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Deixem de culpabilizar os professores!
Segunda-feira, Abril 5, 2004

Entrada no 3º Milénio e no século XXI! Datas que não se repetirão para nenhum de nós… a não ser que a esperança de vida ultrapasse repentinamente o século! Que dizer numa ocasião como esta? Talvez… parabéns a você pelo novo ano ora entrado e que esta data se repita por mui-tos e longos anos!! E… acres-cente-se, com muita saúde e na companhia dos entes queridos.
Falar em Educação, logo no início do ano, não é um tópico dos mais agradáveis, porque o caos parece ter-se instalado no Mundo, no nosso País, e, como não podia deixar de ser, na Educação, o mesmo significando que se instalou na Escola que congrega no seu seio uma pequena- grande comunidade constituída pelos vários actores intervenientes no acto educativo: alunos, pais, funcionários, autarquia, interesses sócio-económico-culturais da região e… professores.
É que, actualmente, enfrentamos uma «crise de autoridade», embora ninguém o queira admitir:
-os pais não «querem» mandar- é mais fácil a abstenção «descansando» na escola a tarefa ingrata de educar, entrando, aliás, na onda nacional onde a abstenção, a passividade e a indiferença parecem estar na moda. Veja-se o que se passou nas últimas eleições presidenciais, onde a grande vencedora foi a abstenção!;
-noutros casos, os pais «não podem» mandar- começa a ser bastante elevado o número de garotos que fazem o que querem sem que os pais «tenham coragem» para se opor!;
-os professores «mandam até onde podem»- veja-se a publicidade negativa que canais televisivos dão a um simples «tabe-fe» pedagógico!;
…e, assim, entra-se no jogo que está na moda «culpabilizar a escola», esta enorme comunidade que, pelos vistos e contra-riando toda a legislação, se resume ao binómio alunos-professores.
Então, onde estão os pais? Onde está a comunidade se afinal a escola se resume ao conjunto dos professores e dos alunos? Então, para que existe o órgão administrativo chamado Assembleia de Escola, onde toda a comunidade está representada: professores, pais, funcionários, autarquia, elementos das associações e um representante dos alunos, para já não falar dos professores? Para quê tanta burocracia se só contam os alunos e os professores? Para quê?
A que propósito tanta resmunguice? É que sou professora e estou cansada de ser bolinha de pingue-pongue e joguete de to-dos… da administração, dos pais, dos alunos,… Era tão mais fácil se todos se sentassem à mesma mesa e houvesse diálogo!
A propósito das paragens lectivas, nomeadamente a que aconteceu em finais de Outubro, que tanta celeuma levantou. Já alguém se lembrou de perguntar aos docentes se concordam com uma pausa nessa altura, pouco mais de um mês após o começo das aulas, em que jovens e adultos ainda estão frescos e o ritmo ainda mal se instalou nas actividades lectivas? Porque é que essa interrupção foi decidida pelo Ministério da Educação há uma meia dúzia de anos? Porque é que, nós, professores, não fomos nem somos consultados, se afinal somos os «culpados»? Não somos nós que não que-remos fazer nada? Não somos nós que temos mais Férias do que toda a gente e passamos o ano a brincar? Não somos nós que ganhamos ordenados fabulosos? Não somos nós… e o «rosário» podia continuar a ser desfiado, sem nunca se chegar ao fim. É tão fácil culpabilizar quem não se pode defender, porque acusado por todos os lados! Só uma pequena questão- é a este bando de inúteis que nós entregamos a educação dos nossos filhos, de onde sairão os futuros quadros e operários do amanhã? Não acham que isso significa «dar uma no cravo e outra na ferradura»?
Porém, vamos mais longe. Se pensarmos bem, talvez a res-posta à primeira das questões anteriores (a da interrupção) se encontre na nossa integração na União Europeia. Se vamos ter a moeda comum, então há que ter a mesma escolarização obri-gatória (os 12 anos estão aí a chegar!) e a mesma calendarização escolar. Será, pois a altura de pegarmos nos esquis e, à boa maneira europeia, par-tirmos para umas mini-férias na neve! O melhor será, pois, pressionarmos o ME no sentido de proporcionar às escolas também as mesmas condições da U.E. para que alunos e professores possam partir para actividades não-lectivas, de animação cultural: na neve, de preferência numa estância alpina, para aper-feiçoarem a Língua Francesa que anda tão maltratada pelas nossas crianças ou no «smog» londrino, para visitarem o Big Ben e verem o render da guarda no Buckin-gham Palace. Melhor ainda seria fretar um avião e partirmos todos para os E.U., para Nova Iorque e aí nos podermos deliciar com o verdadeiro Hallowe’en e participarmos nas brincadeiras do Trick or Treat, e observarmos a natu-reza no Central Park, e vermos os enfeites natalícios e a célebre árvore gigantesca e visitarmos a estátua da Liberdade,…
Há que descer das nuvens. Pois bem, então limitemo-nos a umas visitas de estudo a Conímbriga, ao Porto, a Lisboa, ao Algarve, a Vila Real,… conhecer o Portugal desconhecido e mostrar aos alunos o seu próprio país. Não é isto também Educar para a Cidadania? Pois é, a aterrissagem não é muito agradável, já que não nos podemos equiparar aos países da U.E. no âmbito financeiro!
Mas… então… onde estão as instalações, os animadores cultu-rais, o material de apoio, as ajudas financeiras para que as escolas possam oferecer aos alunos ocupação de tempos livres? Naquele projecto do IPJ (Instituto Português da Juventude) «Férias em Movimento 2001», ora chegado às escolas, que exige a feitura de projectos cujas candidaturas só podem seguir via Internet? Onde está a vontade dos alunos em quererem vir à escola- vista sempre como escola-prisão- para frequentarem outras actividades, mesmo que não sejam lectivas? Vejam-se os filmes projectados que não têm assistência, vejam-se as festas a que só assistem «obrigados», vejam-se mesmo actividades desportivas (sem dúvida as que ainda conseguem juntar as mas-sas!)…vejam-se os pais (alguns!) que marcam férias, cujo início coincide normalmente com a realização de actividades não-lectivas (para já não falar das lectivas!)!
Para quê dizer mais, quando já há um dedo esticado a apontar para o culpado- o professor que não quer fazer nada? Basta fazer parte do mesmo coro e clamar: «Os professores não fazem nada. Estão sempre em Férias! Que boa vida a deles!»
E nova questão surge para reflexão: Vamos culpabilizar os professores de fazerem reuniões intercalares? É que o trabalho do professor não se vê só nas aulas. Essa parte visível é a menos importante! Vê-se no trabalho burocrático que os pais ignoram, melhor dizendo, fazem por ignorar…vê-se no trabalho de sociólogo, psicólogo, terapeuta da fala, assistente social e não sei que mais que o professor se vê obrigado a fazer, porque se preocupa com os jovens que tem a seu cargo… vê-se no trabalho não-lectivo do qual fazem parte a motivação, a preparação, a organização de material para as aulas, a feitura e correcção de testes, a avaliação dos alunos feita numa perspectiva da observação contínua de todo o trabalho efectuado pelo aluno,… vê-se na organização, preparação e dinamização de actividades fora das «quatro paredes» que mostrem aos alunos como a escola pode ser interessante, motivadora… vê-se na carolice, apanágio dos docentes que ultrapassam em muito as 35 horas de trabalho… vê-se na profissão em geral- haverá outra que leve T.P.C.? (Talvez apenas a do outro parceiro do binómio- o aluno!).
Então… talvez os culpados sejam uns e outros, apenas por existirem. Se não existissem não havia culpa nem culpados. Exter-minem-se uns e outros e o problema cessará. E depois, quem poderá ser culpabilizado pelo facto das crianças existirem? Os pais! Exterminem-se os pais e as crianças e o problema deixará de existir e com ele a Humanidade. E isso importará a alguém? Talvez aos extra-terrestres que, segundo alguns, nos fazem visitas e têm sociedades muito mais avançadas científica e tecnicamente ou talvez a Deus que, tendo descansado ao sétimo dia para observar a obra criada, chegue à conclusão de que este animal racional- o Homem- nunca deveria ter sido criado à sua imagem e semelhança!!
Ridículo? Certamente. Creio ter chegado a hora de procu-rarmos respostas em conjunto e de pararmos com os ataques àqueles que hoje fazem mais pelos jovens do que os seus próprios pais. Sejamos coerentes e respeitemos uma das profissões mais exigentes da actualidade e, se acham que tudo é um mar de rosas na profissão docente, desde o horá-rio à remuneração, então questio-nem os jovens e perguntem-lhes porque é que não querem esta profissão.

Fevereiro 2001

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