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Eles Comem Tudo E Não Deixam Nada
Terça-feira, Novembro 9, 2010

Neste período de crise, que já dura há mais de 10 anos, Portugal é 3.º pior do mundo em crescimento económico na última década – as notícias sobre os escandalosos salários dos administradores das empresas, institutos, fundações públicas, vêm a calhar. É o momento, muito atrasado, de os Portugueses tomaram consciência da roubalheira que grassa por esse país fora. Guimarães não é excepção.

A Fundação Cidade de Guimarães é mais uma “empresa” – de empresa não tem nada – pública: isto é, criada e sustentada com os impostos, taxas, coimas, multas, acrescidos, devidos e não devidos, de todos nós. Meninos! Cuidado com o leite chocolatado; ele vai engordar outros.

Ora, nos últimos dias, mais do que um jornal diário publicitou os salários dos administradores da FCG. Assim, e de acordo com as citadas fontes, a Presidente aufere €14.300,00/mês e os Vogais €12.500,00/ mês. Presumo que aqueles “lucros” – não me atrevo a chamar-lhes salários – sejam acrescentados um 13.º mês e um 14.º de subsídio de férias. Isto passar-se no concelho de Guimarães, com mais de 15% de desempregados, e com uma câmara socialista, significa pouca vergonha – não é o socialismo que apregoa a igualdade a qualquer custo? Ora, ela aí está.

Claro que há justificações para tudo; pode-se até fundamentar muito bem a decisão. Isso não está em causa. Estamos em Portugal. Ainda pior, estamos em Guimarães; com um poder de compra de 77% média nacional; muito abaixo do concelho de Braga. Agora, aquelas remunerações, sem que os visados realizassem qualquer investimento, corram qualquer risco de perder – como acontece nos negócios e nas empresas – e mais, digo eu, um sem número de mordomias que fazem ainda mais engordar aquelas fatias, chegámos a um ponto em que os Portugueses deverão dizer basta.

A remuneração anual da Presidente da Fundação Cidade de Guimarães corresponde a 30 anos de salário dos trabalhadores do têxtil e do calçado. Chamem-lhe o que quiserem; mas que há falta senso, respeito, equilíbrio, princípios, ninguém, de boa fé, o pode contestar.

Há uns anos atrás, nas negociações das diversas carreiras, juízes, procuradores, notários, conservadores, achou-se por bem ter como referente obrigatório a remuneração auferida pelo Presidente da Republica que, na data actual, é de à volta de € 7.500,00. Este referente não poderia ser usado como critério para a fixação da remuneração dos administradores da FCG? O escândalo seria bem menor. Esta realidade tem que ser dita e redita. O salário daqueles “excepcionais administradores” sai das taxas e dos impostos dos munícipes; vai ser pago com verbas do município.

Um Presidente da Junta de uma freguesia com mais de 5.000,00 eleitores – corresponde a uma freguesia com 8.000 habitantes – que é confrontado diariamente com problemas de águas, luz, abastecimento de águas, saneamento, águas pluviais, estabelecimentos comerciais, problemas de vizinhos, condomínios, árvores e um sem número de queixas e problemas que tem de suportar, responder, encaminhar, protestar, reclamar, apelar, as mais das vezes até não são da sua competência legal, que exigem uma presença constante, uma dedicação a tempo inteiro, inclusivé fins-de-semana, que tem de organizar as festas, as feiras, o artesanato, os concertos, os colóquios, aufere 305,00 por mês; não tem direito a subsídio de férias nem a subsídio de natal nem a quaisquer outras mordomias que se tornaram próprias de um “estado social”.

Continua a criar-se uma classe de ungidos que, agora, se estendeu ao poder local. O dia continua a ter 24 horas para toda a gente, incluindo para os administradores da FCG. Perante estes factos que revelam uma desigualdade indigna, apetece citar a canção de uma pessoa para quem o outro era mais importante do que ele – Zeca Afonso: “Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada”.