Degradação da Segunda-feira
Terça-feira, Fevereiro 8, 2005

Quem começa a ler este texto, com certeza que já passou pela estranha sensação de, ao acordar, não ter uma clara noção de que algo por que passou anteriormente, terá ocorrido durante o sono, ou se de facto aconteceu na realidade.

Ao ver o recinto da feira, nas manhãs de Terça-feira, pergunto-me se alguma vez teve o aspecto do dia anterior. As Segundas-feiras têm sempre um regresso a casa, ao fim do dia, que é marcado pela desolação. Uma desolação que faz lembrar as imagens de destruição a que assistimos sempre que um furacão ou um sismo ocorre normalmente no Pacífico.

Será que ser feirante implica necessariamente deixar marcas? Marcas de podridão, de sujeira e de desolação. Tal como os furacões no Pacífico. É assim que encontro o recinto da feira no meu regresso a casa, todas as Segundas-feiras. Não é que goste particularmente do lugar, que não é lugar; do espaço público que também não o é (que nem merece que tenha iluminação); do recinto que é mais do que das feiras. Mas, não tenho dúvida: quem deixa para trás toda esta degradação de Segunda-feira, não merece coisa nenhuma. Nem mesmo um lugar que não é lugar.

Durante a noite, o lugar fica limpo. O contraste da imagem faz-nos duvidar se alguma vez o recinto teve outro aspecto – o tal aspecto desolador. Mas tristemente, todas as Segundas-feiras, a dúvida desvanece-se. Sob aquela luz alaranjada, que só é acesa durante uma ou duas horas, a imagem da destruição fica arquivada na memória.

Os funcionários que trabalham na limpeza do recinto da feira durante a noite, merecem que lhes seja feito este reparo. Mesmo que em outras ocasiões tenhamos dúvidas sobre o seu bom trabalho. Mas não vou agora estragar a história. Porque de estrago, já chega aquele que reina lá fora, numa Segunda-feira qualquer. Até que os feirantes aprendam que os furacões, os sismos ou os maremotos já deixam destruição que chegue.