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Crónica do Azul
Quarta-feira, Outubro 12, 2016

M’en bati, sieu Nissard.

Escrevo esta crónica sentado numa das muitas cadeiras azuis colocadas ao longo da Promenade des Anglais, em Nice, olhando o mar que se estende à minha frente. Até há pouco tempo elas eram completamente livres e deambulavam pela Promenade ao sabor do sol e da sombra, ou fazendo pequenos círculos como marcas dos convívios e das conversas entre humanos. Outras eram levadas para a praia e, infelizmente, algumas eram também lançadas à água. Foi para evitar alguns destes abusos que as autoridades locais decidiram prendê-las ao solo, em duas filas, uma virada para o mar, outra para a cidade. Eu, viro-me para o mar.

À minha direita jazem ainda algumas flores comemorativas do bárbaro atentado de 14 de Julho. Mas a maioria foi levada para um velho coreto que se encontra num dos extremos deste Passeio, transformando aquele espaço num enorme concerto de mágoas, uma sinfonia de interrogações de quem procura compreender um acto tão louco, tão desumano, tão profundamente inexplicável.

A Promenade é longa, muito longa, com aproximadamente 7 km, mas a distância até à água é relativamente curta. Tratando-se de praias artificiais, feitas com seixos dos rios, os famosos “galets”, o mar depressa adquire profundidade que se reflecte nas tonalidades que parecem sobrepor-se. O azul quase transparente depressa escurece, tornando-se em azul-turquesa e espraiando-se até aos confins para se amalgamar com o azul do céu.

Foi este mesmo azul que alguns artistas, que passaram grande parte da sua vida nesta região, tentaram plasmar e fixar nas suas obras. Henri Matisse fê-lo nos seus desenhos fluidos e originais, nas figuras femininas sublimes e cheias de vida, nos vitrais que adornam a capela de Vence, onde as cores são um convite à reflexão e à exaltação. Marc Chagall transportou este mesmo azul para o seu diálogo com o divino, onde a poesia se mistura com o mundo onírico e simbólico. Yves Klein apostou intensamente nesta cor, criando o International Klein Blue, que dá vida e profundidade aos seus quadros e às suas conhecidas formas humanas monocromáticas.

Do ponto de vista simbólico, o azul é a mais profunda, a mais vazia e a mais imaterial das cores. Uma cor feita de transparência que transporta o olhar para o infinito, para o vazio, para a pureza e para o valor absoluto das coisas.

O meu azul foi atingido e ferido. Ele não é mais meu do que de todos aqueles a quem pertence. Mas hoje quero levá-lo comigo. Quero levar o azul desta cidade cuja beleza me emociona. O abraço desenhado pela curva da Promenade, a Baía dos Anjos, a luz incisiva e violenta. Como descrever, nesta crónica, a beleza da paisagem com o absurdo da morte? A perfeição não é deste mundo. O azul tornou-se mais denso, a luz dissolve-se e a cidade esconde a sua tradicional alegria atrás das lágrimas.

A Promenade des Anglais foi atingida. A cidade da miscigenação, cosmopolita, dos turistas, dos exilados, dos escritores, dos artistas, conhecidos e desconhecidos, da gente anónima que apenas passa ou dá um mergulho na praia. A pé, de bicicleta, correndo ou andando. O cineasta Jean Vigo, no seu filme “A propos de Nice”, troça dos burgueses sentados ao longo da Promenade. Mas também exalta a cidade, deixando-se encantar pelo mar. A sobranceria de alguns grandes hotéis que, cada vez mais, ocupam as praias, de pouco importa. O mar ainda é de todos, e o seu azul cavado é um desafio e um convite ao silêncio e à reflexão.

Não podemos fugir do mundo onde vivemos. Compreendê-lo é um desafio constante para continuar a amá-lo, para não ver no desconhecido com quem nos cruzarmos um inimigo potencial. Para que os nossos filhos possam descobrir outros litorais sem a angústia do não retorno. Não podemos baixar os braços e deixar-nos levar pelo fatalismo, pelo inelutável. Mais do que nunca, somos chamados a ir ao fundo das coisas e de nós mesmos. Mergulhar até dédalos das nossas almas, para encontrar o que resta de justiça, de sensatez. Para fazer face à incompreensão, à cólera que alimenta a chama da barbárie. São as suas guerras. São os nossos mortos.

Professor e investigador da língua mirandesa

Crónica dos limites da democracia
Sexta-feira, Julho 22, 2016

A democracia é como o ar que respiramos: enquanto o temos não nos damos conta nem da sua importância nem da sua necessidade mas, se nos falta, asfixiamos e morremos. Porém, a democracia não é a panaceia, é uma construção cultural – possivelmente a mais aprimorada e bem-sucedida da nossa espécie e da chamada civilização ocidental – mas que nem sempre é fácil, e muitas vezes é difícil de entender. Por outro lado, ela não se aplica automaticamente em todos os contextos culturais como, infelizmente, o vêm provando as experiências trágicas que se vivem no Médio Oriente em que, através da destabilização de algumas sociedades, se procuraram impor as nossas concepções políticas quanto ao que é um bom ou mau sistema de governo.

Um problema recorrente nas nossas sociedades é o baixíssimo nível e adesão, quer na participação em atos eleitorais, quer no grau de insatisfação que, de uma forma geral, as pessoas demonstram perante esta forma de governo. Outra das ameaças às democracias é a existência de um enorme poder privado, anónimo e transnacional, com capacidade para desafiar o direito dos poderes públicos democráticos e determinar o que é o interesse público. Este domínio é reforçado pela incapacidade das sociedades civis em controlar esses poderes.

Os recentes acontecimentos históricos ocorridos no mundo árabe, a chamada “Primavera árabe”, mas também na América Latina, com o “movimento indígena”, interrogam-nos sobre as questões da governabilidade das populações cada vez mais descontentes porque as suas necessidades não são satisfeitas. Contudo, muitas das reflexões sobre estes movimentos conduzem-nos a questões como a identidade, a cultura, a hibridez cultural, e uma infinidade de temas e de discursos que parecem querer afastar-se, deliberadamente, da questão central, o poder.

Na Europa, a questão dos refugiados demonstrou ser um tema particularmente fracturante e a ideia de “devolver o poder ao povo”, através da chamada “democracia direta”, tornou-se uma tentação fácil de agarrar e nem sempre muito fácil de dirimir. Ora, como em muitas coisas boas da vida, para tirar o melhor partido delas, a democracia tem de estar submetida a limites. A regra da maioria é um método para tomar decisões dentro de uma comunidade que partilha valores básicos, fundamentais, prévios e independentes desse método. São estes valores que determinam se as decisões adotadas são boas ou não. Neste quadro, a democracia é o melhor método de decisão e, sem dúvida, o melhor para legitimar o poder dos Governos. Mas a regra da maioria, por si só, não garante a bondade das políticas adotadas.

Por isso, as sociedades limitam, nos seus textos fundacionais, as Constituições, o quadro de atuação dos seus governos e parlamentos no uso que os mesmos podem fazer da regra da maioria. Ainda que imperfeitos, os textos constitucionais foram apurando esses valores: o direito à privacidade, a liberdade de expressão e de associação, o direito à propriedade privada, a separação de poderes, são apenas alguns dos valores básicos que não podem ser referendados.

Num momento em que ainda estamos a digerir o referendo britânico sobre a saída da União Europeia, o chamado Brexit poderia ser apenas um pequeno abalo capaz de desencadear um tsumani de referendos nos próximos anos. Na Europa, há cerca de 50 partidos políticos que, cada vez mais, controlam a “agenda política”, conquistam poder e integram governos de coligação, fazendo assim parte de governos.

Ainda que estes partidos tenham raízes muito diferentes, todos eles apresentam alguns aspectos comuns: são eurocépticos, menosprezam as organizações internacionais como a NATO, opõem-se ao livre comércio e, de uma forma ou de outra, estão a transformar as velhas questões entre a esquerda e a direita por disputas próprias do seu inatismo ressabiado.

É no referendo que muitos destes partidos encontram a arma ideal, pois nele podem encontrar o apoio popular que necessitam para as suas questões, ou seja, para a sua agenda. Uns querem seguir o exemplo do Reino Unido e referendar a pertença à UE, outros querem sair da eurozona, outros querem impedir o Acordo de Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento… À sociedade civil não se pede outra coisa que não seja estar atenta, vigilante e atuante. Sob pena de nos deixarmos levar no doce embalo democrático, esquecendo que a democracia não é um facto adquirido: é uma construção e uma utopia.

Crónica da opinião alheia
Quarta-feira, Maio 18, 2016

No conhecido conto tradicional, um velhinho e um jovem atravessavam uma aldeia, ao lado do seu burro. As pessoas, ao vê-los passar, riam-se deles dizendo: “Olha que tontos, têm um burro e vão os dois a pé! O velho bem podia subir-se nele.”

Dando ouvidos ao povo, o velho subiu-se no burro e, ao passar por outra aldeia, o povo dizia: “Olhem que vergonha! O velho comodamente no burro e o menino a pé!”

Mudaram de posição, mas logo, noutro lugar, algumas pessoas se indignaram dizendo: “Que pouca vergonha, o menino em cima do burro e o pobre velho caminhando!”

Aqui chegados, subiram os dois no burro, mas as pessoas nem assim se calaram e, ao cruzarem-se com algumas, num caminho, estas censuraram-nos dizendo: “Assim, os dois em cima do burro, é certo que ides rebentar com a animal!”.

Em algumas versões da história conta-se que os dois ainda decidiram levar o burro às costas. Mas nem assim as pessoas se calavam, troçando e rindo da sua atitude. O fim e a amoral da história são bem conhecidos lembrando-nos que, seja como for, é difícil calar as bocas do mundo.

É desta lição que me lembro quando ouço e vejo, quase quotidianamente, as lições, embrulhadas em estudos científicos, que pretendem dar-nos sobre quem somos, como somos e como devemos agir. Os bombardeamentos são constantes e é preciso uma boa dose de distanciamento – e, às vezes, de bom humor – para não cairmos na armadilha de pensarmos que tudo está estudado, que quase tudo está decidido, e que nem sequer temos de ter o trabalho de pensar. Outros pensam por nós. Fazem, formam e enformam a nossa opinião. O embrulho costuma ter um formato semelhante a este:

“Segundo um estudo divulgado por (colocar um nome estrangeiro, acrescido, de preferência do modificador “americano”) a cidade (nome da cidade) é a vigésima onde se vive melhor.”

A partir daqui há exemplos para todos os gostos e, obviamente, há-de haver sempre um que vai ao nosso encontro, seja pela cor do nosso cabelo, dos nossos olhos, da nossa altura, da nossa cor preferida… Há estudos para todos os gostos e com resposta a quase tudo.

Em matéria de saúde ficamos a saber que, “segundo um estudo de investigadores do Brigham and Women´s Hospital de Boston, as barbas podem ter propriedades antibióticas.” Naturalmente que o estudo não diz que sim. Mas também não diz que não. Por isso, pelo sim pelo não, nada como deixar crescer as barbas.

O tema da felicidade é também recorrentemente abordado e “estudado”, sabendo-se de antemão quais são os países, as cidades e as pessoas mais felizes. Por isso, não vale a pena pensar que somos nós porque, “segundo um estudo recente, é nas ilhas Vanuatu se acham as pessoas mais felizes do mundo”.

A alimentação é, obviamente, um assunto também recorrente nestas investigações. Felizmente que, para os mais alarmados, há um estudo que prova que as baratas, tal como os humanos, engordam e perdem “qualidade de vida” se não se alimentarem adequadamente.

Reconfortante e animador é o estudo que vem juntar-se ao debate sobre a conciliação e as horas que passamos no trabalho. Diz esse importante trabalho que “trabalhar apenas três dias por semana melhora o rendimento a partir dos quarenta anos”. Espero, sinceramente que, em Portugal, isto venha a ser tido em consideração!

Mas, em questões mais interessantes, nada como o estudo que vem de encontro àqueles que têm de estacionar o seu carro na rua. Infelizmente, muitas vezes se vêm confrontados com os excrementos das pombas (ou pombos?). Pois bem, há um estudo que demonstra que “as pombas preferem defecar em carros vermelhos”. Atenção, por isso, aos amantes desta cor e aqui fica um sério aviso para quem pensa comprar carro.

Felizmente que também há, segundo os cientistas, os estudos considerados inúteis. Entre eles, está este da investigadora Noola Griffiths, publicado na revista Psicology of Music, sobre a relação entre os músicos e os fatos que usam em palco. O resultado, na sua douta opinião, é que os trajes que usam influenciam a percepção que o espectador tem do espectáculo. Não se sabe se Lady Gaga leu o estudo ou se os seus fatos são fruto da sabedoria popular. Seja como for, como afirmam alguns cientistas, sempre será bom demonstrar cientificamente o que todos temos como adquirido.

Professor de português e investigador da língua mirandesa

Crónica da opinião alheia
Domingo, Maio 15, 2016

No conhecido conto tradicional, um velhinho e um jovem atravessavam uma aldeia, ao lado do seu burro. As pessoas, ao vê-los passar, riam-se deles dizendo: “Olha que tontos, têm um burro e vão os dois a pé! O velho bem podia subir-se nele.”

Dando ouvidos ao povo, o velho subiu-se no burro e, ao passar por outra aldeia, o povo dizia: “Olhem que vergonha! O velho comodamente no burro e o menino a pé!”

Mudaram de posição, mas logo, noutro lugar, algumas pessoas se indignaram dizendo: “Que pouca vergonha, o menino em cima do burro e o pobre velho caminhando!”

Aqui chegados, subiram os dois no burro, mas as pessoas nem assim se calaram e, ao cruzarem-se com algumas, num caminho, estas censuraram-nos dizendo: “Assim, os dois em cima do burro, é certo que ides rebentar com a animal!”.

Em algumas versões da história conta-se que os dois ainda decidiram levar o burro às costas. Mas nem assim as pessoas se calavam, troçando e rindo da sua atitude. O fim e a amoral da história são bem conhecidos lembrando-nos que, seja como for, é difícil calar as bocas do mundo.

É desta lição que me lembro quando ouço e vejo, quase quotidianamente, as lições, embrulhadas em estudos científicos, que pretendem dar-nos sobre quem somos, como somos e como devemos agir. Os bombardeamentos são constantes e é preciso uma boa dose de distanciamento – e, às vezes, de bom humor – para não cairmos na armadilha de pensarmos que tudo está estudado, que quase tudo está decidido, e que nem sequer temos de ter o trabalho de pensar. Outros pensam por nós. Fazem, formam e enformam a nossa opinião. O embrulho costuma ter um formato semelhante a este:

“Segundo um estudo divulgado por (colocar um nome estrangeiro, acrescido, de preferência do modificador “americano”) a cidade (nome da cidade) é a vigésima onde se vive melhor.”

A partir daqui há exemplos para todos os gostos e, obviamente, há-de haver sempre um que vai ao nosso encontro, seja pela cor do nosso cabelo, dos nossos olhos, da nossa altura, da nossa cor preferida… Há estudos para todos os gostos e com resposta a quase tudo.

Em matéria de saúde ficamos a saber que, “segundo um estudo de investigadores do Brigham and Women´s Hospital de Boston, as barbas podem ter propriedades antibióticas.” Naturalmente que o estudo não diz que sim. Mas também não diz que não. Por isso, pelo sim pelo não, nada como deixar crescer as barbas.

O tema da felicidade é também recorrentemente abordado e “estudado”, sabendo-se de antemão quais são os países, as cidades e as pessoas mais felizes. Por isso, não vale a pena pensar que somos nós porque, “segundo um estudo recente, é nas ilhas Vanuatu se acham as pessoas mais felizes do mundo”.

A alimentação é, obviamente, um assunto também recorrente nestas investigações. Felizmente que, para os mais alarmados, há um estudo que prova que as baratas, tal como os humanos, engordam e perdem “qualidade de vida” se não se alimentarem adequadamente.

Reconfortante e animador é o estudo que vem juntar-se ao debate sobre a conciliação e as horas que passamos no trabalho. Diz esse importante trabalho que “trabalhar apenas três dias por semana melhora o rendimento a partir dos quarenta anos”. Espero, sinceramente que, em Portugal, isto venha a ser tido em consideração!

Mas, em questões mais interessantes, nada como o estudo que vem de encontro àqueles que têm de estacionar o seu carro na rua. Infelizmente, muitas vezes se vêm confrontados com os excrementos das pombas (ou pombos?). Pois bem, há um estudo que demonstra que “as pombas preferem defecar em carros vermelhos”. Atenção, por isso, aos amantes desta cor e aqui fica um sério aviso para quem pensa comprar carro.

Felizmente que também há, segundo os cientistas, os estudos considerados inúteis. Entre eles, está este da investigadora Noola Griffiths, publicado na revista Psicology of Music, sobre a relação entre os músicos e os fatos que usam em palco. O resultado, na sua douta opinião, é que os trajes que usam influenciam a percepção que o espectador tem do espectáculo. Não se sabe se Lady Gaga leu o estudo ou se os seus fatos são fruto da sabedoria popular. Seja como for, como afirmam alguns cientistas, sempre será bom demonstrar cientificamente o que todos temos como adquirido.

Crónica dos estrangeiros
Quinta-feira, Janeiro 14, 2016

Os primeiros “estrangeiros” que nos vêm da alvorada de nossa civilização são “estrangeiras”. As cinquenta Danaides eram mulheres, filhas do rei Dánao, irmão gémeo de Egipto. Segundo as lendas, após disputas entre os irmãos pelas terras, Dánao, aconselhado por Atenas, teve que exilar-se com as suas filhas em Argos. Egipto não desistiu, nem da vingança nem, segundo outros relatos, de procurar água, pelo que mandou os seus cinquentas filhos para que se casassem com as cinquenta filhas de Dánao. Casaram. Mas estas, na noite de núpcias, usando adagas, mataram todos os seus maridos.

Como nos conta Ésquilo, a desmesura deste crime, coloca-nos múltiplos problemas e possibilidades interpretativas. A decapitação, hedionda e terrível, é motivada pela fuga à guerra e pela recusa, simbólica, de um casamento endogâmico e incestuoso. A história conduz-nos assim a tempos imemoriais onde as sociedades endogâmicas se tornam exogâmicas. Não se casar com um familiar é a primeira condição que as Danaides resolvem com uma brutalidade que, noutra leitura, se torna necessária para fundar uma nova aliança, o casamento entre pessoas, iguais em direitos, mas “estranhas” ou “estrangeiras”. Por isso, Ésquilo não as condena. E a sua história oferece-nos a leitura política, jurídica e também religiosa, da forma como os gregos viam os estrangeiros. Devem ser aceites se são “suplicantes”. Ou seja, se se submetem aos deuses e depositam, nos seus altares, os ramos, símbolo da sua terra.

Desses tempos antigos, da memória e da arca dos mitos, vêm outras histórias, outras palavras e outras lições, como as homéricas, proclamando a necessidade de receber os hóspedes e os estrangeiros que os deuses, Zeus Xénios e Atena Xenia, protegiam.

Foi também neste mundo mediterrânico que nasceram e cresceram duas palavras que têm em comum a ideia de estrangeiro: “bárbaro” e “meteco”. A primeira, começou por significar aqueles que vinham da Ásia Menor, que viviam e combatiam com os gregos, mas não falavam como eles. Sófocles, Ésquilo e Eurípedes usam-na em sentido negativo, querendo dizer “que não se entende”, “que não é grego” ou também “que é inferior aos gregos”.

Os “metecos” eram outros. Ainda que podendo ter pais ou avós vindos de fora, viviam na Grécia. Mas a sua linhagem e as suas origens não lhes permitiam ser gregos como os outros e por inteiro. Eram livres, mas não podiam ter terras, não se podiam casar com o(a)s grego(a)s, não tinham direito ao voto nem podiam ser eleitos para nenhum lugar público. Mesmo que o seu nome queira também dizer “casa” (oikos), esse era outro direito que lhes estava proibido.

Ainda assim, no mundo antigo, mesmo numa Grécia alicerçada no “logos”, ou seja, na língua dos gregos como princípio inteligível na ordem das coisas, a glossolalia era o princípio reinante. Todos os deuses escutavam e entendiam a língua grega mas também a língua dos “bárbaros”. Foi nesta mesma Grécia, com os filósofos estóicos, que nasceu e cresceu a ideia de um cosmopolitismo capaz de derrubar as paredes da “polis” e deixar entrar todas as pessoas. A ideia estendeu-se e ganhou raízes mais fundas e fortes no mundo romano, em que o estrangeiro era visto com curiosidade ou, segundo a fórmula de Terêncio, traduzindo o grego Menandro, “sou homem, e nada de o que é humano me é alheio”.

Nesta quadra e em tempo de ano novo não podemos também esquecer a história e a lição de Ovídio. Poeta latino, estudou artes e política em Roma e em algumas cidades do mundo grego. Mas depressa enveredou só pela poesia. Em Roma, onde viveu até aos cinquenta anos, conviveu com a alta sociedade e com o próprio imperador Augusto. Sem que se saiba muito bem porquê, caiu em desgraça e foi desterrado até à sua morte para a Trácia, na atual Roménia, para uma cidade que hoje tem o nome de Constança. Aí aprendeu a língua dos “getas” e foi nela que escreveu um poema em louvor do imperador.

Infelizmente, a língua e o poema desapareceram. Nenhum romano se interessaria por ela! Mas, se se tivesse conservado, seria hoje um precioso instrumento para compreendermos a passagem linguística entre a Ásia Menor e a península balcânica. Ainda assim, fica a lição de Ovídio, que ressoa nas histórias que nos vêm dos alvores da nossa civilização e que poderá servir de lema para o novo ano: acolher o outro, o estrangeiro, entendê-lo, se possível, na sua língua.
Miranda do Douro, 2 de janeiro de 2016.

Crónica dos políticos idiotas
Sexta-feira, Novembro 20, 2015

A política é uma das actividades mais nobres da nossa sociedade e da nossa civilização. Oomo observou Aristóteles, o homem é naturalmente político, isto é, uma criatura pobre e imperfeita que precisa dos outros. Um ser que necessita da comunidade para se sentir completo. Segundo o mesmo filósofo, o verdadeiro cidadão é aquele que participa activamente no desenvolvimento e implementação das leis que, estas sim, podem ser estabelecidas pelo rei, numa monarquia, por alguns, numa oligarquia, ou por todos os cidadãos livres, num regime democrático. Os três regimes são aceitáveis, desde que se pratiquem com justiça. Mas, se assim não acontecer, convertem-se em tiranias, em oligarquias ou em demagogias, respectivamente.

Contudo, nem todos os que vivem na cidade são cidadãos, pois esta condição está reservada para aqueles que participam activamente na sua vida colectiva. Aqueles que, por uma ou outra razão, não o fazem, são apenas habitantes.

Do ponto de vista etimológico, a palavra política vem exactamente da expressão “politiké techné”, ou seja, a arte própria dos cidadãos, a aptidão e a capacidade para gerir as coisas públicas e comuns. Por isso, quando Aristóteles diz que o homem é um “animal político”, aquilo que pretende dizer é que o homem é um ser social. Ou seja, um ser unido pelas leis do hilomorfismo, em que a forma são as próprias leis e a matéria são os indivíduos.

Mas há dois outros princípios inseparáveis, que unem, além do mais, a filosofia aristotélica com a platónica, que são a ética e a política. Ambas têm um o mesmo objectivo: o bem-estar e a felicidade humanas. E se a política é a procura do bem comum, a ética estabelece e regula as regras e normas para o conseguir.

Por outro lado, segundo os mesmos princípios aristotélicos, quem vive fora da comunidade organizada, a cidade ou polis, ou é um ser sobre-humano, uma divindade, ou é um ser degradado, isto é, um idiota.

Com efeito, a palavra “idiotes” referia-se àqueles que não se ocupavam dos interesses nem dos assuntos públicos, mas apenas dos seus interesses pessoais ou particulares. Aqui encontramos a raiz “idio”, que significa justamente “próprio”, e está presente noutras formas linguísticas como “idiolecto” (modo particular como cada falante usa a língua) ou “idiossincrasia” (disposições particulares de cada indivíduo).

Por isso, forçoso é de concluir que um político não pode ocupar-se de assuntos particulares, colocando os interesses pessoais ou corporativos à frente dos interesses comuns. Aliás, na antiga Grécia, essas pessoas eram condenadas à pena máxima que se podia aplicar a um cidadão em relação à sua participação na vida social, o exílio, ou melhor, o ostracismo, que consistia no afastamento compulsivo de um indivíduo da vida social. Para tal, quando uma pessoa era considerada uma ameaça para a comunidade, era feito um plebiscito para decidir se ele deveria ou não ser afastado da sociedade. O seu nome era colocado num pedaço de cerâmica – que recebia o nome de “ostrakon”, e este de “ostreon”, por ser parecido com uma ostra – sendo escolhida a pessoa que menos agradasse ao povo.

Infelizmente, também nesse tempo, muitos foram os condenados injustamente e, por isso, a palavra “ostracismo” adquiriu o significado que hoje lhe conferimos. Seja como for, a verdade é que não pode haver políticos idiotas. Ou melhor, se é político não pode ser idiota; se é idiota, não pode ser político.

Miranda do Douro, 29 de Outubro de 2015

Crónica dos ofícios para toda a colher
Segunda-feira, Setembro 14, 2015

“Ser pau para toda a colher” tal como “ser pau para toda a obra” significa servir para tudo, ser capaz de executar o que for preciso. Refere-se também à pessoa que aceita resignadamente ser usada para os mais diversos trabalhos.

Aqui há uns anos também se dizia que quem não tinha uma profissão e não sabia fazer mais nada, era pau para toda acolher e, por isso, devia ir para trolha ou para pastor. Creio que, hoje em dia, esse paradigma já deve ter mudado ou está em vias de mudança. Na verdade, as profissões de trolha e de pastor, como, de resto, todos os outros ofícios, requerem um conhecimento técnico, uma aprendizagem e também competências específicas que não estão ao alcance de todos. E isso deve ser reconhecido socialmente, pois a vida em comum necessita de pessoas competentes nos mais diferentes domínios, baseando-se na confiança mútua que nos atribuímos. Ninguém vai a um médico ou a um advogado exigindo que estes lhe apresentem o certificado de habilitações. Ninguém abre as portas ao picheleiro que lhe vem concertar uma fuga de água, pedindo o atestado profissional. Confiamos. E esta confiança é essencial para que a vida em sociedade seja possível.

Mas se esta mudança se está a operar em relação a algumas profissões, outras há que parecem estar a correr em sentido contrário, abertas a quem quiser praticá-las, mesmo que não tenha qualquer preparação técnica ou científica para o fazer. É uma espécie de caminho inverso em relação ao percurso de reconhecimento de que falávamos anteriormente.

O caso mais flagrante vem sendo o de professor do ensino básico e secundário. Se excluirmos os docentes do 1º ciclo que, esses sim, precisam de uma formação específica, parece que toda a gente pode ser professor. Com efeito, a universalização da escola e o alargamento da escolaridade obrigatória fizeram com que o sistema de ensino necessitasse, há uns bons anos atrás, de recrutar “professores” que não existiam. Daí que, para o bem e para o mal, tivessem entrado no sistema docentes que não tinham qualificações para o ser. E se hoje em dia isso já não é praticável, continuamos a sentir os efeitos secundários dessa explosão.

Mas os exemplos de ofícios para toda a colher ou para toda a obra não se ficam por aqui. Deixo aqui mais três exemplos que tenho visto, nos últimos tempos, profusamente documentados em alguns meios de comunicação e noutros espaços públicos. São eles os ofícios de historiador, linguista e também investigador.

Numa certa perspectiva poderemos pensar que, quando alguém se auto-intitula como historiador, linguista ou investigador, sem ter uma formação académica sólida nessas áreas, nem ser capaz de usar as ferramentas adequadas para investigar e interpretar criticamente os factos, tal significa que essa pessoa, não sendo profissional, reconhece o valor dessas profissões e, por isso, se atribui tal qualificação. Também podemos dizer que o facto de não saber distinguir a Fonética da Fonologia ou de confundir duas datas históricas, não tem a mesma gravidade que calcular erradamente a capacidade de resistência do betão para construção de um pilar ou de uma laje, ou não reconhecer os sintomas de uma doença e prescrever erradamente um medicamento. O raciocínio, ilógico, levar-nos-ia a comparar todas as situações que não são comparáveis. E este argumento é, desde logo, metodologicamente incorrecto.

A verdade é que estas referências a ofícios ou profissões atribuindo-os a pessoas que mais não são do que curiosos nessas matérias só tem um nome: mentira. Uma intrujice que consiste na usurpação de características e de competências que não lhe pertencem, e que só se justifica porque a nossa “praça pública” não está suficientemente esclarecida e preparada para repudiar estas atribuições e usurpações. A mim, confesso, incomoda-me e entristece-me. Da mesma forma, como escrevi numa outra crónica, que “um pedreiro é tão importante como um “doutor”.

Miranda do Douro, 26 de agosto de 2015

Professor

Crónica da Fé
Terça-feira, Julho 21, 2015

Compte tenu de la diversité des États membres, de ses peuples, de ses cultures et de ses langues, l’Union européenne sera-t-elle jamais capable d’acquérir la qualité d’un authentique État?
– Jürgen Habermas, Après l’État-nation

Esta crónica começa com uma interrogação: o que têm em comum a “fé” e o “federalismo”?

A resposta, etimológica, mas talvez pouco transparente, é muito simples. Ambas as palavras têm a mesma origem, pois provêm do mesmo étimo latino – fides – forma com uma grande amplitude semântica, mas na qual estão sempre presentes as noções fundamentais de confiança e de partilha.

A palavra “fé” ganhou, por influência das religiões, uma conotação muito específica, associando-se a uma dimensão imaterial e perdendo assim muita da amplitude semântica que tinha no mundo romano. De qualquer forma, podemos defini-la como uma relação do homem com Deus em que se acredita naquilo que não se vê.

A forma “federalismo” leva-nos a uma raiz mais profunda, indo-europeia, que é a mesma que deu o verbo latino “fidere” (confiar, ter confiança), recebendo depois a influência de “foedus”, uma antiga palavra que designava um pacto baseado numa relação de confiança e de credibilidade entre diferentes povos.

Tenho andado, nos últimos dia, em deslocações contínuas, acompanhando apenas as notícias sobre o que se passa entre a Grécia e a União Europeia pelo que ouço na rádio e também em alguns meios on-line. Sem tempo, portanto, para uma reflexão mais pausada até porque, como se sabe, ainda estamos no meio do turbilhão. Mas aquilo que concluo é que a relação entre ambas carece, na sua base, de fé. E não há confiança sem fé, nem fé sem confiança. Por isso, prolongando as nossas cadeias etimológicas, chegamos imediatamente à desconfiança, ou seja, à sinceridade ou à honestidade que atribuímos a alguém.

Na verdade, a vida em sociedade – e a construção europeia tem de ser vista como tal – não pode existir se não se basear em pilares de convivência muito sólidos. Um deles é a “fé” no outro, a “confiança” que se estabelece nas relações humanas. Se eu deposito dinheiro num banco ou se o empresto a alguém, é porque acredito que está num lugar adequado ou me fio que ele me será devolvido. Fio-me do vendedor que me vende peixe e do peso que me apresenta; fio-me no médico que vou consultar; fio-me na escola a quem entrego os meus filhos. A vida em comum é feita com base na confiança. Uma sociedade em que tivéssemos de comprovar, medir, pesar, tudo, criaria uma atmosfera asfixiante em que a vida seria incomportável.

Por isso, quando se discute, a nível europeu, a questão da Grécia ou, em outras ocasiões, se devemos ou não caminhar para um sistema federal, não podemos esquecer que aquilo que está em causa é uma doutrina em que o governo e o poder se dividem entre o poder central e os Estados associados, nos modelos que hoje reconhecemos nos Estados Unidos e também na Alemanha, que são uma federação de Estados. Mas o que está verdadeiramente em causa neste modelo é a fé, ou seja, a confiança, que uns depositam nos outros. Uma confederação é, pois, algo muito mais profundo do que uma união. Sobretudo quando esta se baseia, unicamente, em critérios económico-financeiros

Não conheço, e poucos conhecerão, o que está verdadeiramente em causa nesta “questão grega”. Também não sei se todas as partes estão, verdadeiramente, de boa-fé. Parece-me que não. Pelo contrário, parece-me que é a desconfiança que está na base da discórdia. Para conseguir entendimentos, é preciso que os militantes da democracia cosmopolita trabalhem para que haja “confiança” entre as partes, se acabe com o clima de “má-fé” e, quem sabe, de “perfídia”.

Crónica das contas de merceeiro
Terça-feira, Maio 12, 2015

Os partidos do actual governo brindaram-nos com o chamado Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC) que constituirá, dizem, a base do Programa eleitoral da coligação PSD-CDS, entretanto formalizada e apresentada.
O Partido Socialista (PS), por seu lado, apresentou igualmente as medidas, propostas pelo grupo de economistas, escolhido por António Costa, que vão servir igualmente de base ao programa eleitoral.

O sururu em torno destes documentos, a importância que lhes atribuo, pois que se trata de compreender as propostas dos partidos que, em princípio, formarão o próximo governo de Portugal entre 2016 e 2010, mas também a minha ignorância ou incapacidade para compreender certas coisas, levou-me a tentar lê-los para entender um pouco melhor as propostas de uns e outros. Como, entretanto, o PS também elaborou um documento de respostas, dirigido ao Partido Social Democrata, sirvo-me igualmente dele para esclarecer algumas das minhas dúvidas.

E a minha dúvida de base, essencial, começa no facto de só ouvir falar em números, em défice, em reposição dos salários da função pública, em pensões, em taxas e sobretaxas, em receita fiscal, em IMI, IMT, IRC, TSU, etc. etc. etc.

A leitura dos documentos, ainda que feita na diagonal, não me desiludiu. O documento do Governo – o primeiro a ser apresentado – tem tudo o que eu esperava. Eis alguns excertos: “Em relação ao quadro macro orçamental para os próximos quatro anos, atingimos o objectivo de médio prazo de défice estrutural de 0,5 pontos percentuais já em 2016.” Mais à frente garante-se que quanto “ao procedimento de défice excessivo, ou seja, a partir de 2016 poderemos beneficiar das cláusulas de flexibilidade, que são de dois tipos – reformas estruturais e investimento”.

Fiquei feliz e contente com estas boas notícias. Em seguida fui procurar mais informações no documento do PS. O grupo de trabalho garante que o “cenário macroeconómico tem como objectivo a avaliação do impacto de um conjunto de medidas de política económica na economia portuguesa.” Aborda depois um conjunto de temas em torno das referidas expressões e siglas, tais como “redução da taxa”, “receita fiscal”, “taxa de poupança”, “consolidação da derrama estadual”, “reversão dos cortes salariais no sector público”, muitos cálculos e uma imensidade de fórmulas e de números.

Ficamos a saber que se trata apenas de documentos de estratégia orçamental. Ou seja, de fórmulas e cálculos para gerir o dinheiro dos impostos. Ou, dito de outra forma, para saber como orientar e administrar a riqueza que produzimos. Naturalmente que, se não houver riqueza, isto é crescimento, recorre-se a mais impostos. Esta é, compreendo, uma tarefa difícil que só os economistas conseguem gerir. Mas o que não compreendo é a razão pela qual estes documentos não contêm, obrigatoriamente, uma fórmula para aumentar a riqueza. O mesmo é dizer a produtividade, mas também como melhorar a nossa indústria, a nossa economia, a agricultura, a ciência, a educação. Que produtos deve ou não produzir a nossa agricultura? Em que sentido devemos orientar o nosso sistema educativo para formar melhores técnicos e melhores profissionais? Que opções estratégicas devemos adoptar, nos próximos anos, para que a investigação esteja ao serviço do país?

Sobre isto, os documentos dizem nada. Muitas contas, isso sim. Mas de merceeiro. No final, todas terão um bom resultado. Só não nos dizem, e deveriam dizê-lo, como fabricar a mercearia.

António Bárbolo Alves
Miranda do Douro, 5 de Maio de 2015

Crónica dos doutores e dos pedreiros
Quinta-feira, Abril 9, 2015

Aqui há uns meses o país acordou abespinhado com as declarações da chanceler alemã, Angela Merkel, proferidas durante uma intervenção numa reunião com a confederação das associações patronais alemã, em que a chanceler defendia as vantagens do ensino vocacional e, segundo a qual, Portugal teria um excesso de licenciados. O ministro da Educação, Nuno Crato, os reitores e presidentes dos politécnicos, levantaram-se em coro contra estas afirmações. Alguns jornais e sobretudo as redes sociais aumentaram o eco e as afirmações da chanceler transformaram-se em palavras ofensivas contra um país cansado e esmagado pela austeridade.

É verdade que Portugal, segundo os dados do Eurostat, está longe da média europeia em número de licenciados: 17,6%. Na Irlanda, 36,3% da população tem estudos superiores, mas a média europeia é de 25,3% e a própria Alemanha fica ligeiramente aquém com 25,1%.

Mas a realidade portuguesa é bem mais complexa e não pode ser resumida a estes números. Naturalmente que a grande chuva de críticas só podia vir das instituições de ensino superior. Eles sabem que, sem alunos, não podem sobreviver. Por isso, o número de 17,6% de licenciados serve que nem uma luva para alimentar este discurso. Vamos então a outros números e a outros factos.

Portugal tem 121 instituições de ensino superior, o rácio mais elevado da Europa: 12 instituições de ensino superior por cada milhão de habitantes.

A Finlândia, símbolo da qualidade do ensino, só tem 8 por cada milhão de habitantes. A Espanha, com quase o quíntuplo da nossa população, só tem 105 universidades ou politécnicos. A Grécia, com os mesmos 10 milhões de habitantes que Portugal, só tem 38 instituições de ensino superior.

Em França, um relatório de 2009, do “cercle des économistes” reflectia sobre a necessidade de clarificar a missão das universidades, uma vez que “as noventa universidades que existem actualmente em França não podem ter o mesmo lugar e exercer as mesmas funções.” O relatório acrescenta que a existência de um número tão elevado de universidades é, naturalmente, “uma aberração que só se explica pela impotência dos sucessivos ministérios face à pressão dos eleitos, acentuada pela deriva da descentralização”. A conclusão do mesmo “círculo” é que a França não deveria ter mais de uma trintena de universidades, capazes de cobrir o conjunto do território, propondo igualmente três níveis de diferenciação, para evitar a repetição de cursos e de missão.

É sabido que o sistema de ensino superior francês inclui também as “grandes écoles”, que são cerca de três dezenas, mas com os responsáveis a dizerem também que não há lugar para todos. Seja como for, é inegável que Portugal tem universidades, politécnicos e cursos a mais.

Mas a questão do ensino e da formação, em Portugal, não pode passar, exclusivamente, pela discussão do número de instituições de ensino superior. É preciso reconhecer o papel das Escolas Secundárias e outros estabelecimentos de ensino que ministram estes cursos, não apenas como intermediários e fornecedores de candidatos ao ensino superior, mas como parceiros e formadores integrais no processo educativo.

Sendo certo que é necessária uma refundação no sentido de redefinir objectivos, protegendo e apoiando as instituições necessárias, vivemos ainda na ilusão pós-revolucionária de que somos todos iguais e, como tal, todos temos o direito, inegável, de ser “doutores”. A realidade, porém, diz-nos que nem todos o podem ser e que nem todos o querem ser. Aquilo que falta mudar, no discurso individual e social, é que não é preciso ser “doutor” para ser um cidadão de sucesso, para desempenhar plenamente o seu papel na sociedade e para que este seja reconhecido como fundamental para a coesão social. Um pedreiro é tão importante como um “doutor”. E esta é a mudança fundamental a operar para que a aposta no ensino profissional seja bem sucedida.

Crónica do tempo
Sexta-feira, Setembro 12, 2014

Borges afirma que o tempo é a substância de que estamos feitos. E assim é. O corpo, com os seus órgãos, os seus fluidos e os seus ossos, muda, transforma-se com o tempo. Só o Homem vive o tempo. Podíamos afirmar que o Homem é o único animal finito, porque é o único que o sabe. Os outros seres vivos vivem completamente alheios ao tempo. Embora submetidos aos efeitos da temporalidade, desconhecem essa inexorável caducidade que os habita e os atravessa.

Mas o tempo é justamente uma das grandes conquistas da humanidade. O seu domínio, a possibilidade de o dividir, de o mensurar em segundos, minutos, horas, dias… veio contribuir para estabelecer uma nova sensação da temporalidade, assente na ideia de um continuum constante e irreversível.

Ora, durante séculos, o Homem viveu voltado para o passado. Em rigor, durante a maioria da sua existência, a humanidade viu e encontrou, no tempo e nos exemplos de antanho, a idade do ouro, os modelos a seguir, a razão da sua existência.

Do mundo clássico, greco-latino, vem-nos a noção de que o Homem tem apenas um papel a desempenhar, que constitui um dever perante os deuses. Este princípio e esta metáfora serão retomados pelos poetas e dramaturgos barrocos, que colocam o homem como uma marioneta, disposta no teatro do mundo, cujos fios são manipulados pelo grande demiurgo.

Nesta perspectiva, a inovação, que não seja uma reinvenção do passado, não tem lugar de existir. Por isso, a modernidade começou com o nascimento do novo como valor, uma vez que ele nem sempre foi um valor. No final do século XIX Rimbaud proclamava que era “necessário ser absolutamente moderno”. E assim explode, como negação do passado e paixão do presente, este princípio que constituiu uma das bases desta modernidade. Os modernos não procuravam o novo num presente voltado para o futuro, mas no presente enquanto presente. E também não acreditavam no dogma do progresso nem do desenvolvimento. Por isso, não foi necessário esperar muito tempo para que uma nova utopia viesse aniquilar esta visão que desconhecia o messianismo e nem sonhava que o moderno de hoje amanhã mesmo será ultrapassado e esquecido. Quando se generalizou a consciência histórica do tempo, a modernidade tornou-se sinónimo de decadência, pois a necessidade de renovação contínua é a obsolescência súbita. Assim nasceram as vanguardas, como uma modernidade radical, uma negação do passado, mas sobretudo como uma consciência histórica do futuro e a vontade de estar à frente no seu tempo. É esta a religião do futuro que atravessará muitos dos movimentos artísticos e literários do século XX. A crença no progresso, a certeza de que a ciência solucionaria todos os males do mundo, a vontade de estar à frente do seu tempo, são algumas das marcas desses movimentos estéticos e também políticos.

Mas também esta crença no futuro se viu lentamente corroída e questionada pela realidade que o século XX foi trazendo e semeando. Duas grandes guerras, desemprego, ameaças atómicas e terroristas, destruição da camada de ozono, degradação das condições de vida, descrença no futuro. Eis alguns dos fracassos com que as nossas sociedades ocidentais se debatem hoje em dia.

Por isso, não admira que o futuro seja uma miragem, o passado tenha caído em descrédito e o presente se queira esquecer. Imediatismo é a palavra-chave que veio substituir esses três conceitos. Já, aqui e agora. Talvez a facilidade e a velocidade com que circula a comunicação, o ritmo apressado da vida, estejam a contribuir para o aparecimento deste fenómeno. Mas o tempo continua a ser o grande mestre da reflexão. Sem ele não vejo como conseguiremos decifrar e integrar as ideias. Ou seja, compreender e mudar o mundo, que é o grande desafio de cada Homem e da Humanidade.

Crónica dos minutos letivos
Terça-feira, Julho 15, 2014

Foi recentemente divulgado o relatório TALIS (Teaching and Learning International Survey), da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico) sobre ensino, refletindo principalmente sobre os ambientes de aprendizagem nas escolas e as condições de trabalho dos docentes. Entre outras conclusões, afirma que a maioria dos professores na União Europeia, com Portugal à cabeça, se sente desvalorizada. Acrescenta o mesmo documento que os professores portugueses queixam do excesso de trabalho, de burocracia, passando demasiado tempo a tentar manter a disciplina na sala de aula em vez de ensinar. Só no Japão, na Malásia e em Singapura os professores têm mais horas de trabalho.

Nada de absolutamente novo para quem está no ensino. A degradação das condições de trabalho tem sido tão abrupta que quase nem dá tempo para parar e pensar. Para o leitor, deixo alguns dados que, estou certo, não estão contemplados no referido relatório e que, espero, poderão servir para melhor formar a sua opinião.

O horário normal de um professor é de 35 horas semanais (2100 minutos). Destes, diz a legislação, 1100 minutos correspondem a atividade lectiva. Os restantes 1000 deverão ser ocupados na realização de actividades educativas, na direcção de turma, no acompanhamento de alunos… Na prática o professor entra na escola ao primeiro tempo da manhã e sai ao último tempo da tarde.

Tomemos como exemplo o caso (real) de um professor que, com alguma sorte (sem qualquer ironia, pois não podemos esquecer os milhares de docentes sem emprego), leccionou sete turmas. Cada turma tem, em média, 25 alunos. Vejamos algumas das tarefas que teve que desempenhar ao longo do ano.

Reuniões de departamento: nove. Uma por mês, com a duração de aproximadamente duas horas = 1080 minutos.

Reuniões gerais: três. Com a duração de aproximadamente duas horas = 180 minutos = 306 minutos.

Reuniões de avaliação: vinte e uma. Uma por período, com a duração de aproximadamente duas horas = 2520 minutos.

Reuniões intercalares avaliação: catorze. Uma no início do ano e outra por alturas do Carnaval, com a duração de aproximadamente duas horas = 1680 minutos.

Elaboração de testes de avaliação: quarenta e dois. Dois por período, com a duração média de 30 minutos= 1764 minutos.

Correção de testes de avaliação: mil e cinquenta. Correspondes a duas provas por período, com a duração média de 10 minutos para cada teste: 10500 minutos.

Reuniões e atendimento a encarregados de educação: seis horas = 360 minutos.

Somados os minutos, porque o Ministério determina, de uma forma aviltante, que o horário do professor seja calculado ao minuto, chegamos ao total de 18210 minutos. Ou seja, 303 horas ou, se preferirem, 8,6 semanas (contando que cada semana é composta por 35 horas de trabalho). Quarenta e três dias úteis (dois meses!) utilizados na realização destas tarefas.

Deixemos ainda de fora o relatório de auto-avaliação, o plano de actividades da turma, o relatório do projecto de educação sexual, as cartas enviadas aos encarregados de educação para comunicação de faltas, as participações disciplinares, o registo de faltas, a elaboração de exames a nível de escola, os critérios de correcção dos ditos exames, as atas (e foram algumas) elaboradas ao longo do ano, a correcção de exames (caso tenha o “privilégio” de ser corretor), as ações de formação que frequentou em horário pós-laboral… E, naturalmente, a preparação das aulas, se o tempo sobrar para tal.

Naturalmente que muito deste trabalho é essencial para que a escola funcione e algum até faz parte da função de professor. Mas trata-se de um trabalho invisível e não reconhecido. Além dos mais, muitos destes minutos (para seguirmos a mesma unidade de medida), são gastos em casa, sem direito a qualquer compensação pela energia eléctrica, pelo papel, pelas simples esferográficas vermelhas que o professor é obrigado a comprar para corrigir as provas.

Por isso, quando ouvimos falar em rigor, exigência ou resultados, seria bom medir as palavras e fazer uma análise rigorosa da realidade. A escola, especialmente a pública, não pode ser uma fábrica nem um puro armazém. E os professores, meros agentes da burocracia ministerial, sem tempo, sem reconhecimento, sem meios para ensinar e muito menos para educar.

Crónica das arribas e do Sameiro
Terça-feira, Maio 13, 2014

Detive-me, por estes dias, repetidas vezes pelas Arribas do Douro, seduzido pelas cores primaveris, pelos aromas, pela policromia que a exuberância primaveril traz a este território muitas vezes inóspito, onde dominam as águias e os abutres. Mas, nesta altura do ano, após um Inverno tão generosamente pluvioso, tudo rejuvenesce, tudo se anima e floresce. Nos lugares mais inauditos surgem flores, cada qual mais bela e aromática. Depois, os tradicionais tomilhos, as giestas, as papoilas, as azinheiras, os zimbros… aproveitam a seiva primaveril e vestem-se de gala para saudar a renovação e consolarem-se após o longo período invernal.

É nestas viagens que a memória me leva ao encontro daqueles que mourejaram por estes arribados e também daqueles que, como eu, se deixaram apenas maravilhar por esta beleza indomada. Ao longo do Douro, milenar guardião destas fragas e despenhadeiros, viveram dezenas de pequenos grupos humanos, na civilização dos chamados castros, aproveitando as defesas naturais que as arribas lhes ofereciam. Era assim que essa paisagem se apresentava quando, há pouco mais de dois mil anos, os romanos aqui chegaram.

Estrabão, filósofo e geógrafo nascido em solo grego mas depois assimilado pelo Império Romano, na sua “Geografia” – uma obra que é uma autêntica enciclopédia do conhecimento geográfico desse tempo – chama a estes povos “bárbaros” e descreve-os como tendo falta de costumes civilizados, destacando ainda assim a sua ferocidade e a sua bravura. Outro escritor romano, um pouco mais próximo de nós, Plínio, o Velho, referindo-se a um dos povos que habitava esta região, os Zoelas, diz-nos que produziam um linho de muito boa qualidade, muito apreciado em Roma.

Ambas as descrições, percebidas à luz da nossa geografia e do nosso conhecimento, mostram a forma como o mundo romano olhava os povos que ocupavam a Lusitânia, uma percepção perfeitamente compreensível a tantos quilómetros de distância, sem os meios cartográficos modernos, mas sempre (como em tantos outros momentos da história dos povos), classificando os outros como incivilizados, rudes e brutos.

Mas as arribas trazem-me sobretudo à memória as descrições de Miguel de Unamuno que, por várias vezes, calcorreou esta região quer para visitar o seu amigo Guerra Junqueiro, em Freixo de Espada à Cinta, quer pelo prazer de descobrir as “palavras” e as “paisagens”. A obra “Arribes del Duero” é um texto publicado em 1905, embora os factos narrados remontem a finais do século XIX. As vistas que então teve das arribas do Douro produziram-lhe grande emoção:

“Finalmente, avistámos o Douro e com ele a paisagem dantesca (…). No alto, picões apontados que se assomam ao abismo, penedos e cristas serradas; ao longe, imensos entalhes que se encaixam de um lado a outro, formando uma garganta por cujo fundo corre o rio.”

Mas falar de Unamuno é também lembrar a sua obra “Por terras de Portugal e Espanha”, e a descrição que, em 1908, nos faz do Bom Jesus do Monte e do Sameiro, em Braga. E é também mergulhar nas recordações que esses locais lhe trazem da sua terra natal. Fiquemos com as palavras do escritor salmantino (embora nascido no País Basco) e deixemo-nos embalar pelos aromas primaveris num abraço entre o monte do Sameiro e as arribas do Douro:

“De Braga ao Bom Jesus – três quilómetros – vai-se de trâmuei a vapor que não poupa o fumo, e logo se sobe num funicular o elevador que poderá ter uns duzentos metros. O seu mérito consiste em que foi o primeiro elevador que se construiu na Península (…). Do Bom Jesus subi al Sameiro pelo atalho. Quando me encontrei no alto, fora das sombrias avenidas, entre carvalhos bravios que se levantavam espaçados num chão de fetos, carqueja e musgo e aqui e ali alguns penhascos, o meu coração respirou. Acreditei encontrar-me em cima de alguma das montanhas da minha terra basca, onde não chegaram ainda nem os hotéis nem os funiculares.”

Crónica de palavras inúteis
Quarta-feira, Março 12, 2014

São apenas palavras. Mas dentro delas abrigam-se conceitos. E também valores. Esta pequena lista mostra apenas algumas que foram de uso comum durante largas décadas e que, neste início do século XXI, caíram em desuso, passando a figurar no catálogo dos anacronismos.

Cortesia.
É uma virtude tão estranha que parece encontrar-se apenas nas ilustrações e nas histórias medievais. Talvez subsista também em algum quadro ou ilustração dos séculos passados. Nos dias de hoje esta manifestação de delicadeza, de gentileza e de afeto que se tem por outra pessoa, é algo anacrónico e quase sinónimo de hipocrisia. De igual modo, também o adjectivo “cortês” caiu em desuso, sendo substituído por “autêntico” que, geralmente, mais do que designar o que é verdadeiro, disfarça a descortesia.

Decência.
Ainda que os dicionários a definam como a harmonia no porte, nas maneiras e na linguagem, e a associem ao decoro e ao asseio, também esteve sempre ligada à moral, e não exclusivamente a moral sexual. Uma pessoa decente era aquela que tinha uma linha de conduta, que era incapaz de cometer uma traição e que demonstrava uma coerência sem fissuras entre o que dizia e o que fazia. Na nossa sociedade, pejada de malabaristas impunes à corrupção, são muito poucos os que a proclamam e muito menos aqueles que a exigem.

Esforço.
Na época da velocidade rápida e furiosa, em que tudo se pode conseguir com um clique, desde o negócio mais lucrativo, até uma nova “amizade” instantânea com um(a) desconhecido(a), investir energia constante para conseguir um fim desejado parece ir no sentido inverso e tornar-se peça de museu. Não sei o que quero, mas quero-o já. Eis a frase que norteia a nossa sociedade de hiperconsumo, em que consumir é o principal entretenimento para quem pode fazê-lo.

Humildade.
Na escala do conhecimento, a ilusão de saber representa um estádio anterior ao da ignorância. Foi nesse erro que a humanidade viveu, durante séculos, convencida que a terra era o centro do mundo. Hoje em dia, é a facilidade do acesso à informação que nos coloca perante a ilusão do conhecimento. Dentro dela, são as gerações mais novas as mais frágeis, mais iludidas e, por conseguinte, as menos humildes e modestas. A arrogância do desconhecimento é servida em pratos disfarçados de urbanidade, que são os que se mais vendem e se compram.

Modéstia.
Segundo os dicionários, está relacionada com a humildade e com a consideração voltada sobretudo para si próprio. Mas a palavra de ordem do nosso tempo é falar muito de si, e se possível em público. Chama-se a isto vender-se bem e é uma das atitudes mais apreciadas e valorizadas no nosso tempo.

Recato.
Trata-se de uma atitude de modesta reserva, relacionada com a honestidade, todas qualidades que, nestes tempos, estão em franco retrocesso. Numa sociedade global em que o sincericídio mais tosco é visto como uma virtude e o cinismo como uma das formas de ser veraz, o recato cheira a naftalina e talvez possa ser encontrado nos farrapos dos fundos de uma mala abandonada de uma casa deserta.

Respeito.
Definido como um sentimento que nos impede de fazer coisas desagradáveis a alguém, esta verdadeira antiqualha era algo que antigamente se tinha perante o próximo, se exigia aos outros e se guardava consigo próprio. Tudo isto foi parar ao caixote do lixo, passando a ser considerado no seu conjunto como uma solenidade decorativa. A falta de respeito é um fenómeno tão generalizado que chega a considerar-se como uma forma suprema de frontalidade e honestidade.

Vergonha.
Numa sociedade em que o reality se converteu no formato estético (?) mais popular, em que brincar de ator ou atriz porno num videozito que alguém mais perverso colocou na internet é algo banal e quotidiano, e em que a intimidade faz parte do espetáculo do mundo, esse “pudor” que causa “rubor nas faces causado pelo pejo”, só pode provocar nostalgia por algo que já desapareceu.

Mas nem por brincadeira se pense que os tempos passados foram melhores. Contudo, a decadência de certos termos, configura, às vezes, um grave sintoma qu nos convida, pelo menos, a pensar.

Crónica do provincianismo*
Segunda-feira, Janeiro 13, 2014

É um bombardeamento constante, mas também uma dependência que pode levar à “ansiedade de informação”. Por isso, se quisermos manter-nos verdadeiramente informados, temos de ser capazes de separar o fútil do relevante, o essencial do supérfluo ou mesmo pernicioso. Este é, sem dúvida, um dos desafios do nosso tempo, proporcionado pelos avanços tecnológicos em que a informação, acelerada pela internet, vem ter connosco através dos mais diferentes meios. Analisar, avaliar, selecionar bem e escolher são procedimentos essenciais se não queremos deixar-nos arrastar pela chamada bolha de informação.

É neste processo de selecção, que procuro levar a cabo, que me tenho dado conta, nos últimos tempos, da quantidade de informação – amalgamada com os mais diferentes géneros jornalísticos – cujo verdadeiro objetivo não é o de informar mas sim o de elogiar e bajular. Este princípio parece-me tão enraizado na nossa sociedade que, pelos vistos, ninguém se espanta com a sua existência ou, pelo menos, não se veem indícios de protestos. E é a este propósito que me lembro também da qualificação dada por Antero de Quental quando se referia a António Feliciano de Castilho e a todos aqueles que, no seu entorno, passavam o tempo a elogiar-se mutuamente, para prestígio de uns e outros: a escola do elogio mútuo. Apesar da revolução cultural que a chamada “Geração de 70” protagonizou no Portugal de finais do século XIX, os princípios racionalistas e positivistas que os nortearam parecem alheados dos lugares onde a referida escola perdura na prosa inchada e balofa, disfarçada de informação e de opinião.

E é também nesta linha que não posso deixar de recordar outro dos membros da referida Geração, Eça de Queirós, também ele um crítico mordaz e atento da sociedade portuguesa novecentista. A retórica oca e empolada de Rufino, o “chique a valer” de Dâmaso Salcede, a tacanhez intelectual de Sousa Neto – personagens de “Os Maias” – são algumas das figuras que encarnam os vícios e defeitos que tolhiam o Portugal de então. De uma forma ou de outra, todos eles vivem também à sombra de outras personagens, parasitas e dependentes da bajulação, que os torna ainda mais covardes, mesquinhos e sem dignidade. De todos eles se diz também que são provincianos, algo que, com excepção de Rufino, o deputado de Monção, não se aplica à sua origem geográfica. Sobra, por isso, o significado de “tacanho” e de “mesquinho”, que se adequa claramente às características psicológicas de todos eles. Aliás, o contraponto destes princípios está bem presente em Jacinto, de “A cidade e as serras”, o Príncipe de Tormes, apologista da civilização, da ciência e da racionalização, que o protagonista encontra e descobre no campo, na província, junto das suas raízes históricas e familiares.

Por isso, a revolução iniciada pela Geração de 70 está por implementar. As ideias inovadoras, racionalistas e positivistas, provindas da cultura europeia, de Hegel, de Comte e de Proudhon, não são mais do que ideias vagas que se estudam nas escolas e se discutem nas salas de aula. E a verdade é que continuamos a ser um país atulhado de provincianos e de provincianismos. Mas a sua verdadeira essência não vem das “províncias”. Está nos interesses mesquinhos e corporativistas, está nas escolas do elogio mútuo, perceptível nas louvaminhas que pululam do universo mediático, camufladas em notícias, em artigos de opinião, em entrevistas, em resenhas e, quem sabe, em muitas crónicas (aparentemente) anódinas.

António Bárbolo Alves
Miranda do Douro, 6 de janeiro de 2014

* – Provincianismo subst. masc. 1. Palavra ou locução corrente só em alguma província ou localidade; 2. Usos ou maneiras de provinciano.
in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, https://www.priberam.pt/dlpo/provincianismo [consultado em 06-01-2014]

Crónica de um país aos retalhos
Quinta-feira, Novembro 14, 2013

As recentes eleições autárquicas vieram lembrar, se necessidade houvesse, a manta de retalhos que é o nosso país. Trezentos e oito concelhos, a que corresponde o mesmo número de Câmaras Municipais e outras tantas Assembleias Municipais. Para além disso há ainda 3091 freguesias, que ficaram após a pseudorreforma administrativa de 2013. Dirão alguns que esta divisão político-administrativa e estes atos eleitorais são a essência da nossa democracia. Concordo. Mas só em parte.

É verdade que o chamado poder autárquico é aquele que está mais perto das populações e têm sido as autarquias a resolver, de maneira sólida e eficiente, muitos dos problemas locais. É inquestionável o seu esforço e o empenhamento na criação de infraestruturas básicas indispensáveis à criação de condições de vida. Estradas, redes de abastecimento domiciliário de águas, esgotos, ETARs, piscinas, pavilhões, bibliotecas, casas de cultura, polidesportivos,… são hoje uma realidade por esse país fora.

Por outro lado, os concelhos são a subdivisão territorial e identitária mais consistente que o país teve ao longo dos seus 900 anos de história. Com origem nas cartas de foral que os reis atribuíam a certas terras e aos territórios limítrofes, o tipo de administração dos concelhos foi-se modificando substancialmente ao longo do tempo. Criaram-se uns, extinguiram-se outros, variando as suas competências e, em alguns, modificando o território. Porém, os concelhos permaneceram. Primeiro, sujeitos a leis particulares, em obediência aos usos locais e à vontade régia expressa no foral da terra. Depois, sujeitos a leis nacionais gerais a partir do liberalismo oitocentista. E, mais recentemente, com a constituição de 1976, e o novo poder local democrático, orientados para os “interesses próprios das populações respectivas”.

Mas a verdadeira questão é se esta divisão político-administrativa continua a ter a mesma validade que teve ao longo dos tempos. Claramente não. Para além da litoralização demo-económica, o país assiste agora à morte lenta de muitos concelhos, espoliados de muitos serviços que lhe eram quase inerentes: um tribunal, um centro de saúde, uma repartição de finanças, entre outros. Há quem argumente que o encerramento destes serviços não é solução e ainda contribui mais para a desertificação do interior. Continuaremos, por isso, a ouvir muitos Presidentes de Câmara, ofendidíssimos, a reclamarem contra o seu encerramento. A verdade é que os municípios são corresponsáveis pelo estado em que nos encontramos, pela desertificação do interior e também pelos referidos encerramentos. A falta de ideias é tão deplorável que mais não vimos, até hoje, do que a atribuição de subsídios para os recém-nascidos, ou a vinda de emigrantes sem o cuidado de lhes criar condições para se fixarem. Os milhões de euros gastos nas últimas décadas pouco ou nada contribuíram para a coesão económica. E esta, muitas vezes esquecida, impõe que cada euro gasto tenha um retorno. E, além disso, que se olhe para os orçamentos como dinheiro nosso, dos contribuintes, e não como oriundo de um poço sem fundo, seja o Estado imaginário ou a longínqua Bruxelas ou a União Europeia.

A verdade é que muito do dinheiro gasto nos municípios serve para alimentar os partidos políticos, dando emprego aos amigos que são nomeados, não pela sua competência, mas pela pertença a este ou àquele partido. É assim que os concelhos alimentam o clientelismo partidário, naquilo que ele tem de mais servil. Por isso, a extinção ou fusão de alguns concelhos não é possível porque, dessa forma, as “concelhias” ficariam de mãos a abanar, órfãs de poder ou sem ambição de chegar a ele. É verdade que os orçamentos do betão encheram este país de piscinas e de casas de cultura. Mas também é verdade que nunca a cultura esteve tão sem abrigo como agora, que o país está cheio de piscinas fechadas (por falta de dinheiro para pagar a fatura do aquecimento), que há muitos auditórios onde nada se vê e pouco se ouve, que há também muitos polidesportivos e pavilhões multiusos sem uso nem desporto.
O famigerado “memorando da troika” propunha no seu ponto 3.44 que “até julho de 2012”, o governo desenvolvesse “um plano de consolidação para reorganizar e reduzir significativamente o número” de municípios e freguesias. Nas freguesias, mais frágeis, cortou-se. Nos municípios ninguém teve a coragem de mexer. E ainda bem. Até porque aquilo que se impõe não é uma reforma apressada nem, necessariamente, a extinção de concelhos. É a fusão de serviços, a reorganização político-administrativa, a reforma do sistema eleitoral, para que todos os concelhos ganhem dimensão, para que não se desperdicem meios e para que o país não funcione as várias velocidades ou, como está a acontecer, para que não estagne ou retroceda.

António Bárbolo Alves
Miranda do Douro, 29 de outubro de 2013

Crónica da deseducação
Terça-feira, Julho 9, 2013

São muitos e variados os regimes políticos e de governo. São ainda mais os povos que se deixam governar. No caso português, o nome do regime é, claramente, de governação à vista. Um estilo de governação à bolina e à vista desarmada. O povo é um misto de crédulo e de masoquista, que prefere engolir sem pestanejar a informação pisada e repisada das televisões, da imprensa e das máquinas partidárias, a encenação do espetáculo com figurantes e tudo. Mesmo refilando nas antenas abertas, qualquer coisa me diz que os portugueses preferem esta linguagem do poder do que pensar pela sua própria cabeça, confiar e pensar pelos seus próprios neurónios.

Os últimos tempos, no caso concreto da Educação, têm sido propícios à demonstração prática desta teoria e desta forma de desgovernar. É sabido e reconhecido que um dos problemas mais graves que afeta o nosso sistema de ensino é a profusão de leis, de estatutos, de mudanças e devaneios ao sabor não se sabe bem de quê, embora todos suspeitemos que os ciclos políticos e interesses corporativos, leia-se partidários, têm dado a sua mãozinha nesta desgovernação que dura há décadas. Não há ministro que se preze que não apresente uma Reforma, que não proponha um novo Estatuto, seja para os alunos, seja para os docentes. Aproveitam igualmente para alterar os currículos, os programas, as disciplinas, a carga horária, etc. etc. A educação, que devia ter um rumo certo e uma coluna vertebral, quase inalterável, está sujeita a uma taxa de variabilidade tão constante que os agentes não têm tempo nem para a compreender, nem para assimilar as mudanças constantes quanto mais para as pôr em prática. É como se na educação dos nossos filhos alterássemos os princípios e as regras todos os dois ou três anos:

– Agora, como já tens cinco anos, comes com o garfo e com a faca!
– A partir dos sete anos comes com as mãos!
– A partir dos nove sentas-te na cadeira!
– Dos dez aos doze deitas-te na mesa!
– …

De lei em lei, de estatuto em estatuto, de diploma em diploma, de despacho em despacho, navegamos ao sabor da corrente, no rumo incerto de quem não sabe onde quer chegar. Brevemente virá outro governo, mudarão os atores e mudarão as leis. E os alunos? E a educação?

Outro exemplo elucidativo desta forma de desgoverno são algumas teorias educativas, propagadas pelos paladinos do chamado “eduquês” – que ultimamente, de forma estranha, têm andando bastante silenciosos –baseadas em dois princípios fundamentais tornados dogma: os superiores interesses da criança e a necessidade da aprendizagem sem esforço, lúdica e divertida.

Em nome do primeiro – alimentado e amplificado por uma sociedade sedenta de direitos mas a viver na ilusão democrática – floresceu a ideia de que os alunos têm muitos direitos e poucos ou nenhum dever. Em rigor, creio que nunca fomos capazes de passar da leitura dos primeiros artigos que, de uma forma ou de outra, estão presentes em muitas leis fundamentais: “Todos os homens nascem livres e iguais em dignidade e direitos” (Declaração dos direitos do homem). A deformação atingiu um nível tal que a ilusão da igualdade passa, nas nossas escolas, pela ideia de que alunos e professores têm os mesmos direitos e deveres: se eu não faço, dizem alguns professores, os alunos também não podem fazer.

O segundo pilar desta doutrina reside, como disse, na ideia de que é possível aprender sem esforço e sempre na brincadeira. Por isso, a sala de aula não é um local de trabalho mas um recreio constante. Na esfera deste princípio circulam outras teorias, de cariz comportamental e behaviorista, em que o reforço positivo, tal como a dicotomia entre direitos e deveres, fez esquecer a existência e a necessidade de reforços negativos. E é deste modo que estamos a educar as novas gerações. Esquecendo o poder do “não” como forma de ativar áreas cerebrais que, por serem esquecidas, estão condenadas a definhar.

A paz regressou às escolas, lê-se em alguns jornais. Até setembro, acrescentam. Também aqui, à vista desarmada, se antevê que o acordo parece ter servido apenas para cumprir calendário.

Miranda do Douro, 29 de julho de 2013

Crónica do futuro
Segunda-feira, Maio 6, 2013

O presente é já um passado do futuro.
Fernando Pessoa

No final do século XIX, na ressaca do Ultimatum inglês, reagindo contra o jugo britânico, escrevia Guerra Junqueiro o seu famoso Finis Patriae, um poema em que, num cenário dramático, desfilam personagens simbólicas e tipos sociais, “pocilgas de operários”, “ escolas em ruína”, “condenados”, “estátuas de heróis”, “monumentos arrasados”, pronunciando um longo requisitório, mostrando que tudo se desmantelava e apenas se ouvia a “alma da Pátria a bradar moribunda”.

“Que é da nação? – Morreu na história”, perguntava e respondia o poeta de Freixo de Espada à Cinta. Mas, apesar do pessimismo pungente, deixava, no final do poema, um último apelo à juventude para que desse a vida pelo ressurgimento da pátria: “Ó Mocidade heroica e bela, morre a cantar!… morre… porque ela reviverá!”

Mais de um século depois, no seu mais recente romance, Implosão, Nuno Júdice parece retomar o tema de Junqueiro, agora impulsionado pela situação portuguesa e europeia, no limite do aceitável para a maioria dos cidadãos. Depois de um tempo de euforia, a crise caiu-nos em cima da cabeça, de forma súbita e, parece, inesperada. A Europa, que julgávamos ser a nossa tábua de salvação, vacila, hesita e, sobretudo, parece abandonar-nos, quando nós nos entregamos a ela depois de séculos percorrendo e descobrindo o mundo, entregando-lhe justamente muitas das chaves dessas descobertas.

A verdade é que os europeus se conhecem muito mal. A grande Europa só existiu como tal durante o Império Romano, ou seja, antes da Europa. Mas o mito, alimentado pelas guerras entre romanos e cartagineses, ampliado pela paixão do oriente nas figuras de Eneias e de Cleópatra, tem uma história muito antiga. E é esse passado que se reveste de diferentes formas, regressando ciclicamente, através desses mitos que parecem eternos, rejuvenescendo, sempre à espera que alguém os reinterprete e lhes dê nova forma. Neste sentido, a história da Europa é uma espécie de retorno cíclico e contínuo. Por isso, a crise atual não é apenas provocada por razões objetivas, pelo ultraliberalismo ou pela falta de solidariedade europeia. É algo bem mais profundo. A Europa, una e solidária, parece desfazer-se como um puzzle. E, no caso português e ibérico, à falta de rumo, acresce uma desconfiança secular em relação às “grandes nações” que, ao longo do tempo, nos impuseram o seu domínio quer através das armas quer através da cultura.

Outra voz europeia, conceituada, é a do alemão Jürgen Habermas que, nos finais do séculos XX, no seu ensaio intitulado Depois do Estado-nação, escrevia que, no contexto europeu, não seria possível levar a cabo reformas ambiciosas no interior das fronteiras de um só país. Elas só poderiam ser postas em prática se houvesse coordenação, por meio de acordos e procedimentos adotados a um nível supra-nacional. A unidade europeia, acrescenta o mesmo filósofo, só se poderá construir se houver uma verdadeira solidariedade entre os diferentes povos e países. Além disso, as funções do Estado social só poderão ser preenchidas se se transferirem para unidades políticas que, de alguma forma, se encontram ao nível de uma economia transnacional. Ou seja, concretiza Habermas, quando um cidadão contribuinte de um país “mais rico” se sentir igualmente responsável pela reforma do seu concidadão e também pela de outro de um país “mais pobre”.

Ora, como se vê, a militância por uma Europa solidária parece ter esbarrado em outros interesses que nos conduziram à situação em que vivemos. Por isso, a atualidade da obra de Nuno Júdice supera a democracia cosmopolita defendida por Habermas. “A ditadura, escreve Júdice, é hoje muito mais maquiavélica porque não se apresenta como tal, vivemos todos convencidos de que somos livres, e todos os dias nos impõem mais uma coisa contra nós.”

Que jugo é este que parece não ter um rosto como o que Junqueiro nos apresentava como claramente visto? De onde vem e quem no-lo impõe? Ao desafio do conhecimento, junta-se o de saber se esse mesmo conhecimento pode ser partilhado e estar acessível a todos. E também aqui, a Europa, na sua profunda tradição, socrática e racionalista, responde que os homens, quando tiveram a possibilidade de aceder aos conhecimentos mais difíceis e secretos, o conseguiram fazer. E fizeram-no de forma solidária, isto é, partilhando e difundindo o saber. E este é mais um dos desafios do futuro: a verdadeira liberdade ou o simulacro da liberdade. Caso contrário, corremos o risco de que o famoso Big Brother de George Orwell se torne cada vez mais uma realidade.

Crónica da renúncia
Terça-feira, Março 12, 2013

A recente, inaudita e quase inédita renúncia do Papa surpreendeu o mundo inteiro. Por isso, tem feito correr muita tinta e levantar muitos boatos acerca deste facto. Para alguns, a mesma foi provocada pelos recentes escândalos, cristalizados no chamado caso “vatileaks”, pela divulgação de centenas de documentos supostamente roubados pelo mordomo do Papa, implicando alguns dos altos cargos do Vaticano e questionando a credibilidade da instituição religiosa. Para outros, esta resignação é algo que Bento XVI há muito tinha pensado, como se pode ler no livro-entrevista Luz do mundo, publicado em 2010, no qual assegura que se a sua saúde o impedisse de exercer o seu ministério não duvidaria em renunciar ao papado. Entre outras teorias a circular há ainda quem defenda que foram a pedofilia, a corrupção e muitos outros “pecados”, vindos do interior da igreja, que fizeram com que o Papa não resistisse à pressão e não se sentisse com forças para os enfrentar e combater. Deste modo, repetiu o gesto de Gregório XII que, em 1415, resignou, para tentar pôr fim ao Grande Cisma do Ocidente, o conflito dividiu a igreja Católica durante quatro décadas.

Estas são, no imediato, algumas das causas que podemos enumerar e vislumbrar. Mas, sem outros dados a não ser aqueles que vamos ouvindo e lendo, creio que só Clio, a deusa da História, poderá responder com mais acerto às nossas dúvidas sobre este gesto de Bento XVI: revolucionário, covarde ou um acto frontal de denúncia?

Por outro lado, aquilo que podemos efectivamente ver e medir é o impacto, as consequências e as ilações que nos são permitidas tirar. Em primeiro lugar, são de referir as inúmeras profecias que, depois desta renúncia, apregoam o fim da humanidade, logo após poucos meses em que muitos se preparavam para o fim do mundo, de cordo com a profecia Maia. Esta decisão estaria assim de acordo com as predições de Nostradamus e de Malaquias, entre outros, que profetizaram a chegada do juízo final após o fim dos papas. Mas, também aqui, precisamos que o fio do tempo seja fiado para saber se se tais vaticínios se confirmam ou não.

Aquilo que, desde já, nos é permitido medir e analisar, com um pouco mais de rigor, são as conclusões pessoais, as ilações que podemos ver e tirar.

Neste momento, não há dúvida de que tal atitude tem de ser vista como algo que resgata e enobrece quer a figura do para que a do teólogo Joseph Ratzinger. Não podemos esquecer que o mesmo foi acusado de muitos pecados e defeitos, a começar por aquele de ter manipulado os cardeais do conclave que o elegeram. Mas foi, curiosamente, o único Papa que abandonou o poder! Na vida de qualquer pessoa, um só gesto pode condená-la ou resgatá-la.

E é também um gesto que o honra e o enobrece. E sê-lo-á ainda mais se se vier a verificar que o seu anúncio de “continuar a servir a igreja no silêncio e na oração”, que começou já antes do conclave, deixa, de facto, aos cardeais a total liberdade para escolher, num momento delicado para a Igreja, sem que ele actue na sombra para manipular as decisões. Não será fácil, uma vez que é algo quase inédito num conclave que elegerá o sucessor de Pedro com o seu antecessor em vida. Sem contr que Bento XVI, com o seu gesto de lealdade à Igreja, já adquiriu uma áurea de santidade que poderia, querendo, usar para influenciar os cardeais.

Por outro lado, não podemos esquecer que o Papa é igualmente Chefe de Estado. Um poder terreno, sem importância, dizem alguns, mas simbolicamente muito relevante, sem sombra dúvida. E, nesta matéria, a abdicação é também um enorme gesto de desprendimento que deveria, a meu ver, servir de exemplo para muitos outros, pequenos e grandes poderes terrenos. Está para chegar aquele que, de livre e espontânea vontade, dirá, abdico porque não me sinto com mais forças para continuar nesse cargo, nem me parece que tenha mais ideias claras e exequíveis capazes de dar um sentido diferente, para melhor, ao meu país ou à minha terra.

Esperemos por esse dia!

Miranda do Douro, 2 de março de 2013

Crónica dos meus livros
Terça-feira, Janeiro 8, 2013

Fiz-me leitor aos onze ou doze anos. Nas férias grandes, alguém me ofereceu uma pequena coleção de livros de bolso intitulada “Ardina”. Deveriam ser cerca de uma dúzia de títulos, em formato de bolso, livros de aventuras que li e reli nesse verão. Recordo ainda e apenas alguns títulos: “Fângio, ás do volante”; “Polícia montada”; “Naufraguei no Andrea Doria” … As obras, em papel, desapareceram, e nunca mais pude encontrá-las. Mas ficou a memória que, creio, me abriu essa porta mágica que só a leitura pode facultar.

Ora, um destes dias olhava eu para as estantes da minha biblioteca, sempre a precisar de uma boa arrumadela, e dei por mim a pensar nas razões pelas quais alguns desses livros fazem parte da minha história como leitor. Mas sobretudo nos motivos porque me deixei seduzir por alguns, lendo-os e relendo-os, e também porque é que outros ainda continuam quase fechados, resistindo a todas as tentativas de decifração. Deixando de lado os clássicos até porque, como diria Ítalo Calvino, estes não se leem, releem-se, comecei a conjeturar algumas possibilidades de resposta às minhas interrogações.

Em primeiro lugar, penso que alguns livros começaram por me seduzir pelo título. E continuam a fazê-lo, cada vez que os meus olhos passam pela lombada e “releio” o seu interior. Eis alguns exemplos: “A última morte do coronel santiago”, de Luís Cardoso; “As quatro fugas de Manuel”, de Jesús Díaz; “Fantasia para dois coronéis e uma piscina”, de Mário de Carvalho; “História de um homem que comeu a sua morte”, de Ascêncio de Freitas; “O ano em que Zumbi tomou o rio”, de José Eduardo Agualusa; “A noite e o riso”, de Nuno Bragança … Porém, neste capítulo, o mestre dos mestres é, sem dúvida, António Lobo Antunes. Desde “Os cus de Judas”, passando pela “Memória de elefante”, “A explicação dos pássaros”, “Exortação dos crocodilos”, até aos mais recentes “O meu nome é legião” ou “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar?”, cada título é um enigma e uma chave que nos convida a entrar pela harmonia das palavras e pelo universo da sua arquitetura romanesca.

Noutra estratégia de sedução colocaria todos os livros que fui descobrindo, por mera curiosidade, através, do conselho de um amigo, por uma crítica num jornal, revista ou outro meio de comunicação, por uma conversa ou por uma oferta do autor… Enfim, foram estas mais algumas das portas de entrada para muitas obras que hoje fazem parte do meu património de leitor. Alguns exemplos: “No jardim das paixões extintas”, de Álvaro Guerra; “Os leopardos de Kafka”, de Moacyr Scliar; “O périplo de Baldassare”, de Amin Maalouf, mas também as obras de Lídia Jorge, de Mia Couto, de Gonzalo Torrente Ballester, de Ramón J. Sender, de José Saramago, de Camilo José Cela, de Miguel de Unamuno, de Jorge Luis Borges ou de Miguel Delibes.

Mas os melhores livros (e não falo de autores) continuam a ser aqueles cujas primeiras linhas e parágrafos ficam para sempre guardadas na nossa memória. O ímpeto da abertura é tão forte e arrebatador que nos prende até ao final e nunca mais esquece. São alguns os títulos que me conquistaram desde as primeiras linhas. De entre eles destaco apenas dois: “Crónica de uma morte anunciada”, de Gabriel Garcia Márquez e “Trabalhos e paixões de Benito Prada”, de Fernando Assis Pacheco. Embora separados no espaço e no tempo, ambas as histórias seduzem pelo absurdo do humor negro, pelo espírito de vingança focalizado no primitivo e despropositado objetivo de assassinar quem, supostamente, tirou a honra a uma mulher e a uma família. Fiquemos com o início da obra de Assis Pacheco: “Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé. O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado”.

Numa prateleira à parte ficam os meus mestres da palavra e da poesia: Fernando Pessoa, Miguel Torga, Eugénio de Andrade, César Vallejo, Joaquim Pessoa, Sophia de Mello Breyner, Eugénio de Andrade, António Ramos Rosa… Com estes e muitos outros queria terminar o ano de 2012. Agradecendo aos meus livros terem contribuído para abrir espaços e para rasgar horizontes num futuro nimbado pelos sonhos, criando, (re)criando, concedendo-me no tempo cronológico instantes únicos, momentos fulgurantes e inesquecíveis.

Miranda do Douro, 31 de dezembro de 2013

Crónica da ausência e da saudade
Terça-feira, Novembro 6, 2012

Descobri, recentemente, um artista, pintor, cuja particularidade é pegar em quadros célebres apagando todas as personagens que nela figuram. É assim que nos aparece a “Última Ceia”, de Leonardo Da Vinci ou “A Anunciação” de Fra Angelico, revista e (re)pintada por este artista húngaro de nome Bence Hadju, mas sem nenhuma das figuras humanas que figuram no original. Apenas o invólucro. Destas obras, diz o artista, despojadas de todo e qualquer vestígio humano, transparecem apenas os adornos, o contexto, as perspectivas, ou seja, tudo o que antes se escondia no plano de fundo do quadro. Imaginem, pois, a “Última Ceia” sem Cristo, sem os Apóstolos, apenas com o cenário de fundo, os instrumentos para a Ceia, mas sem os comensais.

Esta arte da ausência, do muro em branco, deixa em mim sentimentos contraditórios, ideias que tremulam na minha mente e para as quais não tenho respostas prontas nem mesmo em composição. O certo é que a visualização destes quadros me convidou a revisitar velhos temas que há muito andavam arredados dos meus pensamentos, nomeadamente a diferença entre a ausência e a saudade. E, simultaneamente, aquilo que fomos e somos, como berço e pátria da saudade, e como nação que, desde o seu nascimento se recusou a ser pequena, tornando-se ausente para não se convencer de que se tornara numa grande nação.

Da saudade, de tão habituados que estamos a viver dela e com ela, dizemos, muitas vezes, que é indefinível e intraduzível. E nesta fuga constante, mais não fazemos do que fugir de cena, camuflados na ausência, prolongando a nossa existência na evasão constante e interminável. Bem que tentou Almeida Garrett definir a nossa saudade, como “gosto amargo de infelizes, delicioso pungir de acerbo espinho”. Mas esta “deliciosa” contradição pouco ou nada diz sobre a própria saudade, isto é, sobre o porquê deste “gosto amargo” e deste sofrimento.

Saudade e ausência são filhas do mesmo parto, mas não são gémeas nem irmãs. Diria que é um hibridismo desconforme ou uma alquimia que não se fez completa. A ausência não traz saudade, gera o esquecimento, o quotidiano enterra os ausentes, dilui as lembranças, resigna as páginas a uma velha biblioteca que nunca mais queremos abrir. A ausência deixa as páginas amareladas, cria mofo. A saudade é uma presença distante, mas com esperança no regresso, com a alegria da procura, plantando em cada dia a flor do reencontro, na certeza de que a espera é apenas mais uma etapa.

O nosso passado histórico comum é um profundo monólogo carente de interlocutor e de destinatário. Mas é sobretudo um imenso desespero humanista que levou muitos ao suicídio, que mais não é do que uma fuga da realidade e da vida. Assim “fugiram” Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Soares dos Reis, Mouzinho de Albuquerque ─ em quem muitos esperavam ver ressurgir algum dos heróis antigos ─ Trindade Coelho e tantos outros que, como Alexandre Herculano, se suicidaram no isolamento monástico, no desterro ou na emigração.

É neste quadro, e com a mesma técnica de Bence Hadju, que imagino o Portugal, de hoje. Com todos os portugueses ausentes, emigrados, solitários, dispersos pelo mundo, mas com saudades do retângulo abandonado e deserto. E na esperança de que, como alguém recentemente escrevia e pedia, nem as lágrimas, nem a ausência, nem a saudade sejam taxadas e paguem impostos.

António Bárbolo Alves
Miranda do Doura, outubro de 2012

Crónica da arte e do novo Ecce Homo
Quarta-feira, Setembro 12, 2012

O do mês de agosto de 2012 ficará marcado pela história em torno do restauro da pintura do Ecce Homo, um fresco de uma pequena igreja espanhola, perto de Saragoça, numa aldeia de nome Borja. A obra datava de 1910 e estava em mau estado. O autor da obra original é um pintor espanhol chamado Elías García Martínez (1858-1934). O restauro foi feito por uma senhora da aldeia, de nome Cecilia Gimenez, com mais de 80 anos, aparentemente sem autorização. Este trabalho, que muitos consideram um horror e outros uma verdadeira obra-prima que deve ser conservada a todo o custo, está a provocar um enorme interesse em torno da obra e da aldeia. Nem Salvador Dalí, um habilíssimo utilizador dos mass media, nem Damien Hirst, o polémico artista britânico cuja obra tem sido alvo de um grande seguimento mediático, imaginariam, nos seus melhores sonhos, uma tal repercussão. Em menos de 24 horas, o novo Ecce Homo deu a volta ao mundo. A pequena igreja foi visitada por milhares de pessoas, com os turistas a fazerem fila para tirarem uma fotografia. Multiplicaram-se as notícias em todos os meios de comunicação, a internet e as redes sociais explodiram de manifestações, seja para defender esta nova versão da pintura seja para parodiar o trabalho da octogenária.

Para os defensores da pintora, trata-se de um trabalho de dedicação, em que empenhou toda a sua sabedoria e sobretudo toda a sua paixão e toda a sua devoção. Por isso, a nova obra tem tanto ou mais valor do que a primeira. O eco dos fãs é tão grande que há petições online pedindo a preservação da pintura de Cecília Giménez. A argumentação dos seus admiradores, mesmo quando amalgamada, subtilmente, com pitadas de ironia, coloca a eterna questão da arte, mas sobretudo a forma como a arte se transforma e se enreda no seu próprio discurso. Aprecie-se, como exemplo, este parágrafo (retirado da internet), como pérola discursiva dos defensores da nova versão da obra:

“O trabalho da artista anónima no Ecce Homo da Misericórdia do Santuário de Borja, é uma reflexão inteligente da situação política e social do nosso tempo. Nele se revela uma crítica subtil às teorias criacionistas da Igreja, ao mesmo tempo que se questiona o surgimento de novos ídolos. O resultado da intervenção combina habilmente o expressionismo primitivo de Francisco de Goya, com figuras como Ensor, Munch, Modigliani ou Die Brücke, grupo pertencente ao movimento artístico do expressionismo alemão.”

Não tenho conhecimentos suficientes nem de Arte nem de Estética para discutir este e outro argumentário. A verdade é que a nova figura do Ecce Homo, assim como o estrondo mediático em seu redor, merecem figurar nos anais e ser objeto de estudo em qualquer curso ou disciplina de arte. O espalhafato mediático é comparável, se bem se lembram, às piranhas que, a partir do rio Ave, inundaram os mass media portugueses. Também elas passaram a fazer parte do anedotário nacional, exemplo de como o jornalismo pode transformar um não facto em algo plausível e importante.

Objetivamente, tanto quanto é possível imaginá-la ao longe (e mesmo ressalvando as palavras da pintora que diz que a obra estava inacabada), a nova pintura é um mono, capaz de desafiar aqueles que, como eu, são incapazes de alinhar dois traços direitos. Mas a verdade é que a arte contemporânea é feita de obras que, aparentemente, não têm sentido, tal como o urinol que Marcel Duchamp transformou numa Fonte, e que acabou por se transformar na obra de arte mais influente do século XX. Neste sentido, qualquer objeto pode ser arte, pois o que corporiza a arte contemporânea não são critérios estéticos nem técnicos, mas aquilo que acontece em torno do objeto ou evento e sobretudo aquilo que o artista diz que é arte.

Se bem que Cecilia Gimenez não tenha realmente querido intervir sobre a arte, a questão é se este episódio contém ou não algumas das características desta “arte contemporânea”, feita de irreverência, de crítica cáustica, de humor, e sobretudo de interrogação constante, que questiona a arte e os princípios de transgressão em que assenta. Mesmo querendo apenas e tão só “restaurar” o Ecce Homo, o trabalho da pintora já ultrapassou esse estreito domínio, agregando todo o fervilhar de notícias e de discussões globalizadas. Por isso, ele pode perfeitamente transformar-se numa peça contemporânea que nos faz refletir sobre todas estas coisas, pois o homem, tal como o sonho, é um “bichinho alacre e sedento” na eterna procura de outros e de novos significados.

Crónica da guerra futebolística
Segunda-feira, Julho 9, 2012

Agora que se aproxima o final do Campeonato da Europa de Futebol, em que alguns “duelos” ultrapassaram largamente as quatro linhas do retângulo de jogo, adquirindo conotações políticas que não deveriam ter, proponho-lhes uma viagem pelo vocabulário futebolístico, também ele impregnado de imagens e significados que, à partida, não lhe pertencem. Num país onde o futebol é paixão, mesmo que já não se fale na famosa trilogia “fátima, futebol, e fado”, é bem provável que tais valores semânticos sejam próprios à nossa língua e à nossa cultura e decorram da relação apaixonada que mantemos com o chamado desporto-rei.

No momento em que escrevo estes primeiros parágrafos está prestes a iniciar-se o “duelo ibérico”, também chamado “batalha ibérica”, expressões que nos trazem à memória as pelejas seculares que opuseram estes dois países peninsulares. Hoje, o combate trava-se sobretudo dentro das quatro linhas. Contudo, por fora, há muitos milhões a sofrer para que a dita “batalha” tenda para um dos lados. E não faltarão comentadores a empregar no seu vocabulário todas as metáforas a lembrar essas antigas refregas. Na verdade, o futebol cristalizou, simbolicamente, os duelos corpo a corpo, as lutas tribais, as guerras entre nações que fizeram parte do nosso quotidiano de outrora. Vale a pena estar de ouvido atento, respigar e apreciar algumas dessas imagens e metáforas.

Quando entrarem em campo, as duas “formações” serão “armadas” com onze “guerreiros”, prontos a deixar em campo tudo o que têm para dar. Os “ponta de lança” irão à procura do golo, com a pontaria bem afinada e a baliza adversária sempre na “linha de tiro”. O poder de fogo de uma equipa depende muito da capacidade destas “linhas avançadas”. E cada vez que “armarem o seu remate “é bom que o façam com força e determinação, de forma a não qualquer hipótese ao adversário. Nas “alas” – quem não ouviu falar na famosa “ala dos namorados” que tão famosa ficou na Batalha de Aljubarrota! – estarão os defesas, também eles com a missão de farejar a bola e de romper com as “linhas inimigas”. Mas o verdadeiro duelo travar-se-á a meio campo. A luta será mais renhida do que em qualquer outro espaço, pois os artistas em jogo não são de molde a deixar os seus créditos por mãos alheias, uns a tapar as investidas do adversário, outros a lançar a bola de forma a visar a baliza adversária.

Esperemos pelo jogo.

Terminou a primeira parte. Tudo zero. A verdade é que apesar de “alguns episódios atacantes”, os primeiros quarenta e cinco minutos foram bastante mornos e pouco pródigos nas imagens bélicas que normalmente pululam em alguns comentários. Ficamos apenas com a imagem do jogador espanhol, Arbeloa, que “apareceu na carreira de tiro”, mas sem conseguir armar convenientemente o remate. Ficamos também a saber que alguns jogadores não sabem “matar a bola” o que, convenhamos, mesmo que o fizessem, sempre seria melhor do que “matar o adversário”. Aguardemos então pelas emoções da segunda parte. Talvez ela seja um pouco mais generosa neste capítulo imagético. E, já agora, em golos na baliza adversária.

E assim chegámos ao final do tempo regulamentar. Muita luta mas poucos resultados. O comentador ainda deixou sair que “Ronaldo aparecia que nem uma flecha apontada à baliza de Espanha. Mas não deu em nada. Os espanhóis parecem mais cansados e fizeram já duas substituições. Por isso, diz o repórter, “Portugal pode fazer ainda três substituições, o que dá outras armas à equipa portuguesa”. Que armas serão essas? Esperemos para ver pelo prolongamento.

E ao final da primeira parte do prolongamento nem sinais de golo, nem vestígios de finalista. Os comentadores também não parecem inspirados. Apenas a menção de que “Patrício salva Portugal” pois, como se sabe, se a bola de Iniesta tivesse entrado seria a condenação portuguesa.

Mais quinze minutos de sofrimento e de espera. Deram em nada. A seleção nacional esteve remetida à defesa. Agora vai a espécie de “corpo a corpo” final. Portugal caiu de pé. Viva Portugal.

Crónica do projeto (português e europeu)
Segunda-feira, Maio 7, 2012

Se é verdade que o país está em crise, e disso ninguém duvida, também é certo que a mesma não pode ser imputada à falta de ideias e muito menos de projetos. Desde a entrada na então chamada Comunidade Económica Europeia, no final da década de 80, até aos nossos dias, o que mais tem havido em Portugal são “projetos”. Para todos os gostos e para todas as áreas, fizeram-se e fazem-se projetos. Projetos públicos, projetos privados, em nome individual, coletivo, raro será o português que nas últimas décadas não participou, direta ou indiretamente, em “projetos”. Por sua causa, fundaram-se e cresceram empresas para os elaborar, para os estudar, para os analisar, para os financiar e até para os implementar.

Estou convencido de que, se fosse possível juntar, em papel, todos os projetos elaborados nas últimas décadas, só em Portugal, os mesmos não caberiam nos arquivos nacionais e seriam, por certo, necessários muitos vagões para os transportar.

A palavra tornou-se tão comum que ganhou novas valências semânticas, novos significados consagrados pelo uso, mas ainda não registados em dicionários. Hoje em dia, sempre que se vê nascer algo de grandes proporções, sem que se saiba que serve, logo se sentencia: isso deve ser projeto. Nesta aceção, designa-se tudo aquilo que, de antemão, se sabe que não vai servir para nada a não ser respeitar o tal projeto. Nele se gasta muito dinheiro, mas não se retira qualquer outro benefício.

Noutras situações, quando queremos saber o que faz determinada pessoa, ficamos a saber que ela está num projeto. Nesta aceção, significa que aquele trabalho é temporário (normalmente bem remunerado, enquanto dura), mas não se destina a ter outros resultados que não sejam internos ao dito projeto, isto é, relatórios, demostração de resultados (evidências, como agora se diz), análises descritivas, financeiras, papelada e mais papelada.

A forma poderá ter muitas outras utilizações e significados, mas estou convencido de que todos confluem na mesma direção: um projeto é algo mais ou menos inútil, efémero, que não cria raízes nem leva a lado nenhum.

No mundo rural, brotaram e multiplicaram-se “projetos” que fizeram nascer novos agricultores, mas que, paradoxalmente, contribuíram para que a terra deixasse de produzir. Hoje em dia, se repararmos para a origem dos produtos que compramos e consumimos, poucos são os que são produzidos no nosso país. Nas pescas, os projetos abateram a frota pesqueira, empurrando os pescadores para terra. Temos peixe, mas não é português. Na indústria, depois de tantos projetos para criar e desenvolver pequenas, grandes e médias empresas, muitas delas acabam por fechar portas e outras, utilizando outro conceito da moda, deslocalizam-se para novas paragens.

Por tudo isto, algo está errado neste “projeto”. E não é apenas o pequeno empresário, o agricultor ou o pescador que meteram mãos à obra para mudar de vida, dar novo rumo ou novo impulso à sua vida ou ao seu negócio. Aliás o problema não é exclusivo português, ou não estivéssemos nós no grande mercado global onde navega, à deriva, o barco da União Europeia. É aqui que vamos encontrar a génese e fundamento dos “projetos”, pois toda ela se encontra bem apinhada deles, para todos os gostos e para todos os fins. Ora, o “projeto europeu” está doente. A Europa, tal como a imaginaram Jean Monnet e Robert Schuman, entre outros, era uma espécie de engrenagem em que a soma dos “projetos” constituiria o próprio dinamismo da sua construção. Foi assim nos anos de 1950/60, na procura de uma paz durável com a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço; foi assim com a Política Agrícola Comum e não foi diferente com o “método comunitário” que se lhe segui. Os anos 80 viram nascer o grande mercado comum e a decisão partilhada. Na década de 90 a UE iniciou um princípio de União Monetária, com o Euro, que vai funcionando, mas que continua inacabado ao nível económico, fiscal e social. Nos últimos anos assistimos à difícil tomada de decisão sobre o alargamento e também à emergência e falência da estratégia de Lisboa desenhada para o decénio de 2000 a 2010. Crescimento económico, inovação, melhoria quantitativa e qualitativa do emprego, tal como estabelecido na dita estratégia ou agenda, não passou do papel. Por falta de coordenação, por ausência de liderança, mas sobretudo pela inexistência de uma estratégia aceitável para todos os Estados-membro, a verdade é que a Europa está atualmente num impasse.

Ainda assim, vislumbra-se uma pequena luz no fundo do túnel que se prenuncia na mudança, cada vez mais repetida, do “projeto” para o “programa”. Mas espera-se que esta metamorfose não seja apenas lexical, mas também semântica. A saída passa pela escolha adequada de um programa de médio e longo prazo e, em seguida, pelo estabelecimento das relações políticas capazes de o implementar. Por outro lado, não podemos esquecer nem os Estados-Nação nem os cidadãos. Sob pena de ver continuados e exacerbados os projetos pessoais e corporativos, que têm contribuído para a negação da Europa social, política e solidária que se deseja.

Crónica dos paradoxos e das coisas inúteis
Terça-feira, Março 6, 2012

Ao investigar o património, sobretudo imaterial, é comum encontramo-nos com um paradoxo quase sempre insolúvel. Quando no damos conta da importância de uma tradição, de uma memória ou de um costume, ele já desapareceu ou está em vias de desaparecer do uso, do hábito e da prática quotidianas. Infelizmente assim vem acontecendo com muitas destas práticas ditas tradicionais e, sobretudo, com as pessoas que as trouxeram até nós, que assim não vêm reconhecido o seu importante papel na transmissão desse valor.

Se assim é com este tipo de heranças, interrogo-me sobre a razão pela qual hoje em dia se fala tanto em valores, aceitando, quase tacitamente, que os mesmos, sobretudo os considerados tradicionais, estão em crise, em vias de desaparecer ou de se transformarem.

Nesta ordem de ideias, é quase exemplar o título com que o presidente e agora candidato às presidenciais francesas, Nicolas Sarkozy, intitulou o seu quase-manifesto eleitoral que, em forma de entrevista, foi publicado no Le Figaro, de 10 de Fevereiro: “Mes valeurs pour la France » (Os meus valores para a França). A sua trilogia, facilmente transponível para outras realidades e para outros países – trabalho, responsabilidade, autoridade – começa por colidir com o problema de nem todos estes princípios poderem ser aceites como valores. O trabalho, tal como a escola e a família, que são modos de organização social e de transmissão do saber, não é um valor, é um modo de relação com as coisas. Restam a autoridade e a responsabilidade. Ser responsável corresponde a comportamentos intencionais que permitem julgar quem é responsável e quem é irresponsável. Quanto à autoridade, a questão é mais complexa uma vez que nem todos os elementos são intencionais, ainda que possamos julgar que alguém é autoritário ou que tem pouca autoridade. Contudo, as muitas condutas possíveis e as características de caráter têm aqui muita importância.

Seja como for, o certo é que numa Europa em profunda crise, que não é apenas económica nem financeira, lá vai reaparecendo, de quando em vez, sobretudo por altura das campanhas eleitorais, este discurso com referência aos valores. Porque, na verdade e em bom rigor, aquilo de que se fala, e muito, é de direitos e de normas. Estas multiplicaram-se com as práticas de “normalização” e de “estandardização”. Aqueles, proliferam na ideologia social, propagando-se na ideia vaga, difusa e incoerente, de que todos são conhecedores dos seus direitos, não se eximindo a reclamá-los sempre que julgam que os mesmos estão em causa.

Ora, os grandes pregoeiros e arautos destes “valores” são, em grande medida, os partidos políticos que, em rigor, não são mais do que poderosas e bem oleadas máquinas apontadas à conquista do poder. (Outros há que estão sempre contra o poder. Porém, mutatis mutandis, a lógica não deixa de ser a mesma). O renascimento dos verdadeiros “valores” passa pela existência de outras organizações que se subtraiam a esta lógica, que definam os seus objetivos independentemente das agendas estatais, construindo espaços de discussão e formas de circulação da informação, gizando uma dinâmica própria, dirigida, em primeiro lugar, ao desenvolvimento de um poder autónomo de pensar e de atuar.

A situação atual mostra-nos o poder do capital sobre a sociedade, que se manifesta numa lógica (quase) única: o individualismo consumista. Os valores sociais, representados pela cultura como um tecido construído pela experiência comum, vêm-se invadidos e ameaçados pelos valores mercantis. Em nome da crise financeira, impõem-se programas de submissão sujeitos às leis do mercado. O resultado é uma estética comercial, do grande espectáculo, das grandes celebrações e dos discursos oficiais, supostamente críticos, mas realmente submetidos a uma lógica oficial.

Num semanário português, de 25 de fevereiro, leio que em Montemor-o-Novo se inicia um ciclo de sessões, que durará até Dezembro de 2012, cuja primeira sessão, juntando Eduardo Lourenço, Pedro Mexia e Dulce Cardoso, se desenrolará em torno do tema “Ética e valores”. Um bom assunto, sem dúvida, a merecer uma visita a esta cidade alentejana, sobretudo quando não se esquece a ética como fundamento da conduta e dos supostos valores humanos. Por outro lado, numa sociedade submissa e anestesiada, aparentemente condenada a aceitar a lógica dominante, impingindo que só se podem estudar matérias e frequentar cursos que conduzam ao “mercado de trabalho”, é bom que se ouçam os últimos representantes da Filosofia e da Arte de Pensar, vindos de um tempo em que a Europa era próspera e rica, podendo dar-se ao luxo de ter gente a estudar Filosofia, Humanidades, Letras, enfim, Ciências Sociais, Humanas e outras Coisas Inúteis.

Miranda do Douro, 27 de Fevereiro de 2012

Crónica do tempo, dos dois em um e das pequenas coisas
Segunda-feira, Janeiro 9, 2012

O domínio do tempo é um dos capítulos mais fascinantes da história humana. Só depois de distinguir os meses, as semanas, dos dias, as horas, minutos e segundos, o homem foi capaz de se libertar da prisão monótona dos ciclos naturais. Desde a observação das fases da Lua, passando pela medição do deslizar da sombra, da passagem da areia ou da água (a famosa clepsidra – ladra de água – destinada a medir o tempo de que os advogados gregos dispunham para as suas intervenções), continuando pelo bater dos sinos, o tempo foi aprisionado no tic-tac dos relógios, convergindo para que o Tempo e o Espaço constituíssem uma só dimensão. A medida é a chave da ciência, o mesmo é dizer das portas do desconhecido.

Medimos o tempo mas deixamos que ele nos domine.

A verdade é que o homem moderno parece não dispor nunca de tempo. Andamos sempre atarefados, embora sistematicamente atrasados. Outra peculiaridade destes tempos é a tendência para a concentração. Aqui há umas décadas, fascinados pela ficção científica, pelos voos espaciais e pela descoberta de novos planetas, imaginávamos que um só comprimido seria capaz de nos alimentar sem ser necessário perder tempo para nos sentarmos à mesa nas refeições quotidianas. Se bem que esta pílula milagrosa ainda não foi posta a circular, o certo é que o conceito de comida rápida – ou de fast-food, para quem prefira a expressão inglesa – deriva claramente dessa vontade tornada necessidade de não perder tempo com o suposto supérfluo que é sentar-se, estar à mesa, esperar que a comida seja confecionada e, o que é pior, ter de a comer e saborear.

Outra deriva desta modernidade sem tempo é a propensão para o dois em um, para o três em um, o quatro, o cinco, o tudo em um. O sabão do banho é dois em um, shampoo e amaciador; o after shave é dois em um, calma e hidrata; o computador é três em um, notebook, e-reader e tablet; uma marca de automóveis anuncia o quatro em um, roadster, carrinha, crossover e carro de competição; alguns detergentes de máquina de lavar loiça apregoam o cinco em um, enquanto outros, não fazendo por menos, proclamam o tudo em um. Não é difícil encontrar muitos outros exemplos. Basta estarmos atentos seja ao percorrermos as prateleiras do supermercado, seja ao observarmos a publicidade que nos entra pela casa dentro.

Mas à força de querermos concentrar tudo em um esquecemo-nos do essencial, ou seja, das pequenas coisas que, ao serem amontoadas e assimiladas deixaram de existir. Dominamos o espaço e o tempo, mas não temos tempo para admirar “nem o crescer do mar nem o mudar das luas”, como escreve Sophia de Mello Breyner. Na floresta de enganos, como diria Gil Vicente, ou na floresta do alheamento, como escreveu Fernando Pessoa, envolvemo-nos pela folhagem, não vemos as flores nem sabemos apreciar o sabor dos frutos. Quem se lembra dos dramas insolúveis e deprimentes que, nos últimos tempos, nos encheram os ouvidos de preocupações e que, miraculosamente, desapareceram? Onde está o transcendente drama do H1N1, pandemia ameaçadora e inquietação suprema da humanidade? Onde está a doença das vacas loucas, que há bem pouco tempo ameaçava dizimar a humanidade?

Sepultados nas águas do esquecimento, estes medos globais mais não fazem do que esconder aquilo de que não se fala: os verdadeiros dramas pessoais e sociais, as vivências profundas, os afetos, a incapacidade para apreciar o sabor das coisas que se esvaem na imanência vácua do quotidiano. Mas esta espécie de exaltação pelo imediatismo e pela atualidade não nos pode fazer perder a busca de sentido, que só se pode conseguir pelo sentido crítico e pela reflexão pessoal. E para isso precisamos de tempo. Precisamos de análise, que mais não é, segundo o seu sentido etimológico, a decomposição e separação do todo nas suas partes constituintes, para chegar a conhecer os seus princípios, os seus elementos, o seu funcionamento. O sabor das coisas essenciais, o deleite dos momentos breves que são a verdadeira face da eternidade.

António Bárbolo Alves
Miranda do Douro, 1 de janeiro de 2012

Crónica da finitude e do princípio da incerteza
Sexta-feira, Novembro 4, 2011

Há um bom par de anos frequentava eu um curso de Mestrado, daqueles à moda antiga, com quatro semestres curriculares e dois anos mais para fazer a dissertação. Decorria a última década do século XX, aproximava-se o fim do milénio, embora creia que ninguém naquele grupo de mestrandos estivesse conscientemente atormentado pelas angústias finisseculares, que normalmente acompanham essas mudanças. A verdade é que, no decorrer da apresentação de um trabalho, uma das minhas distintas colegas rematou a sua exposição com um rotundo “prontos”, fórmula que, por essa altura, se instalava no vocabulário e nas expressões da moda, sobretudo dos mais novos. Apesar da excelência do trabalho apresentado, o professor que orientava o seminário não se conteve, tecendo duras críticas à utilização de tal forma, inadequado para o contexto e, segundo ele, apenas compreensível no quadro finissecular que se aproximava.

“Pronto” e “prontos” seriam assim a expressão linguística da finitude, a encarnação verbal das premonições e anseios guardados nas profundezas do subconsciente.

Seja como for, a verdade é que o bordão se instalou, ganhou raízes e continuou a crescer, mesmo depois de chegado o século XXI. O “prontos” faz hoje parte do vocabulário, como um modismo que, pelos vistos, sobreviveu à mudança de milénio. Mas isso não quer dizer que o nosso insigne mestre estivesse errado, quer quanto ao usa inadequado de tal forma, quer quanto ao seu suposto alcance ou significado. Para além de constituir uma forma desnecessária – sobretudo como advérbio com acrescento se -s – a mesma poderá ser substituída por outras palavras ou expressões para que oralidade seja um pouco mais colorida e menos monótona. Por outro lado, mesmo dobrado o cabo do milénio, os medos continuam na ordem do dia, seja pelos anúncios serôdios do fim do mundo, seja pelas dúvidas instalados sobre o nosso futuro. Por isso, cada vez que um “prontos” me entra pelo ouvido, relembro essa lição e fico a pensar se as palavras e expressões – mesmo usadas impropriamente – podem ou não ser a expressão dos medos individuais e coletivos.

É perfeitamente natural, compreensível e desejável que a nossa língua evolua. Tal sucede através do empréstimo (com formas oriundas de outros idiomas), mas também pelos mecanismos próprios às matrizes idiomáticas de que a língua dispõe para criar novas formas e novos significados. Todavia, é sempre com desconsolo que assistimos à ascensão do psitacismo – comandado por uma linguagem modernaça, feita de chavões e, por vezes, asneiras crassas – que depois alastra às camadas ditas por populares que, por macaquice saloia, conduz ao alastramento de uma maré negra de lugares comuns e falta de imaginação. São muitas as pérolas deste linguajar eivado de formas e expressões hiperbólicas como obstaculizar, contratualizar, deslocalizar, direcionar, ou o mais recente economicista, como se não fossem suficientes as formas dificultar, contratar, transferir, dirigir e económico. Mas não, é preciso mais sainete, outro estilo. Vai daí, toca a elencar e alavancar novas formas porque as antigas enunciar, nomear e apoiar ou estimular já não servem.

Outra relíquia que está na crista da onda – quem sabe se fruto dos tempos! – é a utilização indevida e imprópria do advérbio e pronome relativo “onde”, usado a torto e a direito como se fosse universal, por “que, quando, cujo, no qual …”. Se o “pronto” e o “prontos” são prenúncios de um fim angustiante, o uso do pronome e advérbio “onde” mesmo quando só é possível usar que, cujo, em que [ou no qual, na qual, nos quais, nas quais] indicia que estamos perante a presença do princípio da incerteza. Na Física clássica, acreditava-se que, se soubermos a posição inicial e o momento (massa e velocidade) de todas as partículas de um sistema, seremos capazes de calcular as suas interações e prever como elas se comportarão. Segundo o princípio da incerteza, não se pode conhecer com precisão absoluta a posição ou o momento (e, portanto, a velocidade) de uma partícula. Tal acontece porque, para medir qualquer um desses valores, acabamos por alterá-los, e isto não é apenas uma questão de medição, mas sim de física quântica e da natureza das partículas.

A dúvida e a incerteza que atingem a nossa sociedade parecem ganhar forma linguística nesta procura incessante do “lugar onde”, sem que saibamos muito bem “o lugar em que” estamos, nem “para onde” vamos. “É uma excelente equipa, onde nós respeitamos…”, dizia há poucos dias, na Antena 1, o representante de um clube, comentando o resultado do sorteio da Taça de Portugal. É mesmo provável que ele não saiba onde está a equipa nem para onde vai. Mas, como alguém diria, o desejo é apenas “encontrar um emprego, onde colocar as esperanças”. Inconscientemente, o emprego é uma miragem, pois seria desejável procurar “um emprego, no qual colocar as esperanças”.

Crónica do faz de conta
Terça-feira, Setembro 13, 2011

“Ao contrário dos povos burgueses do Norte e do Centro da Europa, o nosso luxo … é mero produto da imaginação, e não dos sentidos. (…) As pessoas modestas, cujas casas são despidas do mínimo de conforto, andam nas ruas vestidas com elegância ou com luxo. Qualquer empregadita, que mal ganha para se alimentar, anda vestida impecavelmente e pela última moda.”

Jorge Dias (1950). Os elementos fundamentais da cultura portuguesa

É normal fazer de conta. Cada vez mais se vive das aparências e para as aparências, para aquilo que parece ser e não para aquilo que é. Vales e és o que tens, ou que aparentas ter. Os teus valores, os teus princípios ou as tuas conquistas de pouco servem e valem se não tiveres um bom carro, se não usares a roupa de marca, se não tiveres um telemóvel último modelo, se não se apresentares depois do Verão com os relatos das férias passadas bem longe do luso rectângulo. Independentemente da sua saúde financeira, ou seja, em termos mais prosaicos, de estarem enterrados em dívidas, estes parecem ser os objectivos de muitas pessoas.

Viver assim não é fácil. Representar constantemente é uma tarefa difícil pois implica um alto grau de abstracção capaz de se iludir a si próprio. Em tempos de regresso à escola, as crianças são as primeiras vítimas deste faz de conta. Os pais exigem que aprendam inglês, que façam ballet, que joguem futebol, que pratiquem natação, equitação… só não os obrigam a brincar, a ouvir histórias contadas por eles, a estudar de quando em vez.

E não se pense que estes são hábitos e vícios modernos. A verdade é que, uma vez descoberto o Caminho Marítimo para a Índia, os portugueses nunca mais encontraram um desafio à altura das suas capacidades e das suas ambições. Em bom rigor, deixaram de se interessar por mais nada, passando apenas a fazer de conta que se interessam por algo.

Durante uns séculos tivemos o nosso grande e vasto Império. Na sua grandeza colossal e sobre-humana fomos morrendo pelo mundo cumprindo assim o desígnio de Vieira, “nascer pequeno e morrer grande é chegar a ser homem”. Por isso, acrescenta o pregador com a sua voz sapiente e profética, nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento e tantas para a sepultura. Para nascer pouca terra, para morrer toda a terra. Para nascer Portugal, para morrer o mundo.

Mas o Império começou a desfazer-se. Soou o grito de Ipiranga. E nós fizemos de conta que isso não era connosco. Se não querem ser Portugal que sejam Brasil!

Ficaram as Províncias Ultramarinas, depois chamadas colónias. Um dia também nelas nasceu e cresceu o desejo natural de liberdade e de independência. Aqui a separação foi mais difícil e dolorosa. Mas não o foi porque o povo português assim o quisesse ou desejasse. Foi antes fruto de uma vontade férrea, ditatorial, obstinada e quase solitária. Acabada a guerra, proclamadas as independências, continuámos a fazer de conta que nunca tínhamos querido que aquelas terras fossem nossas ou que fizessem parte de Portugal.

Sobrou, até há bem poucos anos, uma cidade no longínquo Oriente. De tão pequena, à sombra da gigantesca China, é bem elucidativa e simbólica da grandeza imaginária do nosso faz de conta.

Pelo meio embarcámos com a Europa. Em breve tomámos o lugar da proa, segurámos o leme e nomeámos timoneiros. Fizemos de conta que éramos ricos. Encomendámos auto-estradas, estádios, exposições e manifestações, tudo à medida da nossa grandeza imaginária no reino do faz-de-conta.

De repente tudo se desmoronou. O deficit excessivo, o endividamento, a crise da dívida, os juros muito altos… o conhecido e apregoado rol de causas e efeitos. Em quinze dias, três cavalheiros, quais cavaleiros do apocalipse, puseram tudo a limpo: traçaram o diagnóstico, estipularam o tratamento, iniciaram – dizem eles, e dizem alguns dos nossos – a recuperação. Cortas aqui, tiras ali, fechas acolá. Um trabalho que não fomos capazes de fazer (ou não quisemos!) durante décadas foi posto a nu em duas semanas para ser consumado, subservientemente, em dois ou três anos. Apesar do prognóstico muito reservado, pouco ou nada mudou. Os ricos da Europa, mais preocupados com os problemas internos do que com a solidariedade alheia, podem continuar a olhar-nos de soslaio ou com sobranceria. Nós, alegremente, continuaremos a fazer de conta. O nosso mundo não é deste reino.

Miranda do Douro, 4 de Setembro de 2011

Crónica das leis portuguesas
Segunda-feira, Julho 4, 2011

Sempre se ouviu dizer que, em Portugal, há um a fazer as leis e sete a (tentar) descobrir a forma de as contornar. Não sei se a proporção será a mais correcta, ou se peca por excesso ou por defeito. A verdade é que, em muitos casos, as leis portuguesas não são para ser cumpridas, mas para serem interpretadas. Há legislação que, depois de apurado o seu verdadeiro alcance e significado junto da autoridade legislativa, se conclui que quer dizer outra coisa daquilo que verdadeiramente está escrito.

Não conheço nenhum estudo científico que me leve a supor que a Língua Portuguesa é mais dada a ambiguidades e subjectividades do que qualquer outra. Por isso, forçoso é de concluir que o mal não está nas palavras mas em quem as escreve ou em quem as interpreta.

Se o mal está em quem as escreve, ou não sabe escrever ou escreve, propositadamente, de forma ambígua, para induzir a dúvida no leitor. Se o mal está em quem interpreta, ou não sabe ler ou procura, deliberadamente, encontrar oportunidades para ofuscar o verdadeiro sentido das palavras e das frases.

Contra os legisladores encontramos a proliferação quase incomensurável de leis que, quotidianamente, se não se desdizem, pelo menos ofuscam ou dificultam a compreensão de outra legislação. Muitas vezes, quando um qualquer cidadão é confrontado com a necessidade de fazer um simples requerimento, começa por ter de escrever um enorme parágrafo no qual dá conta que “ao abrigo do estabelecido na alínea número tal, do artigo coisa e tal, da lei número tal e coisa, com a redacção dada pelo decreto-lei número xis, com as alterações introduzidas pelo despacho ípsilon, e tal como determinado no decreto regulamentar número não sei quantos vem (apenas) requerer que lhe seja passada uma certidão disto ou daquilo”. Naturalmente que o emissor da certidão requerida, antes de passar o documento, terá de conhecer, reler ou procurar a legislação referida, não vá o diabo tecê-las e estar a cometer uma ilegalidade. O assunto não será de todo insolúvel se a referida legislação for clara e, sobretudo, se não houver contradições que digam e desdigam. Se assim for, o que não é de todo impossível, o cidadão requerente ver-se-á apanhado nas malhas kafkianas da engrenagem legislativa de onde dificilmente sairá incólume.

Contra os intérpretes encontramos um sem-número de oráculos e pitonisas, supostamente capazes de decifrar o verdadeiro significado das leis mas que, em rigor, à sombra da febre e da verborreia legislativa, vivem da emissão de pareceres que, muitas vezes, apenas servem o interesse de quem os encomenda e os paga.

Para a sua suprema ciência e poder de compreensão, aqui fica o intróito de uma Lei acabadinha de sair no nosso saborosíssimo Diário da República.

Lei n.º 46/2011, de 24 de Junho

Cria o tribunal de competência especializada para propriedade intelectual e o tribunal de competência especializada para a concorrência, regulação e supervisão e procede à 15.ª alteração à Lei n.º 3/99, de 13 de Janeiro, que aprova a Lei de Organização e Funcionamento dos Tribunais Judiciais, à 4.ª alteração à Lei n.º 18/2003, de 11 de Junho, que aprova o Regime Jurídico da Concorrência, à 5.ª alteração à Lei n.º 5/2004, de 10 de Fevereiro, que aprova a Lei das Comunicações Electrónicas, à 2.ª alteração à Lei n.º 25/2008, de 5 de Junho, que estabelece medidas de natureza preventiva e repressiva de combate ao branqueamento de vantagens de proveniência ilícita e ao financiamento do terrorismo, à 7.ª alteração à Lei n.º 52/2008, de 28 de Agosto, que aprova a Lei de Organização e Financiamento dos Tribunais Judiciais, à 1.ª alteração à Lei n.º 99/2009, de 4 de Setembro, que aprova o regime quadro das ordenações do sector das comunicações, à 23.ª alteração ao Decreto -Lei n.º 298/92, de 31 de Dezembro, que aprova o Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras, à 15.ª alteração ao Decreto-Lei n.º 94 -B/98, de 17 de Abril, que regula as condições de acesso e de exercício da actividade seguradora e resseguradora no território da Comunidade Europeia, ao Código dos Valores Mobiliários, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 486/99, de 13 de Novembro, ao Código de Propriedade Industrial, aprovado pelo Decreto -Lei n.º 36/2003, de 5 de Março, à 2.ª alteração ao Decreto -Lei n.º 95/2006, de 29 de Maio, que estabelece o regime jurídico aplicável aos contratos à distância relativos a serviços financeiros celebrados com consumidores, e à 2.ª alteração ao Decreto -Lei n.º 144/2006, de 31 de Julho, que transpõe para a ordem jurídica interna a Directiva n.º 2002/92/CE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 9 de Dezembro.

Há países onde as leis são claras e justas. Há países onde as leis existem para ser cumpridas. Há países onde a autoridade está nas e não em quem as interpreta. Há países onde as leis não precisam de estar sempre a ser vistas e revistas. Devia haver países onde as verdadeiras reformas na justiça passassem pela eliminação de todos estes ruídos e não apenas pelo encerramento de tribunais.

Crónica de uma morte anunciada
Sábado, Maio 7, 2011

O homem que na manhã de 11 de Setembro de 2001, qual vampiro, sugou o sangue de milhares de inocentes em Nova Iorque e Washington foi morto no passado dia 1 de Maio em Abbottabad, no Norte do Paquistão, pelas forças especiais americanas.

Quem não se lembra dessa manhã (início de tarde em Portugal)? Quem não se lembra daquelas imagens em directo na televisão? Quem não recorda as imagens chocantes de pessoas em pânico a atirarem-se das janelas do World Trade Center em Nova Iorque? Quem se esqueceu da impressionante imagem das torres gémeas a cair? Ninguém se esqueceu. Toda a gente se lembra. Talvez por isso tanta gente tenha saído à rua para festejar a morte de um dos mais odiados seres humanos de todos os tempos. Lembro-me de ter lido algures que desde a notícia da morte de Hitler, no final da 2.ª Guerra Mundial, que não se viam tantos festejos por causa de uma morte.

Não é relevante fazer aqui uma biografia de Bin Laden. A sua história é sobejamente conhecida e foi-nos contada muitas vezes ao longo dos últimos dez anos. Importa sim perceber aquilo que Bin Laden representa e aquilo que morre junto com ele. Bin Laden mais não era que o pai e o símbolo do terrorismo transnacional que o mundo conheceu mais aprofundadamente em 2001. Bin Laden alterou as regras do jogo. A sua organização, a Al-Qaeda, tinha dois objectivos principais. Erradicar os Estados Unidos da América e criar um califado pan – árabe que seria governado pela lei islâmica, a Xaria, e a maneira de o conseguir seria através do ataque a posições americanas e do derrube dos ditadores pró–americanos no médio oriente. O mundo não estava preparado para este tipo de terrorismo, que tinha tanto de brutal como de imprevisível. E Bin Laden foi apenas o mentor desta barbárie. O resto surgiu naturalmente. Não foi Bin Laden quem perpetrou os atentados de Madrid ou de Londres, foram sim células independentes e criadas à imagem e semelhança e que se inspiravam teológica e operacionalmente na organização de Bin Laden. Estas células tinham a particularidade de agirem com um grupo muito reduzido de operacionais e de serem particularmente brutais nas suas acções.

E agora? O mundo pode descansar? Está o mundo mais seguro hoje do que em 2001? Sim. Indubitavelmente sim! Mas não pela morte de Bin Laden. A Al-Qaeda já não tem a força de outros tempos. Primeiro porque a invasão do Afeganistão e a erradicação do regime Talibã praticamente acabaram com a capacidade operacional da organização mas essencialmente, e como se tem visto nos últimos meses, porque o mundo árabe não quer esse “califado” sonhado por Bin Laden. Os jovens que têm levado a cabo estas revoluções não são, como muito bem dizia o Professor Nuno Severiano Teixeira, anti–americanos ou anti–ocidentais. Pelo contrário. Estes jovens querem a liberdade e a qualidade de vida dos jovens ocidentais. Querem as oportunidades que o modelo ocidental proporciona. Essencialmente por isto, a Al-Qaeda tem tendência a perder força, senão mesmo a desaparecer com o decorrer do tempo. O que não quer dizer, de todo, que os ataques terroristas vão acabar. Quer apenas dizer que este modelo de organização e que esta em particular com os seus objectivos, tem tendência a perder força. Certa e infelizmente outras se lhe seguirão. Outros Bin Ladens surgirão (para evitar que isso aconteça os Estados Unidos estão a tratar a questão Líbia com o máximo cuidado, para não se estarem a armar indiscriminadamente futuros Bin Ladens) e outras ameaças irão materializar-se. Mas o mundo está hoje mais preparado para elas. E isso é que é realmente importante. Independentemente de todas as questões políticas e geo–estratégicas aqui em questão, o mundo consegue hoje lidar muito melhor com o terrorismo do que há 10 anos.

Morreu Osama Bin Laden e foi talvez feita justiça aos milhares que perderam a vida às suas mãos, mas além disso, pouco ou nada muda. Osama Bin Laden morreu, do ponto de vista da sua importância para a segurança mundial, a 11 de Setembro de 2001. Aliás, desse ponto de vista, Bin Laden teve uma vida bastante efémera, que começou em 1993, com o primeiro ataque ao World Trade Center e acabou com os ataques ás torres gémeas e ao pentágono em 2001.

Crónica do dia seguinte
Sábado, Maio 7, 2011

O povo português é, essencialmente, cosmopolita. Nunca
um verdadeiro português foi português: foi sempre tudo.
Fernando Pessoa

O país não precisa de quem diga o que está errado;
precisa de quem saiba o que está certo.
Agustina Bessa-Luís

Claro que a tentação mais imediata seria falar da crise. Nomear os supostos responsáveis. Acusá-los e condená-los sem direito a defesa. Não é que não haja responsáveis. Também não é porque os mesmos não possam e devam ser responsabilizados e incriminados pelo que fizeram. Contudo, neste tempo de convulsão, parece-me que devemos procurar a serenidade para pensar no futuro. Imaginando-o e desenhando-o desde já, como o queremos e não como outros nos querem obrigar a fazê-lo. Neste momento, como meninos mal comportados, não me parece que tenhamos outra solução a não ser aceitar com alguma resignação as palmadinhas no rabo (ou, quem sabe, as bordoadas no lombo) que a famosa troika se prepara para nos dar.

A verdade é que não fizemos os trabalhos de casa. Não aproveitámos os tempos das vacas gordas, não investimos no futuro, deixámo-nos deslumbrar pelas cores do sucesso imediato, pelo chamariz consumista, pelo apelo do que é estrangeiro é bom, e agora pagamos as favas. Li, recentemente, num jornal que não posso precisar, que a França procurava a forma de encontrar uma solução para que nas prateleiras dos seus supermercados se vendessem pelo menos 21% de produtos produzidos em França. Esta percentagem seria de 23% na Alemanha. Se estes números estiverem certos, interrogo-me sobre a situação portuguesa e sobre os mesmos números em Portugal. Seja como for, e apesar da necessidade de proceder a muitos reajustamentos, parece-me inegável que nas últimas décadas desbaratámos fundos e fundos a subsidiar a falta de produtividade, enfraquecendo o nosso sistema produtivo com a ilusão de que poderíamos comprar tudo no estrangeiro porque é mais barato e de melhor qualidade. A nacional apetência pelo que vem de fora, o gosto pelo estrangeiro(ismo) fizeram o resto.

Sem saudosismos, sem nacionalismos serôdios, talvez fosse tempo de reflectir sobre as nossas raízes, a nossa identidade cultural e ontológica antes de nos lançarmos, de braços abertos e sem qualquer apoio, rumo ao futuro. É preciso, antes de tudo, que o país se conheça a si próprio, para saber quem é e o que deseja. Só preservando a nossa identidade profunda, conhecendo-nos a nós próprios, investindo no que é nosso, valorizando e desenvolvendo a nossa capacidade empresarial e competitiva, seremos capazes de nos livrar do jugo e da ajuda estrangeira.

Depois das brumas da crise, após o nevoeiro cerrado que tem tolhido a nossa visão de futuro, o dia seguinte tem de ser um dia claro. Em dia em que saibamos nitidamente o caminho a seguir, sem necessidade de recorrer a uniões nacionais bafientas, mas unindo-nos apenas em torno do essencial, ou seja, dos verdadeiros desígnios nacionais.

Miranda do Douro, 29 de Abril de 2011

Crónica do estado da desunião
Sexta-feira, Março 4, 2011

Quem teve oportunidade de assistir ou de ver as notícias sobre o discurso do Presidente dos Estados Unidos sobre o estado da União, proferido no passado dia 25 de Janeiro, por certo que não ficou indiferente ao apelo à união nacional como condição necessária para enfrentar os obstáculos e sobretudo
como o desafio para que o país volte a estar na vanguarda dos avanços tecnológicos e do pioneirismo científico. Por um dia, vimos igualmente os diferentes membros do Congresso sentados lado a lado, sem a tradicional divisão espacial entre Republicanos e Democratas.

Sou contra unanimismos. Creio que um dos fundamentos das democracias e uma condição para o progresso social é a existência de diferentes de pontos de vista, de visões divergentes sobre a sociedade. Contudo, não posso estar mais de acordo com o teor do discurso de Barack Obama sobre a necessidade de mobilização e de cooperação. Um país que não colabora, que não se dispõe a trabalhar em conjunto, que não coopera em questões que só podem ser de interesse nacional, está necessariamente condenado ao fracasso, gastando os seus recursos nos devaneios político-partidários, nos jogos de poder e nos interesses sectários.

E o que acontece em Portugal? Vejam-se alguns exemplos bem recentes. O (novo?) aeroporto de Lisboa: primeiro era na OTA, “jamais” na margem Sul, depoisjá era na margem Sul, agora é em lugar nenhum. O Comboio de Alta Velocidade (TGV): primeiro era imprescindível; era já para arrancar; depois já não se faz; agora talvez uns quilómetros. E as apregoadas “reformas estruturais”: fazem-se, não se fazem, o que são, quais são? Ou seja, projectos que deveriam merecer um amplo debate e consenso, mas que, em rigor, vivem ao sabor e ao gosto das vontades político-partidárias. Leis que deveriam e mereciam ser amplamente negociadas e discutidas para poderem vigorar durante muitos anos, mas que acabam por ser revogadas assim que muda a cor política do governo.

Se existem razões estruturais para a crise nacional, uma delas é esta espécie de guerra civil que atravessa e corrói democracia portuguesa. O regime instalado assenta na lógica do vota em mim que eu dou-te emprego, em visões imediatistas que, quando muito, conseguem alcançar o horizonte de uma legislatura que, como se sabe, nem sempre dura os quatro anos naturais. O faz, desfaz e volta a fazer é uma constante nacional que tem atravessado todos os governos. Num país de parcos recursos é curioso vermos, em alguns lugares, surgirem novos empreendimentos, como novas estradas, ao lado de outras que não têm mais de vinte ou trinta anos que, por sua vez, substituíram as do antigo regime cujo alcatrão ainda por lá se deixa ver.

Se isto é verdade a nível nacional, muito mais grave é a nível regional e local. Aqui, a lógica do amiguismo, do compadrio, do clientelismo, emperra ainda mais o desenvolvimento sustentado e as políticas estratégicas que deveriam ser definidas a médio e longo prazo.

A verdade é que para além da crise económica cujos culpados são, como nos tentam fazer crer, os mercados internacionais, a sociedade portuguesa atravessa um mal-estar que alastra e mina a confiança essencial à coesão nacional. Esse mal-estar, como vem alertando a SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), deve-se, entre outros factores, a sinais de degradação da qualidade cívica, à degradação da confiança dos cidadãos nos representantes partidários, ao agravamento das desigualdades sociais e ao aumento do fosso entre os ricos e pobres. A verdade é que milhões de portugueses estão cada vez mais desiludidos com os políticos e governantes, e o povo anseia por uma democracia que teima em murchar cada vez mais. O Estado, embora tenha uma presença asfixiante na sociedade, não deixa um espaço verdadeiramente livre à iniciativa privada, demitindo-se muitas vezes do seu dever de regulação, para desenvolver duvidosas articulações com interesses privados.

Contudo, também existem, em Portugal, a nível nacional, regional e local, comunidades que conseguiram, ao longo dos tempos, elevados graus de desenvolvimento. E qual é o segredo dessas comunidades? A coesão, o trabalho, a união e os objectivos comuns aos membros da comunidade. Não faltam por aí bons exemplos que seria necessário copiar. Ora, as crises sociais são também oportunidades de reflexão e de revolução. Por isso, é altura de repensarmos e de mudarmos este regime, sem que seja necessário vê-lo cair de podre, ou que outros, de fora, nos venham obrigar a mudá-lo. Os partidos são necessários à democracia, mas temos que ser mais exigentes com eles. É preciso criar movimentos cívicos. É preciso que os partidos se abram à sociedade civil e não o façam apenas por altura das eleições. É preciso pensar em políticas comuns, em desígnios nacionais. É preciso afirmar e defender as diferenças. É preciso ouvir a canção para descobrir que, apesar das divergências, muito mais é (tem de ser) o que nos une que aquilo que nos separa.

Miranda do Douro, 26 de Fevereiro de 2011

Crónica do ano velho
Quarta-feira, Janeiro 5, 2011

Anho de brebas, nunca l beias, reza um ditado mirandês. Para quem queira acreditar na sabedoria popular, o ano de 2010 seria um “annus horribilis” porque, de facto, foram abundantes as abêberas nas figueiras da Terra de Miranda. Mas para quem não creia que o nosso destino possa estar inscrito no fruto primevo da figueira, não faltarão igualmente razões sobejas para olhar o ano transacto sem vontade que ele se repita.

Não vale a pena enumerar as desgraças que, ao longo do ano, foram desabando sobre nós ou muito próximas de nós. E também me parece inútil arrolar as medidas apregoadas como imprescindíveis, estruturais e miraculosas mas que, em rigor, num país de governação à vista, depressa deixam transparecer o seu imediatismo, revelando-se como meros paliativos que nada solucionam para além de algum clientelismo de fachada. Por isso, não admira que após a primeira versão do PEC seja necessário recorrer, de imediato, a uma segunda e já com a ameaça de uma terceira em que serão necessárias novas (?) medidas, sempre fundamentais e imprescindíveis.

A crise económica e financeira, para além dos seus impactos directos na economia e nos bolsos de cada um, veio colocar em causa um dos fundamentos da modernidade ocidental que o sistema capitalista adoptou como seu: a crença no desenvolvimento e no progresso como algo certo e inexorável. E o nosso destino é comandado por deuses sem rosto que, quotidianamente, nos entram pela casa dentro com palavras sibilinas que poucos entendemos: o “rating” que sobe e desce de AA para A+ e depois para AA-, os “juros da dívida pública”, o “yield”, o “rating”, o “outlook”… fazem de nós meros joguetes nesta ditadura financeira que comanda o nosso destino e impõe, sub-repticiamente, a sua lei da rolha.

Afinal, as albardas que, no final do século XIX, o mestre Bordalo Pinheiro, colocava nas costas do Zé Povinho parecem nunca ter saído do nosso dorso. O aumento de impostos continua a ser o remédio único quando os cofres Estado começam a dar mostras de fraqueza. Felizmente que o “bom povo português” tem as costas largas. Sabe aguentar estoicamente com os arreios com que lhe enfeitam a lombada. E Maria da Paciência, sua mulher, continua igualmente a ser a fiel companheira, ela sim insubstituível, nesta jornada interminável.

Mas o pior de 2010 é a herança que deixa para 2011. Para além das dívidas e da crise, é o pessimismo que ameaça atirar-nos para o buraco mais fundo de onde será mais difícil sair. E é também por isso que a actualidade de Bordalo Pinheiro se mantém intocável e premente. Só o humor, o riso, naquilo que eles têm de fecundo e de regenerador, nos podem ajudar nesta tão árdua missão de agir, politicamente, civicamente, para que não sejam sempre e apenas os outros a comandar o nosso destino.

Bom ano de 2011.

Miranda do Douro, 27 de Dezembro de 2010

Crónica Outonal
Quinta-feira, Outubro 14, 2010

Caem as folhas mortas sobre o lago;
Na penumbra outonal, não sei quem tece
As rendas do silêncio… Olha, anoitece!
– Brumas longínquas do País do Vago…

Florbela Espanca

Em Abril era a chuva que se eternizava, prolongando os dias nublados, turvos e sombrios. Em Setembro, é o sol quente a abafar os dias, cobrindo as manhãs com o nevoeiro outonal que prenuncia o cheiro a castanhas e a vinho novo.

Terminada a calma estival, encerrado o período balnear e, com ele, a época de incêndios, reacendem-se as chamas das guerrinhas políticas, das tricas sectárias, das chicanas partidárias, das sempiternas rivalidades clubísticas que, abençoado futebol, acaba por ser a mais saudável das guerras. Dentro de pouco tempo já teremos esquecido as letras, as melodias e os autores dos grandes sucessos de Verão, como o estrondoso êxito “Quem será o pai da criança?”, que animou muitos bailaricos, fez sorrir alguns e deixou muitos outros a pensar no portentoso enigma que se esconde por detrás desta modernidade. E é como se o país andasse também ao ritmo das estações, baloiçando ao ritmo do sobe e desce das temperaturas, envolto e embalado pelo devir dos dias. A verdade é que enquanto a gritaria se agita, trazendo para as primeiras páginas os fantasmas, reais ou imaginários, de mais uma crise política, das teias de corrupção envolvendo as mais proeminentes figuras do Estado, do aumento de impostos e taxas de juro, há outro país silencioso e sombrio, sorumbático e triste, apreensivo quanto ao seu futuro e sobretudo descrente nas suas capacidades e nas dos seus líderes.

Afinal o tempo, o fluir das estações, ainda é o pouco que resta de uma verdade transparente e lúcida entre a realidade exterior e o nosso sentir. O resto, cada vez parece filtrado por teias invisíveis que tecem um quotidiano com padrões que não correspondem à urdidura real.

O dinheiro dos nossos impostos sustenta uma realidade social que não compreendemos nem nos compreende. Entre essa realidade e aquilo que nos dizem dela há uma falta de sintonia atroz, como quando no cinema a banda sonora aparece dessincronizado da imagem. Basta ligar a televisão, abrir os jornais ou trocar umas palavras com o cabeleireiro da nossa rua, para perceber que vivemos numa realidade virtual, num filme em que o técnico de som juntou a banda sonora de outra película. A verdade é que o técnico não está doido, recebe ordens de outros que, por serem incapazes de fazer bem o seu trabalho, aplicam aos factos palavras e um discurso que não lhe corresponde.

Escutamos as justificações de indivíduos, acabados de condenar pelos crimes mais hediondos, arvorando-se em paladinos da honradez, e ficamos a pensar que algo não encaixa bem na notícia. Se alguém capaz de cometer tais selvajarias é capaz de se expressar com tanta desfaçatez, é porque vivemos num reino das alimárias. Ora, viver numa realidade virtual, cujos personagens mantêm diálogos de relato experimental, é um exercício esgotante, de verdadeira esquizofrenia social. Como se estivéssemos a assistir a um filme oriental, em versão original, ou com legendas invisíveis.

Tal como na literatura, o país parece viver uma “mise en abîme”, numa espécie de duplicação especular, em que os folhetins se alimentam dos factos da vida real, os verdadeiros dramas sociais se transformam em ficção, e a telenovela social é feita com argumentos de mentiras, subtilmente reunidos pela diplomacia mediática, dominadora e autoritária. Aproxima-se o Outono. É tempo de começar a fechar as janelas e esperar que alguma folha, ou a brisa fresca, nos acordem da letargia estival ou do doce sono em que há muito mergulhámos.

Miranda do Douro, 25 de Setembro de 2010

Crónica do deserto
Quarta-feira, Abril 26, 2006

Escrevo esta crónica algures nas Arribas do Douro, no Trás-os-Montes profundo, numa aldeia recôndita, encostada ao rio sobre o qual se debruça há muitos séculos. Desde o fundo dos tempos, quando ainda era um simples castro, que se vê calcorreada e habitada por legiões de andarilhos, viandantes, pastores, povos inteiros que demandaram a sua protecção. É verdade que o seu nome não aparece nos manuais de História. Mas os seus filhos – todos, sem excepção – são para ela verdadeiros heróis. Por isso, os vivos, que vivem fora – e são muitos – visitam-na sempre que podem. Os que lá vivem tratam dela com o Amor que se deve a uma mãe.

Um misto de lenda e de historiografia pretendeu que, durante alguns séculos, no período em que as hostes muçulmanas dominaram a Península Ibérica, esta região foi um extenso deserto. Uma enorme Terra de Ninguém, situada numa linha à volta do Douro, que dividiria os reinos mouros, a sul, e os cristão, a norte. Sabemos hoje que essa leitura não corresponde à verdade. O deserto não seria mais do que uma extensa área onde as correrias, os recontros e as pilhagens fizeram com que as gentes vivessem mais ou menos abandonadas, entregues a elas próprias e aos seus destinos, mas sem nunca abandonarem completamente as terras que eram as suas.

Hoje também acabo de chegar de uma cidade situada no outro lado da fronteira, León, onde tive oportunidade de participar numas Jornadas de Homenagem a um dos maiores vultos da Linguística Românica: D. Ramón Menéndez Pidal. No início do século XX foi este filólogo a descobrir e a mostrar muitas das relações históricas e linguísticas que unem, mais do que separam, as gentes que, por razões políticas e pelos acasos da história, foram colocadas em Nações ou Estados diferentes. Também ele, na sua imensa sabedoria, aderiu, numa primeira fase a essa tese do deserto. Contudo, depressa se acabaria por aperceber da inverosimilhança dessa hipótese.

Mas se Menéndez Pidal ainda fosse vivo constataria que tal teoria – criada por alguns historiadores que ora interpretaram mal as crónicas medievais, ora pretenderam legitimar as monarquias ovetense e leonesa, primeiro, e a Espanha, depois, como legítimos continuadores da realiza visigótica – essa teoria, dizia, se vai tornando verdade, embora com contornos e linhas ligeiramente diferentes.

O encerramento das maternidades, escolas, centros de saúde e outros serviços públicos, é uma machadada certeira na constituição dessa linha desértica que há-de tornar real a fronteira imaginária entre Portugal e Espanha. Ao contrário de outros países europeus, porfiaremos, orgulhosamente sós, numa política de desenvolvimento territorial baseada na litoralização do país, renitentes e desconfiados das ligações com a vizinha Espanha, afastando-nos da Europa e vendo passar os comboios de alta velocidade em linhas paralelas à nossa fronteira. Desta vez estamos no caminho certo. A tese do deserto ou do ermamento que, entre nós, teve em Alexandre Herculano um dos primeiros e mais fiéis seguidores, tem agora outra validade. O locus horrendus, o espaço desumanizado de que nos falam as crónicas medievais, está agora a emergir e há-de separar-nos e afastar-nos (talvez proteger-nos!) cada vez mais dos outros.

O medo dos mouros, secularmente impregnado na nossa memória e apregoado pela voz colectiva, tem hoje afloramentos, em plano vestigial, no medo do castelhano. De forma larvar mas com passos firmes – porque quero acreditar que se não se trata de decisões conscientes – haveremos de dar forma a esse grande descampado, que garantirá a viagem do nosso país-ilha no oceano onde vemos espelhada a nossa grandeza ou a ânsia dela. Por isso, insistimos em nos virar para o grande largo, fonte secular da nossa dimensão histórica, voltando as costas à Europa, que nos chama, mas à qual, inconscientemente, recusamos pertencer.

Crónica do fim do mundo
Quarta-feira, Janeiro 11, 2006

São manifestações cuja simbologia primeva no transporta para épocas remotas, em que as populações viviam fechadas sobre os seus paradigmas ancestrais, arreigados e imbuídos de crenças mágicas e naturalistas. As suas acções desenvolvem-se durante o período em que se celebra a morte do sol e da natureza – o fim do mundo simbólico – naquela pausa criadora em que a ordem está suspensa e de que o ciclo natalício herdou vastos atributos. Gritos, alaridos, injúrias, roubos rituais, invasão de propriedades, combates simulados e atitudes licenciosas, constituem paradigmas de comportamentos subversivos e, quantas vezes, marcadamente exorcísticos. As máscaras demoníacas de que são por-tadoras, os gestos obscenos, os gritos dilacerantes e a tradicional agressividade com que se exprimem, são o estereótipo mítico do caos, pai da desordem, da inversão mas também da força criadora.
A primeira a manifestar-se é a bielha, como se diz em mirandês, de São Pedro da Silva. No dia 13 de Dezembro, já ela e os “filhos”, um grupo burlesco de dançadores mascarados, agitam a quietude da aldeia, pedindo esmola em alegre irreverência. Os “mordomos” seguem-nos com sacos, cestos e até um cântaro para recolher as ofertas recebidas. Em tempos idos eram obsequiados com pão, cereal e carne de porco. Hoje, quase só com dinheiro.
Na madrugada do dia 26 de Dezembro sai o chocalheiro de Bemposta, percorrendo as ruas numa correria desenfreada, fazendo diabruras, assustando e pintando as pessoas, especialmente as raparigas. Na face direita da imponente máscara ostenta uma salamandra esculpida. De acordo com a natureza demoníaca, apresenta ainda grandes chifres na ponta dos quais estão espetadas duas laranjas. No cinto, traz chocalhos que vai tocando ao correr. No braço esquerdo, uma cesta de castanhas cozidas que oferece às pessoas que lhe dão esmolas. Na mão direita, uma enorme tenaz de ferreiro para roubas os tra-dicionais enchidos. Do queixo, pende-lhe uma barbicha e, envolta na cintura, uma enorme serpente!
Seguir-se-ão o carocho de Constantim, no dia 27 de Dezembro; a bielha de Vila Chã e o farandulo de Tó, dia 1 de Janeiro; o velho ou diabo de Vale Porco, para além do careto de Valverde e do chocalheiro de Bruçó, no concelho de Mogadouro, estes já desaparecidos na voragem dos tempos. São todos elas personagens funcionalmente idênticas, que se exprimem nas tradicionais máscaras de madeira e nas atitudes de desordem que todos compartilham. Nas máscaras, representando figuras tauromórficas, estão esculpidas serpentes e salamandras que, nalguns casos, lhes saem da boca, rodeando a face e a nuca e surgindo depois, como motivo coroatório, sobre o centro da testa.
A sua simbologia está certamente relacionada com o touro mas também, de uma forma mais abrangente, com o macho, como símbolos operativos do poder fecundante.
A serpente é o símbolo fálico, da fecundidade e principalmente da regeneração. Criatura que hiberna, logo morre e renasce ciclicamente, é o emblema da imortalidade que a perpétua recriação proporciona. Por outro lado, ao libertar-se todos os anos da pele velha, que deixa abandonada por campos e baldios, mais acentua ainda o seu carácter de perene regeneração.
Criatura infernal é também a salamandra, a quem os antigos atribuíam terríveis qualidades venenosas e a capacidade de resistir à acção do fogo onde viveria. Por isso, também ela participa desse carácter regenerativo, como símbolo da vida que se repete e perpetua. As suas cores vivas estão bem presentes nas laranjas que o chocalheiro de Bemposta leva espetadas nos chifres e a sécia de Tó transporta como adorno. Numa época em que a natureza se apresenta como inerte e decadente, representam a vida, tal como as castanhas e os bugalhos se encontram, naturalmente, sintonizados com a morte. Símbolo usual da morte é ainda o negro, que aparece quer na indumentária quer na cara enfarruscada de carvão. Outras vezes, estes rituais de passagem adquirem ainda um carácter explícito de oposição velho/novo, de que a denominada “festa da velha e do menino”, em Vila Chã da Braciosa ou a “festa do santo menino”, em Tó, deixam perceber, por entre uma névoa diáfana de reinterpretações cristológicas.
Todas estas personagens são expressões comunitárias de cosmovisões arcaicas, que o cristianismo estigmatizou mas que, em muitos casos, se encontram hoje amalgamadas com os seus próprios ritos. A sua ambivalência traz-nos os ecos do fim do mundo, dos mitos arcaicos do ano velho que finda, a par dos ritos do renascimento, das crenças no ano/tempo novo, visto como cíclico e renovável. Provêm porventura de um tempo em que a grande-mãe (deificação panteísta dos capacidades matriciais da terra) e as potências celestes (expressões múltiplas ou unificadas dos poderes fecundantes do céu) possuíam ainda um equilíbrio, que tempos posteriores foram subvertendo, mas que persiste ainda imanente, num plano vestigial, no inconsciente colectivo das gentes do Nordeste Transmontano.

Miranda do Douro,
28 de Dezembro de 2005

Crónica das eleições locais
Quinta-feira, Setembro 29, 2005

Num país de tão reduzidas dimensões como o nosso, centralizado e macrocéfalo, são as autarquias locais os motores do desenvolvimento e os actores da democracia e da política no que elas têm de mais nobre, isto é, na proximidade com os cidadãos e no cuidar dos interesse da polis, ou seja, da cidade.
Se é verdade que o poder local é responsável por algum desenvolvimento, também não deixa de ser verdade que lhe cabe muita responsabilidade em muitas enormidades urbanísticas e atropelos ao desenvolvimento que encontramos por esse país fora.
Sinteticamente, podemos dizer que são três os princípios básicos em que tem assentado a maioria dos modelos de desenvolvimento(?) local: o cimento, o ajardinamento e o arrotundamento.
O primeiro é responsável por um conjunto de obras que vêm transformando as nossas cidades, vilas e aldeias. Nesta matéria, é justo reconhecer que o poder local tem contribuído para dotar o país de algumas infraestruturas importantes para o bem-estar das populações. Mas também estão neste rol muitos pavilhões multiusos, que de multi só têm o prefixo, muitas estradas sem saída e muitas pontes que dão passagem para qualquer margem.
O segundo consiste em ajardinar todos os recantos em que a imaginação não entra. Conheço alguns onde foram instalados lindos bancos de jardim, mas onde ninguém se senta, com candeeiros a condizer para iluminar a relva que é religiosamente cortada todas as semanas, repuxos e fontes onde se desperdiçam alguns hectolitros que tanta falta faziam noutros lugares.
Na continuidade desta política, em muitos lugares mais centrais procede-se ao arrotundamento, instalando também repuxos, fontanários ou outros elementos com água. As rotundas, que para alguns são arte e para outros meros obstáculos da estrada, crescem como ervas daninhas por esse país fora. Um presidente de Câmara que não construa pelo menos meia dúzia na sua autarquia, não presta! Podem não ter absolutamente nenhuma utilidade e até serem prejudiciais ao trânsito, estarem colocadas em zonas onde nem há peões nem tráfego automóvel quase nenhum. O que importa é ter muitas. É uma moda que veio para ficar, transformando tudo quanto era cruzamento em rotunda
A identidade dos velhinhos concelhos medievais funda-se na ideia de um território, real ou imaginário, real ou hiper-real, mas é também a consequência do abandono secular por parte do poder central. Entregues ao seu dever de sobrevivência, foram criando a espessura e a rigidez que ao abandono dá aos homens e às coisas. E se hoje assistimos, em algumas regiões, ao aparecimento de um certo localismo, tal não pode ser explicado por um verdadeiro genius loci, na medida em que ele é com frequência adoptado por indivíduos ou por grupos de indivíduos translocalizados.
Quem esperava que as eleições locais fossem a oportunidade para o aparecimento de ideias novas, inovadoras, fique desde já desenganado.
A julgar, pelo andar da carruagem, nomeadamente pelos debates a que temos assistido – já descontados os casos de populismo bacoco – ainda não descortinei qualquer projecto inovador para um concelho onde me desse vontade de ir viver. As palavras de ordem repetem-se, as promessas atrapalham-se umas às outras, num ensopado tão repetitivo que corremos o risco de nele nos diluir na tortura da igualdade.
Este suplício, que a pouco a pouco vai destruindo os alicerces da nossa identidade, é bem visível na repetição exaustiva dos modelos de desenvolvimento, na arquitectura, no mobiliário urbano que preenche as ruas das cidades mais cosmopolitas e das aldeias mais recônditas. Em todas encontramos os mesmos bancos de jardim, os mesmos candeeiros, os mesmos caixotes do lixo. Aos poucos, todos vestiremos de forma idêntica, teremos gostos padronizados mas também cada vez mais aversão à diferença. Esta uniformização aniquilará a diversidade e assim se extinguirão as culturas, tal como as línguas e as espécies.

Miranda do Douro,
23 de Setembro de 2005

Crónica dos dinossauros
Sábado, Julho 9, 2005

Há quem pense que os dinossauros já se extinguiram há milhões de anos. Há quem coloque em dúvida se eles terão ou não existido. Há quem se interrogue sobre como terão desaparecido. Há quem diga que se tratava se tratava de monstros horríveis. Há quem garanta que eram apenas uns lagartos um pouco maiores, alguns até muito dóceis, pacíficos e nada terríveis. Seja como for, a verdade é que todos esses auros, ídeos e ópodes há muito que desapareceram da face da terra. Contudo, embora os cientistas não os reconheçam como tal, ficaram algumas espécies, disfarçadas, é certo, mas facilmente reconhecíveis e identificáveis. Vejamos quem são, onde estão e o que fazem.
A começar pelo fim, por ser a resposta mais fácil, geralmente não fazem grande coisa. Ou melhor, fazem o mesmo que fizeram no dia anterior. Essa é, aliás, a sua função e a razão da sua existência: prolongarem-se e perpetuarem-se.

Onde estão?
É bastante difícil vê-los. Regra geral, escondem-se em gabinetes com ar condicionado, protegidos por secretárias muito eficientes – não está! está em reunião! ligue mais tarde! – ou por telemóveis sempre ocupados por ser necessário gastar o crédito mensal colocado à sua disposição.
Quem são?
São os dinossauros da inércia e do nepotismo. Inércia porque são os primeiros a querer manter o statuo quo da sociedade. A agarrarem-se aos lugares como carraças. E de tal forma o fazem e com tanta força que acabam por convencer-nos, e por se auto-convencer, de que o lugar lhes pertence por legítimo e fundado direito. Nepotismo porque se alimentam de uma lógica de distribuição de benesses, muitas vezes em nome da governabilidade, que na prática corresponde à multiplicação das nomeações partidárias, via cargos de confiança, desmoralizando e travando o que devia serviço público.
Os dinossauros nasceram numa longínqua era em que o país se democratizou. Mas, em rigor, prolongam os antigos vícios próprio do regime autoritário, despótico e, como antes se dizia, salazarista.
Aliás, o cidadão de Santa Comba – o “ditadorzinho dos tostões” – , como lhe chamou Fernando Pessoa, deve estar a rir-se de contentamento ao olhar para o estado em que isto está e vendo o seu regime corporativo transpor subrepticiamente as pontes da ignorância. Instalando-se nos lugares chave e tomando conta do país.
A chamada “lei de limitação dos mandatos” pode ser um passo importante. Mas nada mudará se não se acabar com esta espécie de dinossauros. Ao contrário dos outros, cuja extinção representou uma catástrofe à escala planetária, a destruição destes representará um acto de salubridade e de limpeza do planeta.
Mas não se pense que os grandes dinossauros são aqueles que ocupam os lugares visíveis ou de chefia. Não. Esses vão e vêm com a mudanças de governos. Os verdadeiros são aqueles que se encontram disfarçados, que não fazem ondas porque nem ondas fazem, que ocupam lugares intermédios, para os quais foram nomeados porque sim, porque o marido da tia da primeira dama da cunhada é sobrinho de um conhecido que já foi deputado, e coisa e tal.
A democracia, como Churchill terá dito, “é o pior regime, excepto os outros todos”. São muitas as suas virtudes e muitas as suas imperfeições. Uma delas é a criação de teias de interesse – onde flutuam estes dinossauros da inércia – que é preciso desemaranhar para que a justiça, a equidade e a competência destruam o nepotismo, o clientelismo e o empreguismo.

Braga, 1 de Julho de 2005

Crónica dos estrangeiros
Quinta-feira, Março 24, 2005

O país dos brandos costumes, da emigração, secular exportador de mão-de-obra, cuja torrente ininterrupta remonta pelo menos ao longínquo século XVI, descobre agora que é menos tolerante em relação ao imigrantes e estrangeiros que pretendem instalar-se no nosso país. O Presidente da República apressou-se a pôr água na fervura, a clamar aqui d’el-rei, que talvez não fosse bem assim, embora o melhor talvez fosse ir pensando em estratégias de combate e remediação. Ou seja, encontrar uma forma de integrar os cerca de 500 mil estrangeiros que vivem, legalmente, no nosso país; que produziram no ano passado cerca de 5% da riqueza nacional; que aumentam o nível de formação da nossa mão-de-obra; que trabalham em sectores de actividade que os portugueses recusam; em condições que os portugueses não querem.
A violência do problema colocado hoje pelo estrangeiro decorre sem dúvida das crises de construção moral e religiosa. Mas deve-se sobretudo ao facto de a aceitação do estrangeiro, proposto pelas nossas sociedades, se revelar inaceitável para o indivíduo moderno, cioso da sua diferença não somente nacional e étnica, mas essencialmente subjectiva, irredutível e inabalável.
Filho do ódio e do outro, o estrangeiro não é nem a vítima romântica, nem o intruso responsável por todos os males da cidade. Inimigo a abater nos grupos humanos mais selvagens, o estrangeiro torna-se, na esfera das construções religiosas e morais, um homem diferente que, desde que aceite as leis da cidade, pode ser recebido pelos naturais. No judaísmo, no cristianismo e até no humanismo das Luzes, as opiniões sobre esta aceitação variam. Contudo, apesar dos seus limites e dos seus defeitos, estas posições configuram-se como os baluarte mais sólidos contra a xenofobia.
Curiosamente, os primeiros estrangeiros que vêm da aurora da nossa civilização são estrangeiras: as Danaides. Estas nativas do Egipto, condenadas a fugir para Argos como forma de se livrarem da brutalidade dos filhos dos Egípcios, só encontram a paz ao matar os primos com quem tinham sido obrigadas a casar-se, desposando, segundo, algumas variantes da lenda, simples mortais. Simbolicamente, representam o nosso percurso civilizacional, da endogamia para a exogamia. A violência contra os seus é, sem dúvida, necessária para fundar uma nova aliança, o casamento entre pessoas diferentes, mas iguais em direitos.
Nos tempos homéricos, o forasteiro era fortemente protegido pelos deuses e a Ilíada proclama que é um delito religioso maltratar os estrangeiros. A proxenia, institucionalizada na época clássica, encontra-se já largamente disseminada nos usos e costumes. Sob a protecção de Hermes, o estrangeiro é “aquele que procura”, ou seja, o intermediário entre a cidade e a comunidade estrangeira.
Contudo, o mundo arcaico vive fechado sobre ele mesmo. O estrangeiro faz medo. Neste sentido, a cidade olha para ele com desconfiança, ou mesmo hostilidade. Porém, quando decidem instalar-se na cidade e são considerados úteis, podem adquirir a categoria de meteco. É-lhes imposta uma taxa de domiciliação que, em Atenas, foi por vezes retirada, sem dúvida com o objectivo de atrair outros estrangeiros, necessários para a cidade. A partir de meados do século V, Atenas dá aos estrangeiros uma protecção jurídica. No entanto, nunca lhes confere o direito de propriedade, apenas de inquilinos. Impulsionado pelas guerras com a Pérsia, cristaliza-se o conceito de bárbaro que, no início, significava apenas aquele que não sabia falar grego. Entre os autores trágicos, Sófocles, Ésquilo e Eurípedes, bárbaro significa “incompreensível”, “não grego”, e enfim “excêntrico” e “inferior”.
O sentido de “cruel”, que hoje lhe atribuímos, ser-lhe-á apenas conferido quando os “bárbaros” invadirem Roma. Nos séculos IV e V eram integrados no Império Romano, que os acolhia com estatuto diferenciado, sem no entanto se sentir ameaçada pela “fúria bárbara” que a fará explodir mais tarde. Considerados úteis, porque bons soldados e lavradores, os barbari têm um estatuto jurídico incerto, distinto mas igual ao romanos.
A Revolução Francesa, matriz não ultrapassada da liberdade humana à escala planetária, proclama na sua Declaração que todos os homens nascem livres e iguais em direitos. Jamais um documento tinha sido tão explícito. Contudo, longe de proclamar um igualitarismo natural, a Declaração inscreve a igualdade na esfera das instituições humanas, políticas e sobretudo na nação. Todos os cidadãos têm os mesmos direitos. Ninguém é excluído… excepto os estrangeiros.
Os românticos, reagindo ao cosmopolitismo racionalista, fundam o conceito de nacionalismo na literatura e no génio da língua nacional. O herói romântico deve ser capaz de viver em diversos lugares e de se adaptar a diferentes povos. A sua excentricidade ganha assim forma, oferecendo-se como terreno fértil de onde brotará o conceito heteróclito de inconsciente. Nele cresce também a noção freudiana que, embora no campo específico da psiquiatria, seria incompreensível fora da sua filiação romântica e humanista. A presumível unidade do “eu” fractura-se numa alteridade que se torna parte integrante do mesmo. A partir de agora o estrangeiro não é nem uma raça nem uma nação. O estrangeiro está em nós mesmo. Somos nós mesmos os estrangeiros. Por outro lado, Freud adverte que é o eu mais arcaico, narcísico, ainda não delimitado pelo mundo exterior, aquele que projecta fora de si o que experimenta nele próprio como perigoso, infeliz, para o transformar num duplo estrangeiro, inquietante e demoníaco. O estranho aparece assim como uma defesa para o eu desamparado. Este protege-se, substituindo a imagem do duplo acolhedor por um duplo hostil onde projecta os impulsos destrutivos que não consegue conter.
Mas a ética da psicanálise devia implicar também uma ética política: um cosmopolitismo transversal aos países, aos governos, às economias e aos mercados, em caminho para uma humanidade onde a solidariedade deve ser fundada na consciência do nosso inconsciente. A diferença é a condição última do nosso estar com os outros. Na esperança de que o caminho mais rápido para a barbárie não seja, como em outros períodos da história, a civilização.

António Bárbolo Alves
Braga, 23 de Março de 2005

Crónica da identidade portuguesa – II
Segunda-feira, Janeiro 3, 2005

A questão da identidade, pelo menos na acepção de identidade-étnica, como conceito descritivo da etnografia, decorre das errâncias ideológicas que se produziram com o advento dos Estados-Nação. A pertença de um indivíduo ou de um grupo ao conjunto nacional é definida segundo critérios de etiquetagem administrativos que produzem uma identidade jurídica, expressa concretamente pelos documentos de identidade, que definem modos de comportamento – como morrer pela pátria – e constituem grupos sociais (portugueses, espanhóis, etc.). Este sistema nacionalitário é semioticamente muito eficaz porque, para além dos princípios de codificação que o fundam, é compatível com outras construções estruturais: grupos regionais, partidos políticos, associações, comunidades religiosas, etc.
Falar de identidade implica conhecermo-nos e conhecermos os outros. Como qualquer revolução, também a mundialização vai deixando as suas marcas. Aceitamos as vantagens ou a inevitabilidade da globa-lização mas também nos agastamos quando sentimos que alguma ameaça paira sobre aspectos da nossa independência e da nossa identidade que julgamos essenciais. Apesar do fascínio pelo moderno, manifesta-se, nos indivíduos e nos grupos, uma recusa, um medo de perder a identidade, de não ser os mesmos. Procuramos, por isso, acentuar as nossas originalidades culturais, as diferenças, os marcadores, os diferentes signos da nossa pertença que nos caracterizam e nos distinguem em relação aos outros.
Contudo, mesmo admitindo a existência de traços, de fundos ou substratos culturais comuns, partilhados pela maioria de um grupo social, dificilmente podemos admitir que todos partilhem os mesmos conhecimentos. Assim, a identidade social só pode ser uma representação e uma metáfora. Talvez que em rigor devêssemos falar de identidades, porque a identidade única é uma sim-plificação. Cada um de nós tem várias identidades, às vezes perfeitamente compatíveis, outras vezes mais conflituosas. Admitir a existência de uma identidade única seria cair naquilo a que Amin Maalouf chama “identidades assassinas”, que nos reduzem a uma só pertença e “instala os homens numa atitude parcial, sectária, intolerante, dominadora, às vezes suicida, e os transforma muitas vezes em assassinos ou seguidores de assassinos”. O autor de As identidades assassinas leva mais longe a sua crítica ao afirmar que, nos nossos dias, e não apenas com os grupos de fanáticos, continua a prevalecer uma concepção tribal de identidade. É necessário, conclui, criar as condições e encorajar as pessoas a assumir as suas identidades múltiplas, sob pena de estarmos a criar legiões de sanguinários loucos e à deriva.
Ora, a identidade colectiva é um processo de construção de sentido e, portanto, uma ideologia. A este título ela constitui também um objectivo e um instrumento do poder. O problema é saber a partir de que elementos, porquê e por quem é feita essa construção. Em alguns casos, pode levar directamente a realidades materiais, a práticas comuns, a simples objectos cuja carga identitária ultrapassa a sua condição de utensílio para fazer deles referências sociais. Noutros casos, os indivíduos e os grupos sociais transformam esses materiais e redefinem o seu sentido em função de elementos que se enraízam numa determinada estrutura social e num espaço-tempo. A identidade colectiva também nunca pode ser um estado. Ela pode apenas desaguar nessa impossível limitação que consiste em condensar num instante aquilo que é feito de átomos de tempo, uma construção social, de uma certa forma sempre em devir. Uma identidade de hoje não é a de ontem nem será a de amanhã. O único elemento imutável parece ser a raiz etimológica, idem, a mesma coisa, o mesmo a que nos apegamos com as nossas necessidades, as nossas esperanças e as nossas apreensões.
Em pleno processo de integração europeia, a identi-dade nacional configura-se como preocupação essencial, quer do ponto de vista da preservação de interesses nacionais quer do ponto de vista do enriquecimento cultural europeu. A Europa comunitária, que se pretende construir, assenta na variedade das culturas nacionais e regionais, cujo respeito e desenvolvimento o Tratado de Maastricht se propõe como objectivo (artº 128). Cada vez mais se entende que o reforço da unidade europeia passa pelo desenvolvimento e potenciamento da diversidade de culturas. Longe de ser vista como incompatível, a relação entre a convergência e unidade dos países membros e a formação da respectiva identidade nacional, é encarada como cada vez mais imprescindível.
Para os teorizadores do epígono dos Estados-Nação, os velhos Estados já não são capazes de enfrentar as exigências da integração europeia e da mundialização, devendo encontrar novas formas de identidade e de sobrevivência. As funções do Estado, nomeadamente a função social, só podem ser preenchidas se forem transferidas para unidades políticas supranacionais. Do outro lado da trincheira estão aqueles que defendem que a Nação é ainda o meio mais perfeito de organização social, o único que pode responder aos anseios e necessidades humanas.
Nesta encruzilhada, a nação portuguesa está naturalmente sujeita aos vendavais do mundo. Por uns, é vista como a última salvação para a consciência da identidade nacional, única garantia de sobrevivência nesta época tempestuosa e incerta que, ao pretender diluir as diferenças, esmaga e aniquila as identidades. Por outros, será obrigada a encontrar novas formas de sobrevivência na casa comum que é a terra inteira.
O processo de integração europeia tem levado a que as fronteiras nacionais, que talvez imaginássemos tão sólidas e lineares como os mapas onde nos habituámos a vê-las desenhadas, se diluam num espaço mais vasto, e talvez incerto, que é a União Europeia. Vemo-nos agora obrigados a abandonar o nosso rectângulo protector, o hábito a voltar as costas à terra, olhando o grande largo oceânico, condenados a partilhar algo que construímos e guardámos como o maior dos nossos tesouros: a soberania nacional, ou o barco-nação, a bordo do qual todos nascemos já embarcados.
Esta imagem, real e simbólica, evocada por Fernando Pessoa, na Ode Marítima, parece adaptar-se perfeitamente a Portugal. Um país sem problemas de identidade ou de identificação. Mas a vontade colectiva que, segundo Oliveira Martins, constituía a base da nossa identidade, já não assenta nos mesmo pilares. A história comum, a língua, a cultura, a religião enquanto hábito sociológico, continuam de pé. Mas a nossa ilha sem o ser parece cada vez mais à deriva. Numa espécie de governação à vista, mas sem os sonhos das índias nem as quimeras imperiais que, outrora, conduziram o nosso barco.

Braga, 22 de Dezembro de 2004

Crónica do final do ano
Quinta-feira, Junho 24, 2004

Mas o seu legado alarga-se também a mais uma tentativa de implantar outra Reforma que é, como se sabe, uma das noivas mais desejadas no nosso país, há muito de casamento marcado, mas sem sim à vista. A agrária foi certamente das mais famosas. Pelas paixões que a acompanharam, pelo clima inflamado com que se viveu o pós 25 de Abril, deixou as suas marcas na memória colectiva e naqueles que a quiseram desposar, mas que nunca se revelaram à altura do dote. O caso da Reforma da Educação é, porém, bem mais complexo. Veiga Simão, ministro de Marcelo Caetano, foi o primeiro a tentar a ousadia de a levar até ao fim. A sua Reforma introduziu uma verdadeira reviravolta no ensino em Portugal. Estabeleceu novos critérios pedagógicos e curriculares, acabou com os exames de acesso ao liceu e à universidade e instituiu o ciclo preparatório, dois anos de tronco comum para escolas técnicas e liceus, a vigorar em instalações próprias e que substituíam os dois primeiros anos de ambos os ramos. Ao mesmo tempo, a escolaridade obrigatória foi alargada para seis anos. A partir daqui a sede da REFORMA foi-se transformando num autêntico frenesi, para não dizer obsessão. O problema é que as feridas abertas, nos idos anos de 1968, nunca chegaram a cicatrizar. Lá se vão fazendo uns curativos, mas jamais se deixa tempo suficiente para a regeneração completa dos tecidos. Ora, a institutição escolar precisa de ter referências, de mitos, que se podem criar com reformas, mas que só o tempo é capaz de sancionar.
Uma questão que se coloca é a razão pela qual se fazem reformas. Quais as verdadeiras motivações que lhe dão origem? Podemos pensar que a necessidade da reforma advém da constatação de que algo está mal. Contudo, as taxas de insucesso, a insegurança, a disparidade de oportudades entre classes sociais, entre etnias ou sexos, a distanciação entre os programas e a evolução da sociedade, não constituem sempre um problema para todas as sociedades nem para todas as épocas. Desde logo porque estas realidades são elas próprias o produto de uma construção social complexa. Depois, porque as realidades têm normas e valores que dependem das épocas e das sociedades.
As reformas educativas deviam trazer mudanças no ensino realizado na escola. Estas mudanças podem ser inovações ou o recurso a métodos já antes utilizados. Por outro lado, uma reforma pode basear-se nos objectivos ou ser apenas dirigida aos meios de ensino. Deve ser uma resposta institucional à necessidade de mudança, muitas vezes engendrada no imediato, na sequência duma crise, pela insatisfação crescente de uma parte da população em relação ao sistema educativo, a um distanciamento julgado incomportável entre a procura de instrução e a oferta que a escola pode oferecer ou ainda à simples vontade de mudar as formas de fazer.
Ora, como em Portugal os Ministros da Educação se sucedem a uma cadência relativamente rápida, cada um pretende deixar o seu nome associado a uma reforma. A uma reforma sucede-se outra. Os responsáveis políticos parecem mais preocupados em mostrar à opinião pública a validade da sua reforma, do que com os meios de a pôr em prática. Trata-se de uma espécie fuga para a frente, um jogo alucinante, infernal e perverso que consiste em deslocar as contradições e os problemas de fundo, sem nunca realmente os enfrentar.
A escola portuguesa vive actualmente num grande processo de mudança e de profundas mutações: implantação de novo sistema de gestão, renovação do corpo docente, introdução e utilização das Tecnologias da Informação, novas práticas pedagógicas, novas práticas de avaliação, etc. Estes temas e outros, tal como a democracia na escola, a colaboração entre docentes e encarregados de educação, a partilha da autoridade, a pedagogia de projecto, os projectos dos alunos, o abandono escolar, são alguns dos desafios actuais que se colocam à nossa Escola.
Reformar significa mudar para responder aos desafios. Se não for para mudar, para quê reformas?

António Bárbolo Alves
Braga, 23 de Junho de 2004

Crónica de um país enorme
Quarta-feira, Abril 7, 2004

A recente tragédia de Entre-os-Rios veio ensinar-nos, entre muitas outras lições, que Portugal é um país enorme. O problema que aqui se coloca é o da distância, adjectivo cujo significado não é de certo necessário explicar, pelo menos para a maioria dos leitores. Numa vulgar definição de dicionário diz-se, numa primeira acepção, que é o “espaço entre duas coisas ou pessoas”. Numa segunda, para quem gosta de ir mais longe, acrescenta-se que é também o “intervalo de tempo entre dois momentos”. Ou seja, não se pode falar de “perto” nem de “longe” sem antes ter uma escala ou medida adequadas. Neste caso, como ficou claro nos últimos tempos, a escala não são só os metros ou quilómetros mas também o tempo que demora a percorrê-los. Assim, por exemplo, a distância entre Castelo de Paiva e o Porto é exactamente a mesma que entre esta última cidade e Lisboa, uma vez que são necessárias cerca de duas horas para chegar de uma a outra.
Uma outra lição sobre a grandeza do nosso país foi-nos dada pelos senhores engenheiros quando falavam no colossal número de pontes existentes. Umas largas centenas, dezenas das quais a carecer de obras urgentes! Não há dúvida, o pequeno rectângulo atlântico transformou-se num gigante, difícil de medir e mais difícil de dominar. Como será em outros países cinquenta ou cem vezes maiores que o nosso e com o número de pontes também a multiplicar pela mesma ordem de grandeza?
Há poucos dias um amigo espanhol, profundo conhecedor de Portugal, tentava demonstrar-me que os espanhóis são muito mais gregários do que os portugueses. A prova, dizia ele, era que em Espanha quase todas as aldeias e cidades têm uma Plaza Mayor, lugar de encontro comunitário e onde todas as ruas vão dar . Em Portugal, contestava eu, há também uma grande Praça Maior. Chama-se Terreiro do Paço e fica em Lisboa. O poder exercido a partir desta praça central faz de Portugal um país enorme e ingovernável.
E não tenhamos ilusões: não será o próprio poder a fazer a sua redistribuição. A sua natureza consiste justamente em proteger-se, lutando pela sua auto-conservação e não pela sua partilha. Quando muito fala-se em dar responsabilidades. Estas sim, são facilmente distribuídas. Mas aquele é mais dificilmente compartilhado. Aqueles que detêm o poder não estão dispostos a cedê-lo e o povo, encantado pelas telenovelas e fascinado pelas orgias mercantis dos centros comerciais, não parece preo-cupado em reclamar que os centros de decisão sejam colocados próximos dele, ou seja no país real. O Presidente da Câ-mara Municipal de Castelo de Paiva deu o primeiro sinal ao recusar-se a ir a Lisboa depor perante a Comissão de Inquérito.
Mas quantas pontes mais será necessário ver cair para percebermos que não é a partir do Terreiro do Paço que se solu-cionam os problemas do país real?
Diz a sabedoria popular que a culpa morreu solteira. Não acredito que desta vez ela possa ser casada. Até porque, para além das conclusões, científicas e objectivas, que a Comissão de Inquérito encontrará para explicar a tragédia de Entre-os-Rios, ninguém dirá que a ponte caiu porque estava abandonada, demasiado longe do poder de decisão. Recordo-me que, quando se discutiu (ou não se discutiu) a regionalização, um dos argumentos dos anti-regionalistas era que Portugal era demasiado pequeno para ser “dividido”. Todos podemos estar de acordo quanto ao princípio, mas não quanto à substância. De Bragança a Lisboa não são só 500 quilómetros, é um dia de viagem e ainda é preciso encontrar transporte. (Perdão, há aqui um pequeno lapso da minha parte. Agora há um avião, pago a meias pelo utente e pelo estado, que faz uma viagem em uma hora e meia entre esta cidade de Trás-os-Montes e a capital. A viagem custa cerca de 25 contos para quem estiver interessado. E já agora, para informar os leitores, acrescento que a distância entre Nice e Paris é de cerca de 900 quiló-metros, há um avião todos os 25 minutos, cinco ligações diárias em comboio, e o bilhete custa os mesmos 25 mil escudos).
Eis uma das razões pelas quais Portugal continuará a ser um país enorme, demasiado grande para ser governado. Estou convencido que mais tarde ou mais cedo seremos obrigados a mudar. Infelizmente, como tem acontecido na nossa história, seremos obrigados. E não se trata aqui de defender a regionalização que, para muitos, está definitivamente adiada para as calendas gregas. Chamem-lhe descentralização, regionalização, aquilo que quiserem. Mas se não se encontrar um mecanismo democrático de aproximar os centros de decisão dos lugares onde elas são necessárias, continuaremos a criar Institutos, Juntas, Fundações… que se hão-de revelar impotentes para resolver todos os problemas do país real.

Nice, Março de 2001

Abril 2001

Crónica do estádio da nação
Quinta-feira, Março 4, 2004

De repente que o país acordou outra vez. Adormecido pelas lições telenovelescas que aguçam o apetite e aumentam a cultura nacional, empanturrado com os escândalos da vida real que anunciam a igualdade dos cidadãos perante a lei, estremeceu com o absurdo do número de abortos, com a realidade dos desmanchos clandestinos, com a crueldade de ver julgadas na praça pública as mulheres que cometeram o crime hediondo de não terem dinheiro para se deslocarem a Espanha comprar caramelos ou a Inglaterra para fazer compras.
Aqui d’el Rei que isto não pode continuar, gritaram uns. Hipocrisia, ripostaram outros.
Beatice e cinismo, digo eu, não faltará a alguns. Responsabilidade e compreensão todos precisamos um pouco para ver com mais clareza esta questão que diz respeito a todos. É tempo de deixarmos de enterrar a cabeça na areia como faz a avestruz. São centenas de milhares de abortos que se fazem por ano em Portugal. É tempo de reconhecer a essas mulheres o direito aos actos que praticam conscientemente. E nós como cidadãos e cidadãs, temos que reconhecer esse facto e esse direito. Sem radicalismos, mas com consciência solidária e fraterna para uma sociedade mais justa, onde a sexualidade não seja um tabu.
No meio do marasmo e da depressão nacional esta questão saltou de novo para as primeiras páginas de alguns jornais e mereceu honras e destaques em algumas televisões. Contudo, pelo andar da carruagem, ainda não me parece que será desta que vamos mudar a página e acertar o passo com outras sociedades unanimente reconhecidas como mais desenvolvidas. Há aspectos que me chocam na forma como este debate começou a ser feito. O primeiro é ver a religião chamada aos palanques da discussão. A questão pode ser política, social, moral, ética, mas nunca religiosa. Não importa qual a religião que está em causa. O que importa dizer é que nenhuma religião tem o direito de nos impor as suas leis nem os seus princípios. Aceitemo-los, se quisermos. Mas impô-los, não. Aliás, a defesa da vida não é apanágio das religiões. Deus, que nada tem certamente a ver com isto, tem sido, pelo contrário, uma das armas mais mortíferas com que os homens se têm barbaramente torturado e exterminado ao longo dos séculos.
No meio dos ortodoxismos saloios invoca-se ainda o direito dos médicos à objecção de consciência, colocando naqueles que estariam dispostos a fazer esta prática o estigma da responsabilidade e da vergonha. Cabe perguntar se nos outros países onde a interrupção voluntária da gravidez é assumida com a naturalidade e a dignidade que o acto merece, os médicos que a praticam são mais irresponsáveis que alguns médicos portugueses, solidamente ancorados e irredutíveis nos seus princípios.
Interroguemo-nos igualmente se as mulheres e os sociedades onde esta prática é legitimada são menos defensoras da vida e da espécie humana que a sociedade portuguesa que continua a julgar, a criminalizar e a condenar à prisão quem pratica o aborto.
Outro aspecto que me repugna é ver a forma como alguns reclamam a exclusividade do respeito pela vida humana. Somos todos pró-vida. Quem for a favor do aborto é doente porque não respeita os princípios de sobrevivência da espécie. O que está em causa não é a defesa do aborto, é o direito à interrupção voluntária da gravidez, que deve ser praticado de forma digna, sem a intolerância que continua a provocar muitas mortes, traumas, complicações de saúde e condenações à prisão.
A discussão tem de ser séria, sem preconceitos e não pode basear-se exclusivamente no reconhecimento da legitimidade do ovo / embrião enquanto ser humano (ainda que incompleto) ou, pelo contrário, na valorização dos direitos da mãe em controlar, até ao último passo, a gestação. Talvez até nem deva ser reduzida à simples expressão de um SIM ou de um NÃO. Há muitas outras questões que podem e devem ser convocadas para o debate: a contracepção, a utilização de embriões excedentários para investigação cietífica, são apenas mais duas que de repente me ocorrem.
No estádio da nação sente-se uma catalepsia profunda. Se a discussão sobre a interrupção voluntária da gravidez fosse capaz de animar as hostes, seria uma boa forma de nos retirar do marasmo generalizado. Se assim não for, continuaremos a correr atrás da carruagem:
─ Ainda os apanhamos!
─ Ainda os apanhamos!

António Bárbolo Alves
Braga, 20 de Dezembro de 2003