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Evitar o deserto
Quinta-feira, Setembro 24, 2015

Sempre vivi na cidade. Não fui quem escolheu nascer ali, mas cedo percebi as vantagens de ter tudo à distância de uma caminhada curta. Evitar ter que saber os horários dos transportes ou estar dependente da boleia paterna sempre me deram uma sensação de liberdade e de posse da cidade de que nunca quis abdicar. Perdoem-me, por isso, os dois terços de leitores que vivem nas vilas e freguesias do concelho, mas este é um texto sobre um problema do centro urbano de Guimarães.

Tendo vivido desde criança no centro, quando chegou o momento de escolher onde viver, a minha decisão não podia ter sido outra que não a de continuar a viver tão próximo quanto possível do coração da cidade. Foi há seis anos. E já nessa altura me pareceram incompreensíveis os preços que se praticavam no mercado de arrendamento do centro da cidade. Cheguei a fazer uma comparação nessa altura e percebi que os valores cobrados nessa altura se aproximavam bastante dos de uma cidade como o Porto e ficavam bem aquém de cidades da mesma dimensão. Todavia, descobri entretanto, que os preços que me pareciam altos nessa altura revelam-se hoje excelentes negócios.

Os últimos anos foram de transformação muito grande na vida do centro da cidade. O principal impacto da Capital Europeia da Cultura – parece-me neste momento indiscutível – foi o aumento da notoriedade turística da cidade, tanto junto do público internacional como dos visitantes portugueses. Fruto desse fenómeno – mas também de uma mudança legal a nível nacional que tornou muito fácil de aprovar e operar as chamadas unidades de alojamento local – têm-se multiplicado as unidades hoteleiras no centro da cidade. Hostels, hotéis de charme, apartamentos turísticos, de tudo um pouco de faz hoje a oferta vimaranense.

Porém, esse resultado, que à partida se pode considerar positivo, tem o seu reverso. Face ao interesse turístico pela cidade, os preços das casas do centro histórico subiram em flecha. Para os proprietários e investidores, parece racional preferir colocar apartamentos recentemente recuperados na bolsa de oferta para turistas, podendo, desse modo, facturar 50 a 60 euros por noite (ou seja, potencialmente, uns 1500 a 1800 euros por mês) do que arrendá-la por 300 ou 350 euros mensais a alguém que pretenda ali viver permanentemente.

Só que isto não é racional para a vida da cidade. A consequência deste fenómeno foi um aumento dos preços das rendas para as casas que (ainda) estão disponíveis no mercado de arrendamento. Hoje, não é raro encontrarmos apartamentos T1 no centro da cidade a custarem 400 ou 500 euros mensais. E há rendas que chegam perto dos 700 euros, mesmo que não passem de habitações de dimensão reduzida…

Não alinho na sarna anti-turistas que, inexplicavelmente, parece estar a atacar Lisboa, nem tenho a veleidade de comparar Guimarães com Barcelona – uma cidade a braços com um sério e real problema de gentrificação, a que a nova alcaldesa Ada Colau parece disposta a dar resposta. No entanto, creio que este seria o momento de começarmos a prestar atenção a este fenómeno, para que se possa discutir qual o tipo de papel que podem ter os poderes públicos no sentido de regular os desequilíbrios de um mercado que começam a manifestar-se. Será melhor olharmos para isto agora, para que não tenhamos de reagir tardiamente quando finalmente se tornar gritante que o centro da cidade caminha para a sua desertificação ou, pior do que isso, para se tornar um espaço reservado apenas às carteiras de uma minoria.

Jornalista do Público