conta, imaginavam histórias e aventuras, brincavam uns com os outros, mas a sério…; no meu tempo, ninguém se queixava de não ter nada para fazer, que chatice,…; no meu tempo, ninguém recebia prendas por passar de ano, por tirar um satisfaz, ou seja, por fazer aquilo que tinha de fazer- estudar…
Porém, nem tudo está perdido. Felizmente, ainda há pais que sabem ser pais. No outro dia, recebi uma lição de pedagogia maternal de quem não esperava. Com o 6º ano de escolaridade, a D.Maria é mãe solteira. O filho anda no 10º ano e é bom aluno. Apesar das dificuldades, tem conseguido levar por diante a educação do filho e tem-se saído bem. Aqui há uns meses, ao chegar a casa, deu com um bilhete do filho, escrito a computador, que rezava mais ou menos assim: Contrato de Manuel Henriques para Maria Henriques: cortar a relva do jardim e aparar à volta das roseiras- 1,5€; lavar a calceta- 0,50€; lavar as escadas- 0,50€; carregar lenha para a lareira- 0,50€; lavar a loiça- 0,50€;… e o rol continuava por aí fora até dar um total de cerca de 15€, ou seja, todas as pequeninas tarefas que o Manuel fazia em casa, semanalmente. Surpresa, a Maria sentou-se na cadeira da cozinha, chocada com a atitude do filho. Depois, pegou numa esferográfica, virou a folha e escreveu: Contrato de Maria Henriques para Manuel Henriques: por mudar as fraldas enquanto foste bebé- 0€; por preparar centenas de biberões- 0€; por preparar papas e dar-te banho diariamente- 0€; por estar à cabeceira da cama sempre que estiveste doente- 0€; por pagar a escola- 0€; por ter a roupa sempre passada, lavada e arrumada estes anos todos- 0€; por ter a comida pronta sempre que chegas a casa- 0€; por te dar uma semanada- 0€;… e o rol continuava também até ao fim da folha. Quando o Manuel chegou a casa, viu o papel, leu, engoliu em seco e percebeu a mensagem de amor que transmitia. Nunca mais falou à mãe em receber dinheiro pelas suas pequenas tarefas domésticas. Uma autêntica bofetada de luva branca. Que magnífica lição de pedagogia recebi nesse dia, eu que me considero pedagoga e versada nas últimas correntes da pedagogia…
Nem tudo está perdido. Basta que os pais voltem a ser pais a tempo inteiro e retomem as rédeas do poder lá em casa. Assim seja!
Boas Férias!

Julho 2005