Entre métodos naturais e meios anticoncepcionais
Domingo, Junho 2, 2002

1. Para além do egoísmo (que é sempre culpado), há diferença entre uso dos métodos naturais e uso dos meios anticoncepcionais?
Há muitas diferenças. Repetindo, em parte, o que já dissemos anteriormente, respondemos assim:
– os métodos naturais passam pela via do conhecimento da fertilidade; os meios anticoncepcionais não;
– os métodos naturais passam pela via da tranquilidade, devida ao conhecimento exacto do estado de fertilidade; os meios anti-concepcionais não;
– os métodos naturais passam pela via da decisão consciente e responsável, que leva os esposos a interrogarem-se sobre os verdadeiros motivos da decisão; os meios anticoncepcionais não;
– os métodos naturais educam para a aceitação e para o acolhimento do cônjuge, tal como é; os meios anticoncepcionais não.

2. E quantos filhos deveria ter o casal?
Cada casal deve avaliar a sua situação concreta, sem que na avaliação entrem factores egoísticos.
Se o casal for crente (tenha-se presente que a grande maioria dos portugueses declara-se crente), deve fazer o discernimento da vontade de Deus em relação à própria família. Por outras palavras, deve questionar-se: “Senhor, tendo em conta a nossa idade, a nossa saúde física, a nossa saúde psíquica, as nossas possibilidades económicas…, quantos filhos queres que nós tenhamos?”.
Se o cristão deve fazer o discernimento da vontade de Deus até nas pequenas decisões do dia-a-dia, tanto mais deverá fazê-lo quando se trata de dar a vida a uma nova pessoa humana. Naturalmente, não é preciso fazer dizer a Deus o que nos agrada a nós.

3. Os métodos naturais obrigam a ter relações sexuais segundo o calendário. A programação das relações sexuais não incide negativamente sobre um sereno e relaxado exercício da sexualidade?
Damos algumas respostas.
– Certamente que o uso físico da sexualidade é fonte de prazer, de alegria, de relaxamento. Mas, como dizíamos ao falar da sexualidade, o prazer, a alegria, o relaxamento não são o fim da sexualidade. Os fins da sexualidade são a comunhão interior dos esposos (para exprimir e aprofundar) e a procriação.
– Infelizmente, para muitas pessoas a sexualidade serve somente para descarregar as próprias tensões, para experimentar prazer, para relaxar-se. É fácil compreender que, nestes casos, os dois cônjuges usam-se mutuamente, quando se tem vontade (quando apetece) e não por amor do outro. É preciso ter a coragem de dizer que este modo de viver a sexualidade conserva a atitude interior da masturbação: quando se tem vontade, quando apetece, procura-se e encontra-se a satisfação do desejo.
– É preciso, ao contrário, ter esta convicção: a sexualidade é uma linguagem de amor.
Antes de decidir pelo acto sexual, não é preciso interrogar-se: “Tenho vontade?Apetece-me?”, mas principalmente: “Este é o momento apropriado (ajustado) para dar-me ao meu tu, também fisicamente? O meu tu está em condições físicas, psico-lógicas, espirituais adaptadas para receber o meu dom?”.
Esta é a convicção fundamental que deve ser compreendida e posta em prática: que a relação conjugal é um gesto que deve exprimir e aprofundar o amor e não um gesto em que nos instrumentalizamos para tomarmos posse daquilo que nos apetece.
– Pode o verdadeiro amor exigir que o próprio cônjuge manipule a sua fertilidade com instrumentos mecânicos ou com fármacos, que, para mais, podem constituir um risco para a sua saúde?
– Pode o verdadeiro amor exigir que o gesto sexual seja manipulado, perdendo o seu significado de união íntima e profunda e reduzindo-se a um contacto físico, para concretizar só porque apetece, só porque se tem vontade?
O verdadeiro amor conduz mais a pensar assim: “Acolho-te como és. Por isso, quando não estamos em condições de nos abrir para uma nova vida,
– exprimo-te o meu amor com o gesto sexual se não estivermos férteis;
– renuncio a exprimir-te o meu amor – que continua a ser grande -, se estivermos férteis”.
Ora, isto é programa ou calendário? Não. É, acima de tudo, respeito e amor autêntico. Todos somos muito hábeis em encontrar desculpas para justificar as nossas decisões. Cada um deve, ao contrário, dizer com clareza a si próprio: “Se ao menos não for capaz de respeitar, ando iludido de amar, ainda que use constantemente a palavra amor”.
(Continua…)