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Esperar para ver
Segunda-feira, Julho 4, 2011

Algumas pessoas perguntam-me o que penso do novo governo, dos novos ministros e secretários de estado e manifestam estranheza quando respondo que não me pronuncio sobre isso.

Então, voltam à carga e vão directas ao assunto: mas não acha que são competentes o suficiente para fazerem melhor que os outros, os que saíram?

Respondo que para mim a questão não é nem de competência, nem de maior ou menor experiência, nem de estilo, embora eu reconheça que qualquer dessas características importa.

Importa, mas não é decisiva.

O que distinguiria o actual governo do imediatamente anterior e de todos os governos constitucionais que o antecederam, do meu ponto de vista, é o programa político do governo e o modo como o põe em prática.

Ora, as traves mestras do programa do governo assentam no memorando de entendimento imposto pelo FMI, BCE e CE que contém medidas e objectivos que vão condicionar e moldar o nosso dia a dia.

Esse memorando é do conhecimento público desde Maio e, sendo do conhecimento público qualquer cidadão atento e curioso não precisa de esperar pela apresentação e debate na Assembleia da República do programa do novo governo para ficar a saber a sorte que o espera.

Devido ao memorando, este governo não pode mostrar-se surpreendido quando pessoas como eu lhe recusa o benefício da dúvida, lhe recusa o estado de graça.

Mais pormenor, menos pormenor vamos ter austeridade.

Mais cedo ou mais tarde o desemprego vai crescer, acentuando uma trajectórica que não conhece limite ou sequer abrandamento.

A economia nacional, que entrou em recessão, em recessão vai continuar, com crescimento, no máximo, ao nível dos últimos 10 anos, isto é à taxa média anual de 1%. Simultaneamente, os juros da dívida permanecerão elevados, dificultando o seu pagamento e remetendo para mais empréstimos para pagar os antigos, num garrote que nos asfixia e só a renegociação da dívida atenuará.

Para iludir eleitor, serão adoptadas medidas demagógicas devidamente amplificadas pela comunicação social amiga, que nada acrescentam nem mudam mas servem para criar a ilusão que acrescentam e mudam alguma coisa. Como o emparcelamento de ministérios, acompanhado pela proliferação de secretarias de estado. Como aquela cena ridícula da recusa em viajar de avião em 1ª classe, simulando uma poupança que de facto não acontece porque na TAP o Estado não paga, logo não poupa nada. Ou como a extinção dos governos-civis mantendo em funções a respectiva estrutura liderada pelos secretários e demais pessoal.

Eu não tenho nada, rigorosamente nada em desabono dos novos governantes. Merecem o meu respeito enquanto cidadãos, técnicos e representantes do povo a que pertenço. Porém, do governo digo o que os evangelhos dizem das árvores – conhecem-se pelos frutos e os frutos deste governo resultam de opções que já provaram não servir o povo, os trabalhadores, os reformados, os jovens e os desempregados, mas servir os especuladores financeiros, os ricos.

Logo, por diferente que seja o estilo, a essência é a mesma e dessa não gostei e não gosto.