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Cronista sofre!
Quinta-feira, Agosto 2, 2007

A vida de um professor é feita de rotinas, mas… será que um professor pode realmente falar em rotina?! Bem, há certos hábitos rotineiros que têm de entrar no nosso dia-a-dia: despertar cedo (que só faz bem à saúde, lá diz o ditado!), andar ao toque da campainha (existirá algum ditado popular sobre este sinal acústico, melhor dizendo, ruído irritante, stressante… que está na base de tanta visita a psiquiatras e psicólogos? O quê? Nunca ouviram falar do síndroma da campainha?), enfrentar diariamente crianças/ jovens birrentos, amorosos, chatos, estudiosos, cábulas, inteligentes, pouco espertos, calmos, mexidos, amorfos, interessados, desinteressados… (ao gosto de todos os paladares!!), filhos dos outros (bem-educados, mal-educados, teimosos, obedientes, copinhos de leite ou sem ele, meninos do papá… e também da mamã, necessariamente), e que exigem muita paciência, paciência e mais paciência e muito, muito, muito profissionalismo, porque com os «nossos» resolvemos certas coisas de forma bem diferente, mais directa e sem complexos. E não pensem que me refiro à bofetada, ao estalo ou ao pontapé… Não, não sou apologista da agressão, muito embora não considere a palmada pedagógica na hora H uma violência à integridade física da criança, como certo programa televisivo uma vez levou a crer. Meu Deus, teríamos contas a prestar por atentados contra direitos humanos, neste caso, contra os Direitos da Criança!! E a lição foi por eles muito bem aprendida, porque já atiram isso ao rosto dos adultos, sejam eles pais ou avós. E onde está o SOS Adulto? Não estou a brincar. Nos dias que correm já há pais que sofrem agressões violentas por parte dos filhos, mesmo físicas, para já não falar das psicológicas que são constantes.

Mas voltemos à rotina de um professor: o convívio com os seus pares. Não pensem que vou falar mal da classe. Já há quem o faça gratuitamente e desconhecendo a realidade por completo, porque não tem em que ocupar o tempo, em que gastar as palavras ou porque lhe pagam ou porque tem qualquer interesse particular e pessoal.

(Aqui abro um parêntesis para mencionar um artigo em que reagi «a quente», o que nunca se deve fazer, mas essa fleuma só vem com o tempo… e com a maturidade… Uma das vantagens de estar nos cinquentas…)

Adiante. Professor sofre!! Neste caso, poderia dizer concretamente: cronista sofre!!

Mas não é só com os pares que as coisas nem sempre funcionam, é também com os ímpares, mais precisamente com esse patrão invisível, o Ministério e todos esses adjuntos frios e insensíveis fechados em direcções regionais, em áreas educativas que acabaram (?) e foram substituídas pelas coordenações educativas (também em via de extinção!), em direcções escolares, representantes eleitos pelo povo (o Ministro, claro!!, porque os outros…) que «tudo» fazem pela educação – EDUCAÇÃO, mas a verdade, verdadinha é que já andamos a falar em Reforma Educativa há um bom par de anos e quem se vai reformando são os que por cá vão dando o «corpo ao manifesto», uns na realidade, os outros porque vão crescendo…

E… apesar da escolarização obrigatória dos 9 anos (no papel!), a fuga à escolaridade continua e continuará, porque é muito difícil mudar mentalidades!, e a própria lei tem lacunas. Só se pode trabalhar com 16 anos, mas um aluno conclui a escolarização aos 15 anos. E depois? Será que a lei já está a prever o insucesso para os nossos jovens? E o que foi anunciado, da frequência obrigatória do 10.º ano ao 12.º e com um 13.º para se fazer não percebi muito bem o quê…?

E… apesar da escolarização obrigatória dos 9 anos, o analfabetismo continua a existir no nosso país, na sua forma verdadeira (não saber ler nem escrever!), mas também com uma forma modernizada (há que acompanhar os tempos!), o chamado analfabetismo funcional, em que o analfabeto é cada vez menos o adulto/ o jovem que não sabe ler nem escrever, mas aquele que consegue ler, produzir os fonemas necessários à mecânica da leitura, mas daí não conseguindo extrair sentido. Leu, mas não entendeu. A par desta iliteracia, caminha a do desconhecimento cada vez maior da tabuada. As máquinas fazem tudo! Em qualquer loja em que entremos, logo a calculadora aparece, por mais ridículos que sejam os cálculos. E então cálculo mental, nem pensar!! Somos olhados logo como se fôssemos aves raras. E até somos!! E outras situações se repetem quotidianamente: é o empregado do restaurante que traz um talher de cada vez e se esquece da água, do copo, do vinho, que troca a conta da mesa um com a da mesa dois, que é incapaz de ordenar a mente para realizar de enfiada uma pequena série de tarefas sem importância mas que se reveste de importância vital (que exagero!) para quem é cliente.

Agora chega uma outra espécie de analfabetismo, o informático. A máquina tomou posição, assumiu o comando e, neste momento, quem não dominar as Novas Tecnologias da Informação e da Comunicação está em maus lençóis.

A Moodle chegou às escolas e instalou-se para ficar. Apesar da lentidão de que ainda padece, a máquina começou a rodar e toda a papelada tende a ser substituída pela plataforma. Acho bem, por um lado, até porque precisamos de poupar as árvores e poupar energia, se queremos contribuir para uma existência mais prolongada do nosso planeta e se queremos salvaguardar as suas riquezas. Só espero é que depois o trabalho não seja a duplicar, em papel e em suporte digital. É que eu continuo a desconfiar das máquinas e só acredito no que vejo “preto no branco”. Não me limito a viver em S.Tomé de Caldelas, sou como o santo, ver para crer. O vi ou ouvi para mim não tem valor. Mas este é apenas um novo desafio para os professores, já que no Ministério (disseram-me!) ainda há departamentos onde existem aquelas velhinhas máquinas de escrever. Então como é? “Olha para o que eu digo, não olhes para o que faço”. Mais uma vez se exige aos outros, se ordena que arrumem a casa segundo novas leis e orientações, enquanto a própria é gerida com incompetência seguindo os pressupostos anteriores. Na nossa administração ninguém se lembra de que pode ter telhados de vidro; bem pelo contrário, atiram não só pedras mas pesados pedregulhos para partirem tudo e estilhaçarem completamente o sistema seguro pelas pontas e a custo de tantos sacrifícios!
E tudo isto começou já nem sei porquê. Mas pode acabar por aqui.

Arrumem a casa e, já agora, agarrem-se às Novas Tecnologias de Informação e Comunicação se não querem ser uns analfabetos do século XXI.

E passe umas Boas Férias. Descanse muito, porque calor abrasador e sufocante, é coisa que não vamos ver muito neste nosso cantinho à beira-mar plantado… Contentemo-nos com este sol meigo e suave, mais primaveril que estival, e uma temperatura amena que nos obriga a recorrer aos agasalhos, porque o ar fresco da noite ou da manhã não é muito aprazível… Lá mais para Agosto, talvez o tão proclamado Verão mais quente dos últimos anos apareça cá por estas bandas. Quem sabe?

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