Eleições presidenciais francesas
Terça-feira, Abril 2, 2002

Num mundo cada vez mais globalizado – se bem que cada vez mais com grandes franjas de excluídos – e numa Europa que pretende caminhar para uma verdadeira união, a situação política dos outros países deve interessar a todos os membros da União. Deixo ao leitor o prazer do juízo, nomeadamente o de avaliar as diferenças e semelhanças entre os dois países.
A recente campanha eleitoral em Portugal, mostrou-nos que nem sempre o essencial da questão, a discussão das políticas e das propostas para o país, é o tema central da campanha. Dificilmente os franceses se deixarão enredar, como nós, pelos problemas do futebol. No entanto, isso também não significa que se interessem mais pela política. O exemplo mais flagrante é a meteórica ascensão de partidos como o Partido de Caça, Pesca, Natureza e Tradições (CPNT) que, nas últimas eleições europeias, obteve cerca de um milhão de votos e elegeu seis deputados. O seu candidato às presidenciais, Jean Saint-Josse, arrisca-se agora a receber o mesmo número de sufrágios, ainda que quase se recuse a fazer campanha e apenas apareça em manifestações tão inofensivas como passar uma tarde de domingo num torneio de pesca ou sentar-se serenamente numa estação de comboios da província, para mostrar que os TGV’s (comboios de Alta Velocidade) apenas páram nas grandes cidades e esquecem o país rural.
Para além disso, esta pré-campanha é marcada por duas outras questões: as afirmações privadas dos candidatos, transformadas em primeiras páginas de jornais, e a dificuldade de alguns (pré)-candidatos em encontrar os apoios necessários para serem candidatos reais.
Com efeito, o sistema de eleição presidencial francês exige que os candidatos obtenham pelo menos 500 assinaturas de apoio de maires (que equivale aos nossos presidentes de câmara e de junta, e há cerca de 37000 em França). Ora isso parece ser uma dificuldade maior para homens como Jean-Marie Le Pen, o candidato do Front National (FN), um partido da extrema direita, que já ameaçou o presidente e candidato Jacques Chirac e o RPR, partido que o apoia, de provocar um apocalipse, se não conseguir reunir as assinaturas, até ao dia 2 de Abril, data limite para as entregar no Conselho Constitucional. Também o seu antigo braço direito, Bruno Megret, fundador de um novo partido após a implusão do FN, se debate com o mesmo problema das assinaturas. O seu site na internet — www.bruno-megret.com — diz que são apenas algumas dezenas, mas ninguém acredita que venha a conseguir tal desi-detaro. Quem não se debate com esse problema é a eterna candidata comunista do Lutte Ouvrière (LO), Arlette Laguiller, que pela quinta vez se apresenta às eleições. Robert Hue, o candidato do Partido Comunista Francês, arrisca-se a ficar atrás da candidata de LO, o que seria no mínino uma pequena humilhação para o seu partido que integra a coligação governamental. Outro candidato que tem dado que falar é Jean-Pierre Chevènement, ex-ministro do Interior do executivo de Jospin, que abandonou o governo por discordar das negociações com os independentistas da Córsega. As sondagens apontam-no como o «terceiro homem», um lugar que ele recusa afirmando que será ele a passar à segunda volta (que se disputará entre dois candidatos). Esta posição, no final da primeira volta, é de grande importância para o Pólo Republicano, que o apoia e que é um novo movimento surgido em França. Os número de votos poderá determinar a constituição ou não de um novo partido político.
Após alguns meses de suspense, antes da apresentação oficial das suas candidaturas, os dois candidatos melhor posicionados, Chirac e Jospin, debatem-se agora com o problema de mostrar ao eleitorado as diferenças entre ambos. Ou seja, entre uma direita e uma esquerda que têm cada vez mais dificuldades em sustentar um ideário próprio, que se diferencie do outro, mas que não colida com os interesses do eleitorado acomodado à caça e pesca ou preocupado com outras questões que ninguém quer abordar ou para as quais ninguém tem resposta. Neste pantanal ideológico, onde se tende para a amálgama, tudo serve para afirmar a dissemelhança. Numa conversa de corredor com alguns jornalistas, Jospin afirmou que Chirac estava velho e sem forças. Ora aqui está um argumento para os apoiantes deste último acusarem o adversário de falta de sentido de Estado, pois «tais coisas não se dizem nem a brincar». Numa entrevista a uma estação de televisão, o mesmo candidato do PS, disse que era melhor fumar um charro em casa do que beber e depois conduzir. Apesar dos seus esclarecimentos posteriores, em que afirmou não ser contra a despenalização das drogas leves, isso deu mais um argumento aos opositores para falarem do assunto e para o acusarem de ser incoerente ou mesmo irresponsável.
Pelo andar da carruagem teremos assim uma campanha mais baseada no não-dito, nos desmentidos e nas acusações, do que na apresentação de ideias diferentes para a eleição do chefe de Estado de uma dos maiores países da União Europeia, onde o seu poder não é apenas de garante da Constituição e Chefe das Forças Armadas, mas de governação, uma vez que preside também ao Conselho de Ministros.

Nice, 26 de Março de 2002