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Depois do dia 5
Sábado, Junho 4, 2011

Duas em cada 5 crianças do meu país vivem em situação de pobreza.

Quem o diz é um estudo do ministério da solidariedade e do trabalho, recentemente publicado e que mais não faz que dar outra expressão a um relatório anterior da Unicef onde Portugal é apontado como tendo a sexta maior taxa de pobreza infantil entre os países que compõem a OCDE. Estes são dados objectivos que evidenciam as consequências de anos e anos de promoção das desigualdades sociais.

Desigualdades sociais que são fruto de medidas políticas erradas e injustas desenvolvidas por sucessivos governos, como as estatísticas provam. No livro “Desigualdades Sociais 2010 – Estudos e Indicadores”, da responsabilidade do Observatório das Desigualdades, na década de 2001/2010, o rendimento dos 20% mais ricos é 6 vezes maior do que o rendimento dos 20% mais pobres. Dizendo de outra maneira, enquanto os 20% mais ricos ficam com 45% de toda a riqueza produzida em Portugal, os 20% mais pobres ficam apenas com 7% desse total.

Este é o resultado de políticas que desvalorizam o trabalho e os trabalhadores e hipervalorizam o capital na sua versão mais moderna e mais perversa de capital financeiro. Mas é também o resultado de congelamentos salariais e de malfeitorias contra a contratação colectiva, sustentadas por campanhas sistemáticas e organizadas a pretexto de teses como a perda de competitividade, de produtividade, muitas vezes confundindo os conceitos, em que embarcam homens sérios, intelectuais honrados e até sindicalistas e trabalhadores.

È ainda o efeito dos cortes nas pensões de reforma, das reduções nas prestações sociais, porque em todos esses casos, por trás de medidas alegadamente justiceiras e moralizadoras, mais não se faz do que reduzir o poder de compra das classes economicamente mais vulneráveis. O que ambos os estudos demonstram é que são as crianças, são os idosos, são os trabalhadores quem fica a perder e são os mais poderosos, os mais ricos quem delas tira proveito.

É por isso que as lágrimas de alguns políticos, as manifestações de solidariedade deste ou daquele que no governo e na assembleia da república faz e aprova as leis que causam as injustiças soam à hipocrisia do crocodilo. Também ele chora antes de devorar a vítima.

Infelizmente, muitas das vítimas ainda não se aperceberam do que as espera depois das eleições: mais, para pior, do mesmo. Quando se aperceberem é tarde. E será trágico.

Resta a convicção de que muitos outros já se foram apercebendo e muitos outros se vão aperceber que estas eleições são um logro montado por quem quer perpetuar as injustiças sociais, porque ganha com elas, como os relatórios citados provam, por mais que os partidos que se revezam no poder – CDS, PSD e PS – o queiram esconder. E sendo assim, não custa perceber que no dia 5 as coisas não vão melhorar para os pobres, os trabalhadores, os reformados mas vão melhorar para os belmiros azevedos, os américos amorins, os ricardos espíritos santos, e mais alguns. Os tais 20% mais ricos.