Educação para a cidadania: quando, como, para quê?
Sexta-feira, Abril 5, 2013

Aproxima-se mais um aniversário da Revolução dos Cravos e debater a cidadania impõe-se numa sociedade que parece não saber o que isso é.

A educação para a cidadania foi entregue à escola como se de mais um conteúdo se tratasse, sem honras de disciplina e sem tempos para ser lecionada. Acabadas as áreas curriculares não disciplinares (Formação Cívica, Área de Projeto, Estudo Acompanhado)sem justificação que não a economicista, da mesma forma que haviam sido criadas, sem os professores serem tidos nem achados, inventou-se agora uma OC (45 minutos de Oferta Complementar), que bem podia ser a sigla para Outras Coisas, que açambarca todas aquelas áreas transversais que à escola foram sendo entregues: Educação para a Cidadania, Educação Ambiental, Educação para a Saúde, Educação Sexual, Educação para a Segurança e Bem-Estar,… e outras educações quejandas que vão sendo abordadas à laia de castigo.

Vê-se bem que a cidadania (e não só!) foi relegada para o lugar das ”coisas” que, de repente, passaram a não ter importância. A aquisição de conhecimentos passou para a luz da ribalta como se fosse, nesta época do conhecimento efémero e mutável, o que de mais importante se faz na escola. A aquisição de competências e de ferramentas, que moldariam o aluno para essa aquisição ao longo da vida, para uma reformulação e adaptação constante à evolução e revolução dos tais conhecimentos, parece ter sido lançada para canto. Ainda hoje me interrogo sobre o motivo por que tive de aprender todas as linhas férreas do país com todos os seus apeadeiros. Qual o contributo dessa “saber” para a minha felicidade ou para a minha cultura? Um ótimo exercício de memorização, sem dúvida, se foi esse o objetivo. Ou seria isso uma forma de educar para a cidadania? Conhecer o meu país nos mapas, porque, nessa altura, não havia dinheiro para esbanjar nem na dita classe média? Os tostões eram contados, mas, por uns tempos, os cêntimos (1 Cêntimo= 2$= 200 tostões) não o foram e, agora, já há muitos que estão a aprender a fazê-lo da forma mais difícil por terem a necessidade a bater-lhes à porta.

A indecisão, a incerteza, a angústia de não saber o dia de amanhã começaram a ser os nossos companheiros de todos os dias. Ontem, os dias eram angustiosamente iguais porque ditatorialmente decididos. Para lá caminhamos com as notícias que nos acordam quotidianamente: mais cortes, mais cortes… na educação, em nome da economia de parcos tostões que conseguiram transformar um sistema educativo periclitante num sistema caótico.

Presume-se que educar para a cidadania passe pela interiorização de conceitos e valores que contribuam para um aperfeiçoamento de comportamentos e atitudes na sociedade.

O Bem Comum, indubitavelmente, seria um dos primeiros. Que vamos ensinar? “Jovens, olhem para o que vos dizem e não para o que fazem. Façam sacrifícios, pois eles estão bem calçados para vos pisarem e vão continuar bem, graças a Deus e aos paraísos fiscais? Trabalhem por uma côdea , porque o vosso ordenado pode sofrer cortes mas um de 165 mil euros mensais não pode? Justiça!

Justiça? Não é outro dos tais valores da cidadania? Para onde foi a igualdade de direitos, a defesa dos interesses do país e de cada um?

Os impostos! Em democracia, todos temos a obrigação de pagar os impostos … mas há quem tenha mais obrigação do que outros que até se esquecem de declarar “oito milhões”. Uma ridicularia!

O voto! Como convencer os jovens com mais de dezoito anos, a quem a escola supostamente deveria ter educado no cumprimento do seu dever cívico, de que deve votar? Para quê? Dizem. São todos iguais. Infelizmente, sou obrigada a dar a mão à palmatória. São mesmo…

A educação para todos! Uma escola que deveria ser para todos, inclusiva, em nome da igualdade de direitos exarados na constituição, aparece cada vez mais estratificada, com a escola pública a levar “pancada” a torto e a direito. O que se pretende? A privatização do ensino? A escola só para os ricos? Anda o país, reformulo, andamos nós todos a investir milhões na educação dos jovens para que estes o abandonem (ao país que lhes vira acintosamente as costas e os manda emigrar!), não com uma malinha de cartão mas de canudo na mão. E assim, mão de obra qualificada emigra e vai produzir serviço de qualidade, riqueza para onde os acolhem de braços abertos. É esta a chico esperteza dos nossos governantes e culpa de todos nós que, ao fim e ao cabo, os pusemos no poleiro.

E outros conceitos e valores poderiam ser focados: qualidade de vida (O que é isso?? Quem a tem?? Quem nos governa e os grandes empresários, que disputam o mundo!), nação/ nacionalidade (Que aconteceu ao Portugal do século XVI? Onde estão as gentes valorosas e empreendedoras que deram novos mundos ao mundo?), meio ambiente ( As escolas tratam o tema. Até somos bandeira verde há seis anos consecutivos, mas que decisões tomam os países?), a União Europeia (Um bem? Um mal? Prefiro não me pronunciar!), humanidade (Nome coletivo ou conceito abstrato ausente das tomadas de decisão?), paz (Só para alguns, que os outros não têm direito!), xenofilia (Amor pelos estrangeiros? Isso só se for no papel!), liberdade… e fico por aqui.

Foi com a Revolução dos Cravos que comecei e que há quase quarenta anos nos terá dado essa pedra basilar da democracia e da cidadania.

O que fizemos com ela? Em que se transformou? … ??????