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Este ano e o outro
Quinta-feira, Dezembro 17, 2015

Gosto pouco de clichés. Mas há alguns a que não consigo escapar. Esperar pelo final do ano para fazer balanços costuma ser um desses lugares-comuns que nada me entusiasmam. Mas num mês em que me falta um tema óbvio para crónica, acabo por ceder. Perdoe-se-me a veleidade. Esta aproximação dos últimos dias de Dezembro tem-me feito reforçar algum desencanto com Guimarães. Talvez o péssimo ano que, globalmente, foi 2015 possa influenciar mais negativamente esta impressão, mas termino este ano com a ideia de que o concelho perdeu o seu rumo.

Há sobretudo uma noção que 2015 cimentou: a cultura deixou de ser o eixo prioritário da governação em Guimarães. A única área que, na história contemporânea da cidade, foi capaz de lhe dar dimensão internacional e capacidade de afirmação indiscutível a nível nacional, tem sido cada vez mais votada a um papel secundário por quem tomas as principais opções políticas. Continuam a aparecer boas ideias na área (como o recentemente lançado programa Excentricidade) e novos criadores, assim como se mantém alguma da vitalidade dos seus principais actores. Não o nego. Todavia, o sector perdeu o papel fundamental em toda a vida do concelho que foi o seu nos dez anos anteriores.

Esse lugar mobilizador da cultura não tem substituto. A candidatura a Capital Verde Europeia é um desígnio interessante, mas nunca conseguirá ter o mesmo papel catalisador de mudanças e de afirmação nacional e internacional da cidade. Explico: ainda que o caminho seja importante e necessário, há cidades mais ou menos verdes por toda a Europa. Dificilmente se marcará realmente a diferença por essa via. Ao contrário da cultura onde não havia nenhuma outra cidade da dimensão de Guimarães a mostrar a sua vitalidade cultural e artística.

Tão pouco será a centralidade dada à captação de investimento a ocupar esse lugar. A dinamização económica de um concelho não é, em 2015, uma estratégia. É uma obrigação. Basta ver como, nos concelhos à volta do nosso, todas as autarquias estão a seguir o mesmo tipo de estratégias. Não estabelece diferenças, apenas impede que estejamos a perder o barco. E importará também questionar a que preço queremos fazê-lo…Mas isso pode ser tema para todo um outro debate.

Falta, pois, à actual maioria autárquica uma grande ideia mobilizadora para o concelho. A democracia permite uma mudança quando não estamos satisfeitos, poderão dizer-me. Todavia, quando olho para a oposição não encontro também essa ideia central para o futuro. Pelo contrário, apenas percepciono uma estratégia feita de casos, de navegação à vista, sem um projecto mobilizador, sustentado e estrutural para Guimarães. Desse ponto de vista, a visão da oposição (em particular do principal partido) consegue ser ainda mais paupérrima do que a do executivo.

Daqui por um ano, quando 2016 estiver a propor-me um balanço, estaremos a um ano do final do actual mandato autárquico. Talvez até lá possam aparecer estas ideias. Talvez até lá possam mostrar-me que este é um texto precipitado. Gosto pouco de clichés. Mas não me chateio nada quando me engano em coisas como esta.

Jornalista do Público