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Eu não minto, não engano, não ludibrio. Eu só mando martelar!
Sexta-feira, Junho 8, 2012

Ficou registada a resposta pausada, vagarosamente silabada do ministro Gaspar ao deputado comunista Honório Novo a propósito do seu famoso lapso de memória com que tentou justificar a contradição que lhe fora apontada.

Aliás, diga-se de passagem, que do mesmo mal se queixa o todo-poderoso ministro dos assuntos parlamentares, Relvas de sua graça, que depois de ter respondido na Assembleia da República às questões levantadas pelos deputados no âmbito do processo sobre as polícias secretas, assumiu o papel de arguido a quem o defensor jurídico aconselhou manter-se calado, um caso de súbita amnésia com que deixou na sombra as contradições e os pormenores que adensam o mistério.

Assim se vê que os dois ministros mais importantes do actual governo têm lapsos, brancas, amnésias repentinas e selectivas que permitem ver com clareza certos factos e, simetricamente, deixar outros factos na penumbra, preparando com cautela o que o futuro possa reservar.

Quando os resultados de Janeiro da execução orçamental foram conhecidos, o governo, acolitado pelo coro dos escribas pagos para adocicarem o veneno da austeridade, logo se apressou a pedir calma e paciência, porque afinal as contas de Janeiro, ainda que más, não passavam de contas de um mês e daí para a frente, lá para Maio, é que em rigor estaríamos em condições de fazer uma análise mais real e mais segura.

A Direcção Geral do Orçamento publicou há alguns dias o relatório de execução do primeiro trimestre de 2012: um desastre! O défice orçamental mantém-se, as receitas fiscais não crescem, as despesas em vez de diminuir crescem. Pior do que isso, o desemprego dispara para números nunca antes vistos. Ou seja, vamos de mal a pior, como alguns avisaram.

Se este cenário já não era famoso, a ponto de obrigar governo e seus serventuários a desdobrarem-se em explicações estapafúrdias, eis que cai o Carmo e a Trindade pela boca de um organismo oficial exclusivamente dedicado a acompanhar a execução orçamental, a unidade técnica de acompanhamento do orçamento (UTAO): as contas apresentadas pela DGO, ou seja pelo Ministério das Finanças, foram favorecidas. Convenientemente favorecidas, diga-se.

O gato do deputado Honório Novo, Gaspar de seu nome, tinha razão: ele não mente, não engana, não ludibria ninguém.

As contas apenas estão erradas, mas isso foi sem intenção. E quem não tem intenção de enganar, dizem os juristas, não pode ser acusado de mentiroso.