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Elos familiares…tradições que se perdem!
Sexta-feira, Fevereiro 6, 2009

Com a libertação da mulher nos anos 50 e 60, a sociedade mudou e só agora começam a sentir-se os efeitos dessa primeira grande conquista. Não foi só a liberdade sexual com a utilização de métodos contraceptivos e a prática de relações sexuais sem culpabilização que deram uma valente machadada na sociedade machista em que a mulher ia (devia ir!) virgem para o casamento mas o homem podia fazer o que bem lhe apetecesse e com quem lhe apetecesse, que só lhe ficava bem (era macho!). A mulher adquiria finalmente o poder sobre o seu corpo. Ainda por cima, ao sair para o mercado de trabalho, onde começou a competir fortemente pelas mesmas oportunidades dadas ao homem, deixou de ser apenas a dona de casa, escrava e cumpridora do seu papel de esposa, de empregada doméstica e de mãe. Ou seja, na primeira metade do século XX, a mulher adquiriu um novo papel, o de profissional, o que a forçou a abandonar parte das tarefas a que se dedicava a tempo inteiro (ser mãe, ser esposa, ser dona de casa) para poder ter igualdade de oportunidades para competir com o homem. E a sociedade não deu resposta a esta saída da mulher do lar, nem encontrou substituto à altura, na sociedade de então. Se pertencentes a uma classe média, as crianças ficavam entregues às empregadas domésticas que proliferavam; se pertencentes a uma classe mais desfavorecida, a rua substituía a empregada. As crianças não corriam o risco de ser atropeladas e muito menos de serem raptadas e os pedófilos ainda não estavam na moda.

Mas a mulher não deixou de ser discriminada. Penso que a actual legislação, ao obrigar a colocar um elemento do sexo oposto por cada dois do mesmo sexo nas listas às candidaturas para o poder local, regional ou nacional, veio procurar igualizar o que estava errado e também veio dar uma grande dor de cabeça a todos quantos andam nessas coisas das politiquices. Enquanto mulher, não posso deixar de bater palmas a uma tal medida; em simultâneo, acho ridículo que essas pseudo regalias tenham de ficar escritas no papel. Não são normas como essa que podem dar maior liberdade às mulheres. Esse sentimento tem de ser intrínseco: ou nasce com cada uma de nós ou se aceita que, realmente, a nossa missão no mundo é servir o homem. E confesso que sinto uma certa curiosidade em analisar as listas já das próximas eleições autárquicas, … Será que vai ser fácil arranjar elementos femininos? É que… a lei pode dar estas «oportunidades» às mulheres, fora de casa, mas a lei do lar continua a atribuir a maior parte das tarefas domésticas à mulher. Como se diz «fomos buscar lenha para nos queimarmos», porque temos cada vez mais tarefas para realizar, dentro e fora de casa. Não creio estar a exagerar, embora aceite que há alguns homens a fazerem algum trabalho em casa, principalmente se forem casados/ companheiros de uma destas revolucionárias e crentes na igualdade dos sexos. Sinceramente, quantas vezes ouço uma mulher, profissional como eu, (e não me refiro apenas à carreira docente, refiro-me a ter uma profissão/ um trabalho fora de casa!) em tom de desabafo, confidenciar: «Não sei o que vou fazer para o jantar!». Já alguém ouviu algum homem? Poderá haver muitas explicações para tal facto e uma delas poderá ser a de que os homens não ligam o complicómetro e nós, mulheres, temos a mania de complicar o que é simples; outra poderá ser a de que eles até podem cozinhar mas são elas que escolhem a ementa e compram os ingredientes. Já alguma vez se pôs a observar quem anda às compras num hipermercado? Se for para as prateleiras com produtos para automóveis, para a secção dos vinhos e do bricolage praticamente só lá vê homens. É que eles andam a «gastar tempo», enquanto elas efectuam as verdadeiras compras e andam a passear os filhos pequenos no carrinho das compras. E… fiquemos por aqui. Se nunca reparou nestes pormenores, vá a um grande supermercado e faça a sua contagem pessoal. Verifique se estou certa ou errada.

Nos dias de hoje, sem empregadas domésticas, proliferam os jardins de infância que são uma fraca imitação dos pais e dos avós. Não estou a criticar o trabalho que lá é feito, que nalguns casos até tem muita qualidade Mas nada substitui a família. Quem está a sofrer mais é a terceira geração, os netos, porque as avós, muitas delas ainda no activo, não podem desempenhar o papel de contadoras de histórias que lhes cabia, nomeadamente das histórias e episódios da família, que funcionavam como elo de ligação ao passado e davam à criança a sensação de pertença – elas pertenciam a uma família, a uma determinada comunidade, a um determinado concelho, a um determinado país. Os bairrismos eram favorecidos por esse sentimento de pertença que hoje os nossos jovens desconhecem, exactamente porque os seus referenciais deixaram de ser familiares, locais, nacionais e passaram a ser os mesmos da juventude mundial. Com a globalização, com a proliferação das tecnologias cada vez mais avançadas e que nos retiram a nossa privacidade, estamos a ser engolidos por uma sociedade que não sabe por que valores se rege, porque não conhece as suas raízes. E novamente e sempre a tão badalada «crise de valores». A família, base nuclear da sociedade, perdeu esse estatuto. Em primeiro lugar, porque o núcleo passou a restringir-se aos pais e filhos e, quantas vezes, a uma família monoparental, isto para já não falar nos casos em que há uma tal misturada de pais e de filhos que ninguém se entende. As tradições familiares, o fio unificador da família é actualmente muito ténue ou já se quebrou mesmo. É que a sociedade actual não se compadece com as relações a longo prazo, nem com os empregos para a vida, nem com a mesma morada para longos períodos de tempo, nem com as relações avós-netos…

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