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Espaço de ensaio de bandas de garagem inaugurado no Teatro Jordão
Quinta-feira, Junho 25, 2015

Oito estúdios para ensaio de projectos musicais de Guimarães foram inaugurado em dia de feriado municipal. O novo equipamento no Teatro Jordão espera promover “o empreendedorismo artístico”.

No dia 24 de Junho foi inaugurado um complexo de estúdios onde as chamadas “bandas de garagem” poderão ensaiar e até gravar. O complexo de Salas de Ensaio do Teatro Jordão (é assim que este espaço aparece descriminado na placa de inauguração) é a concretização de um corolário da história da música urbana em Guimarães. Seria impensável há uns anos pensar num equipamento deste género. Mas os tempos são outros.

Domingos Bragança, presidente da autarquia, no breve discurso que fez no dia da inauguração, dizia-se muito feliz por aquilo que tinha presenciado, depois de passar por todos os oito estúdios, onde estavam vários projectos musicais, de variadas origens e sonoridades. O presidente da Câmara sublinhava a importância do apoio a dar à criatividade, para que Guimarães seja uma capital da cultura, num sentido lato.

A música foi sempre um meio unificador de pessoas ou de grupos de pessoas. É um meio através do qual se expressam as artes e as ideias dos seus criadores. Dependendo do seu género, a música serviu para definir a personalidade de quem ouvia e compunha determinado género de música. O rock tem uma expressividade própria a música clássica também. É através da música que se codificam mensagens, adquirindo esta arte uma forma de comunicação como qualquer outra. Lembram-se da revolução do 25 de Abril?

Em Guimarães sempre houve movimentos muito profícuos na produção de música a que se foi dando vários nomes com o tempo. Grupos de amigos que se juntavam numa garagem para, juntos, formarem uma banda, poderia ser visto como algo fora dos cânones genericamente aceites pela sociedade. A designação “bandas de garagem” terá origem na dificuldade em encontrar locais onde os seus elementos se pudessem juntar para fazer música em conjunto. A essa música chamou-se muita coisa – música moderna, música urbana, entre outros rótulos.

A expressividade de Guimarães na produção de música rock é catalogada de forma exaustiva num livro lançado em 2014 pelo Cineclube de Guimarães, da autoria de Paulo Coimbra Martins. Em “Guimarães: 50 anos de pop-rock” estão listados, de forma quase enciclopédica os projectos musicais que tiveram existência em Guimarães, alguns de forma efémera, outros que ainda hoje se fazem ouvir. A criação musical em Guimarães é, portanto, uma arte com décadas de história.

Nas Caldas das Taipas, as garagens do Centro Comercial Passerelle foram utilizadas, na década de 1990, por várias bandas, num literal movimento underground. Ali a luz era pouca ou inexistente, o chão era em terra e a electrificação dos instrumentos era feita com extensões de cabos, que se ligavam às habitações nos pisos superiores. Por essa altura existia o Rock in Taipas, que começou por ser um concurso e passou depois a ser uma mostra de bandas locais. Muitas formavam-se propositadamente para tocar no Rock in Taipas. Há poucos dias, três projectos de músicos taipenses, da geração 00 mostraram-se nos Banhos Velhos, num evento sugestivamente chamado de Taipas 00. O Movimento Artístico das Taipas (MAT), uma associação cultural criada em 2007, surgiu no seio desse movimento de músicos, que davam os primeiros acordes.

A história é rica em pormenores e poderia dar um bom documentário, já que são imensos os protagonistas que, de uma forma ou de outra, estiveram ligados à música moderna em Guimarães. Mas passemos à frente.

Há vários espaços muito parecidos noutras cidades, com o que agora foi inaugurado em Guimarães. Foram criados pelas bandas que os foram ocupando. Por exemplo, as salas no Estádio 1.º de Maio, em Braga; ou o Centro Comercial STOP, no Porto. Todo o movimento que gravita em torno destes locais fomenta a partilha de experiências e de conhecimentos entre músicos mais experientes, com outros que dão os primeiros passos.

Os pequenos oito estúdios (o maior tem 38m2) estão totalmente insonorizados, climatizados e equipados com amplificação de som. A proposta de regulamento foi apresentada quinta-feira, 25, na reunião do executivo municipal. No documento refere-se o apoio municipal à criação artística, numa área da cidade que tem sofrido profundas alterações nos últimos dez anos. A zona de Couros passou a ser uma centralidade, onde estão instalados vários equipamentos. O processo de regeneração desta zona da cidade deverá continuar com a remodelação do Teatro Jordão e da Garagem Avenida.

O regulamento define as regras de utilização deste novo espaço, a que terão acesso “projetos musicais individuais ou coletivos, profissionais ou amadores, de qualquer expressão ou corrente musical”, com uma correspondente responsabilização pela gestão e manutenção do mesmo. As bandas poderão solicitar a reserva de um espaço através da inscrição no site da autarquia. As salas estarão disponíveis todos os dias da semana, excepto aos domingos e feriados. O custo de utilização vai até aos seis euros por hora.

O vereador responsável pela Cultura em Guimarães sustentou que este espaço é “uma resposta às necessidades das bandas do concelho” e que deverá induzir o aparecimento de novos projectos. Torcato Ribeiro disse conhecer bem o “ambiente das bandas de garagem e a suas dinâmicas”. O vereador da CDU entende que as bandas necessitam de espaços que possam ocupar de forma permanente. Em resposta, José Bastos adiantou que o regulamento poderá ser discutido: “não temos qualquer reserva mental sobre este assunto e poderemos voltar a discutir daqui a dois ou três meses e se a realidade nos demonstrar que é preciso alterar alguma coisa” – referiu o vereador.

O tempo dirá muitas coisas. Em primeiro lugar, se há realmente procura por este tipo de espaços por parte das bandas. Muitos dos jovens que formam uma banda, estão em idade escolar, não trabalham, não têm forma de se deslocar. Por outro lado, os desenvolvimentos ao nível tecnológico permitem hoje criar um espaço personalizado, onde as bandas se podem instalar e ensaiar sem determinações de horário. Por outro lado, muitas bandas, principalmente as mais maduras, procuram espaços como este, que aliam as melhores condições com um ambiente informal onde possam estar em contacto com outros músicos. Uma coisa é certa e a questão impõem-se: irão as bandas de garagem desaparecer? Provavelmente, o que desaparecerá será a designação, associada aos movimentos do it yourself que vem desde os anos 1960.