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“Duas caras”
Sexta-feira, Novembro 18, 2016

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Embora o título deste texto possa sugerir uma nova abordagem à velha questão do “Guimarães duas caras”, pretendemos apenas chamar aqui a atenção para duas excecionais peças arqueológicas do Concelho de Guimarães, que são precisamente duas caras. Mais corretamente, são dois fragmentos de cerâmica que têm agregados o que chamamos de “mascarões”.

São dois fragmentos de pote que se integram numa tipologia de cerâmica romana conhecida como “cerâmica Bracarense”, produzida entre os meados do século I e os inícios do século II da nossa Era. Diversos investigadores definiram, a partir da década de 1960, as características principais desta produção cerâmica, que se caracteriza sobretudo por um engobe exterior acastanhado, e que procura imitar formas e motivos da conhecida cerâmica sigillata, importada de outras regiões.

Num estudo mais recente, e mais exaustivo, o investigador Rui Morais acredita ter nascido esta produção de louças finas a partir de oleiros provenientes da Bética (como se designava na Antiguidade a extremidade Sul da Península Ibérica) que se terão estabelecido na cidade romana de Bracara Augusta.

Ironia do destino, entre muitos milhares de peças classificadas como “cerâmica Bracarense”, os dois únicos exemplares de mascarões deste tipo de produção foram recolhidos no Concelho de Guimarães. O primeiro, à esquerda na imagem, parece representar uma figura mitológica, assemelhando-se às máscaras usadas no teatro clássico. Foi recolhido algures na freguesia de São Torcato, em circunstâncias pouco conhecidas, e oferecido à Sociedade Martins Sarmento, por Joaquim José de Meira, em 1921. O segundo, à direita na imagem, foi recolhido na Citânia de Briteiros, na campanha de escavações coordenada por Mário Cardozo, no ano de 1943.

O “arqueólogo coronel”, no seu habitual relatório publicado na Revista de Guimarães, descreve desta forma a figura do fragmento recolhido na Citânia: “O modelado desta pequena escultura artística é perfeitíssimo! Nenhum dos actuais obreiros da nossa indústria popular de olaria era capaz de esculpir uma máscara semelhante. Apesar das suas diminutas proporções, o rôsto, trabalhado sem mesquinhez no detalhe, revela uma expressão de vida surpreendente!”. Acrescenta ainda Mário Cardozo que “…o íncola rude e primitivo dos nossos castros era incapaz de realizar obras de arte de um sentido realista tão perfeito e, ao mesmo tempo, de uma concepção espiritual tão elevada!” (Cardozo, 1943, Revista de Guimarães, vol. 53, pp. 251-252), concluindo serem estas cerâmicas importadas.

Sabemos hoje que, produzidas ou não pela mão de oleiros do Sul, estas louças são de fabrico local, embora não se trate, de facto, de cerâmicas da época castreja. Estes dois raros fragmentos podem ser observados no Museu do Solar da Ponte, em Briteiros.

Arqueólogo da Sociedade Martins Sarmento